No Dia das Crianças, vitrines se enchem de brinquedos e famílias procuram presentes capazes de provocar sorrisos. Mas a celebração também nos convida a olhar para o cotidiano: quanto tempo dedicamos a conhecer nossos filhos? Sabemos o que os alegra, o que os preocupa e o que tentam nos contar? A infância precisa de adultos dispostos a escutar essas respostas.
Toda criança tem o direito de ser incrível. Isso
significa poder descobrir quem é, desenvolver suas possibilidades e sentir que
seu valor existe antes de qualquer conquista. A criança que aprende depressa e
aquela que precisa de mais tempo merecem cuidado e oportunidades. A que se
expressa com facilidade e a que ainda procura palavras para explicar seus
sentimentos precisam encontrar alguém disposto a compreendê-las.
O direito de ser criança inclui brincar, imaginar,
perguntar, descansar e aprender. Inclui receber educação de qualidade,
proteção, afeto e atenção. Entretanto, muitas infâncias acabam ocupadas por cobranças
excessivas, comparações e expectativas adultas. Há crianças com medo de errar,
preocupadas em agradar e convencidas de que precisam apresentar um desempenho
excepcional para receber reconhecimento. Cabe a nós percebermos quando nossas
exigências estão deixando pouco espaço para a infância.
Valorizar uma criança pelo que ela é exige conhecer
seu jeito de existir. Seus interesses podem ser diferentes dos nossos; seu
ritmo de aprendizagem pode contrariar nossas expectativas. Quando comparamos
irmãos, colegas ou resultados escolares, corremos o risco de transformar
diferenças em motivos de vergonha. Podemos reconhecer esforços, oferecer ajuda
e incentivar novas tentativas sem fazer do afeto uma recompensa pelo bom
desempenho.
Esse cuidado começa pela escuta. Uma criança nem
sempre consegue dizer claramente que está com medo, que se sente excluída ou
que não compreendeu uma situação. Às vezes, ela chora, se afasta, insiste em
uma pergunta ou reage de uma maneira que nos incomoda. Antes de concluir que é birra,
preguiça ou desobediência, precisamos procurar entender o que aconteceu.
Perguntar com calma e permitir que ela termine de falar pode abrir uma conversa
que uma repreensão precipitada encerraria.
Ouvir também faz parte da educação. A criança
precisa de limites, orientação e adultos responsáveis por sua segurança. Esses
limites podem ser apresentados com firmeza e respeito, sem humilhações. Podemos
acolher sua raiva e, ao mesmo tempo, ensinar que não pode agredir alguém.
Podemos compreender sua frustração e ajudá-la a lidar com uma resposta
negativa. O diálogo permite que ela conheça as razões de uma regra e encontre
formas de expressar o que sente.
Nas famílias, essa presença precisa ganhar espaço
na rotina. Sei que muitos pais e mães enfrentam jornadas longas, preocupações
financeiras e cansaço. Ainda assim, vale proteger momentos possíveis de
encontro: uma refeição compartilhada, uma conversa antes de dormir, uma leitura
ou alguns minutos de brincadeira. Guardar o celular, olhar para o filho e
acompanhar com interesse aquilo que ele conta são maneiras concretas de
demonstrar que sua vida importa. O tempo de qualidade se constrói com atenção e
continuidade.
Também precisamos permitir que nossos filhos
conversem conosco sobre assuntos difíceis. Se cada relato de um erro provoca
gritos ou exposição, eles podem aprender a esconder o que aconteceu. Quando
encontram uma escuta respeitosa, têm mais espaço para pedir ajuda e assumir
responsabilidades. Perguntas como “O que aconteceu?”, “Como você se sentiu?” e
“O que podemos fazer agora?” ajudam a construir essa confiança.
A escola participa desse compromisso. Uma educação
que respeita a infância oferece condições para aprender, conviver, criar e
participar. Isso exige atenção às dificuldades de cada aluno, intervenção
diante da exclusão e apoio ao trabalho dos professores. Família, escola e poder
público têm responsabilidades que precisam se traduzir em cuidado diário e
oportunidades reais.
Neste Dia das Crianças, desejo que a celebração
continue depois que os presentes forem abertos. Que reservemos tempo para ouvir
nossos filhos e conhecer melhor quem está crescendo ao nosso lado. Toda criança
tem o direito de ser incrível: de viver sua infância com dignidade, receber a
educação e o cuidado de que precisa e crescer sabendo que é amada, inclusive
enquanto erra, aprende e descobre seu lugar no mundo.
Le Savoldi - escritora, poeta, professora, mestre em Educação e autora do livro infantil "A incrível menina amarela
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