Professora do CEUB explica por que distração, procrastinação e esquecimentos não bastam para diagnosticar o transtorno e alerta sobre avanço do autodiagnóstico
Dificuldade de concentração, procrastinação,
esquecimentos, irritabilidade e sensação de mente acelerada são frequentemente
associados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Porém, esses sinais também podem estar relacionados à ansiedade, privação de sono,
estresse crônico, burnout e excesso de estímulos digitais. No Dia Mundial de
Conscientização sobre o TDAH, 13 de julho, a neuropsicóloga e professora de
Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Michelle Andrade, faz um
alerta: sintomas isolados não definem o transtorno.
"A principal diferença está na frequência,
intensidade, persistência e no impacto que esses comportamentos provocam na
vida da pessoa. Todos podem se distrair, esquecer compromissos ou procrastinar
em algum momento. No TDAH, porém, esses sinais são persistentes, acompanham o
indivíduo há muitos anos e comprometem seu desempenho acadêmico, profissional,
social, familiar ou emocional", explica.
Um dos desafios do diagnóstico é o fato de diferentes condições produzirem manifestações muito parecidas. Ansiedade, depressão, transtornos do sono, burnout, estresse crônico, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e até algumas condições médicas podem comprometer atenção, memória, organização e controle emocional. Por isso, a investigação precisa ir além de listas de sintomas.
Michelle explica que o histórico do paciente, a idade de início
das dificuldades, os diferentes contextos em que elas aparecem e os prejuízos
provocados fazem parte da avaliação clínica. "A pergunta não deve ser
apenas 'a pessoa se distrai?', mas 'por que ela se distrai, desde quando isso
acontece e em quais situações?'. É nesse momento que a avaliação deixa de ser
um checklist e passa a ser investigação clínica consistente", afirma.
Excesso de telas também altera a atenção
Outro fator é o impacto do ambiente digital sobre o funcionamento
do cérebro. Redes sociais, vídeos curtos e jogos oferecem recompensas rápidas e
estímulos constantes, enquanto atividades como estudar, ler textos longos ou
organizar tarefas exigem atenção sustentada e resultados menos imediatos.
"O ambiente digital pode imitar ou potencializar sintomas semelhantes aos
do TDAH, principalmente quando se somam à falta de sono, ansiedade ou excesso
de estímulos. Nem todo cérebro distraído é um cérebro com TDAH. Muitas vezes, é
um cérebro cansado, hiperestimulado ou emocionalmente sobrecarregado",
destaca a especialista.
Redes sociais ampliam o risco de autodiagnóstico
Embora reconheça o papel das redes sociais na divulgação de
informações sobre saúde mental, a neuropsicóloga do CEUB alerta que conteúdos
simplificados podem induzir interpretações equivocadas: "O problema não é
falar sobre TDAH nas redes. A psicoeducação é importante e ajuda muitas
pessoas. O risco está na simplificação excessiva. Informação de qualidade
amplia o conhecimento; informação superficial amplia a confusão. E o algoritmo,
infelizmente, não faz diagnóstico".
Por que muitos adultos só descobrem o transtorno depois de
anos?
Apesar de ser um transtorno do neurodesenvolvimento, o TDAH pode permanecer
sem diagnóstico até a idade adulta. Isso ocorre, principalmente, entre pessoas
com bom desempenho intelectual, ambientes estruturados ou estratégias que
compensaram as dificuldades ao longo da vida. Com o aumento das
responsabilidades, entretanto, essas estratégias podem deixar de funcionar e os
sintomas tornam-se mais evidentes. "Muitas vezes, o adulto chega ao
consultório afirmando que consegue cumprir suas responsabilidades, mas às
custas de um desgaste muito grande".
Diagnóstico correto evita tratamentos inadequados
A avaliação neuropsicológica auxilia na investigação de funções
como atenção, memória operacional, planejamento, organização e controle
inibitório, além de contribuir para o diagnóstico diferencial e a identificação
de possíveis comorbidades. Ainda assim, a professora ressalta que nenhum teste
isolado é suficiente para confirmar ou descartar o transtorno. "Um bom
diagnóstico não serve para rotular a pessoa. Ele permite compreender a origem
das dificuldades, orientar o tratamento adequado, reduzir prejuízos e promover
uma melhor qualidade de vida", conclui.
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