Conhecer as particularidades entre eles favorece o diagnóstico precoce e melhora o planejamento dos cuidados
Quando
um idoso começa a esquecer compromissos, repetir perguntas ou apresentar mudanças
de comportamento, é comum que familiares concluam rapidamente: "é
Alzheimer". Embora essa seja a causa mais frequente de demência, ela está
longe de ser a única. Existem diferentes tipos da síndrome, cada um com
características próprias, evolução distinta e necessidades específicas de
tratamento.
Segundo
o médico de Família e paliativista Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, da Palliative
Care, o primeiro passo é compreender que demência não é uma doença, mas uma
síndrome clínica provocada por diferentes condições que afetam o cérebro.
"A
doença de Alzheimer responde pela maior parte dos casos, mas existem outras
formas de demência que podem começar de maneira completamente diferente. Nem
sempre a perda de memória é o primeiro sinal. Em alguns pacientes, o que
aparece inicialmente são alterações de comportamento, da linguagem, da atenção
ou até alucinações", enfatiza.
Entre
os principais tipos estão a doença de Alzheimer, a demência vascular —
geralmente associada a lesões provocadas por problemas na circulação cerebral
—, a demência por corpos de Lewy e a demência frontotemporal, que costuma
surgir antes dos 65 anos e frequentemente se manifesta por mudanças marcantes
na personalidade ou na forma de se comunicar.
O
Dr. Gustavo explica que essa diversidade faz com que o diagnóstico exija uma
avaliação criteriosa. História clínica, exames físicos e neurológicos, testes
cognitivos, exames laboratoriais e de imagem ajudam a identificar a causa dos
sintomas e, principalmente, a descartar doenças que podem provocar alterações
semelhantes, mas têm tratamento.
"Nem todo comprometimento da memória significa demência. Depressão, deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide, efeitos de medicamentos, distúrbios do sono e outras condições podem causar sintomas parecidos e precisam ser investigados antes de se estabelecer esse diagnóstico", ressalta o médico.
| Crédito: Matheus Campos Depressão, deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide, efeitos de medicamentos, distúrbios do sono e outras condições podem causar sintomas parecidos com demência |
Mudanças que não devem ser ignoradas
Além dos esquecimentos, alguns sinais merecem atenção da família. Dificuldade para administrar dinheiro ou medicamentos, desorientação em lugares conhecidos, mudanças importantes de comportamento, perda de iniciativa e dificuldade para realizar tarefas antes rotineiras podem indicar que algo vai além do envelhecimento natural.
O
especialista observa que existem situações em que mais de um tipo de demência
ocorre ao mesmo tempo, especialmente entre pessoas mais idosas, tornando o
quadro ainda mais complexo.
Retardando a progressão
Apesar
de ainda não haver cura para a maioria das demências, o diagnóstico precoce
permite iniciar tratamentos capazes de controlar sintomas, retardar
parcialmente a progressão em alguns casos e preservar a autonomia por mais
tempo. Atividade física, estimulação cognitiva, controle de doenças como
hipertensão e diabetes, alimentação equilibrada, sono adequado, vida social
ativa e tratamento da perda auditiva também contribuem para reduzir o risco de
desenvolver demência ao longo da vida.
Outro
ponto frequentemente cercado de dúvidas é o papel dos cuidados paliativos. Ao
contrário do que muitas pessoas imaginam, essa abordagem não é exclusiva dos
momentos finais da vida.
"Os
cuidados paliativos podem ser iniciados desde o diagnóstico de uma doença
progressiva. O objetivo é aliviar sintomas, preservar a qualidade de vida,
apoiar a família e ajudar nas decisões ao longo da evolução da doença, sempre
respeitando os valores e os desejos da pessoa", frisa Dr. Gustavo.
Para
o médico, o impacto da demência ultrapassa o paciente e alcança toda a família.
"O cuidador também precisa de acolhimento e orientação. Receber um
diagnóstico de demência não significa perder imediatamente a autonomia ou
deixar de viver com qualidade. Com acompanhamento adequado e suporte
multiprofissional, muitas pessoas permanecem ativas e independentes por vários
anos", salienta.
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