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segunda-feira, 13 de julho de 2026

TDAH ou cérebro exausto? Ansiedade, excesso de telas e falta de sono podem provocar sintomas semelhantes

Professora do CEUB explica por que distração, procrastinação e esquecimentos não bastam para diagnosticar o transtorno e alerta sobre avanço do autodiagnóstico


Dificuldade de concentração, procrastinação, esquecimentos, irritabilidade e sensação de mente acelerada são frequentemente associados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Porém, esses sinais também podem estar relacionados à ansiedade, privação de sono, estresse crônico, burnout e excesso de estímulos digitais. No Dia Mundial de Conscientização sobre o TDAH, 13 de julho, a neuropsicóloga e professora de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Michelle Andrade, faz um alerta: sintomas isolados não definem o transtorno.

"A principal diferença está na frequência, intensidade, persistência e no impacto que esses comportamentos provocam na vida da pessoa. Todos podem se distrair, esquecer compromissos ou procrastinar em algum momento. No TDAH, porém, esses sinais são persistentes, acompanham o indivíduo há muitos anos e comprometem seu desempenho acadêmico, profissional, social, familiar ou emocional", explica. 

Um dos desafios do diagnóstico é o fato de diferentes condições produzirem manifestações muito parecidas. Ansiedade, depressão, transtornos do sono, burnout, estresse crônico, Transtorno do Espectro Autista (TEA) e até algumas condições médicas podem comprometer atenção, memória, organização e controle emocional. Por isso, a investigação precisa ir além de listas de sintomas. 

Michelle explica que o histórico do paciente, a idade de início das dificuldades, os diferentes contextos em que elas aparecem e os prejuízos provocados fazem parte da avaliação clínica. "A pergunta não deve ser apenas 'a pessoa se distrai?', mas 'por que ela se distrai, desde quando isso acontece e em quais situações?'. É nesse momento que a avaliação deixa de ser um checklist e passa a ser investigação clínica consistente", afirma.

 

Excesso de telas também altera a atenção

Outro fator é o impacto do ambiente digital sobre o funcionamento do cérebro. Redes sociais, vídeos curtos e jogos oferecem recompensas rápidas e estímulos constantes, enquanto atividades como estudar, ler textos longos ou organizar tarefas exigem atenção sustentada e resultados menos imediatos. "O ambiente digital pode imitar ou potencializar sintomas semelhantes aos do TDAH, principalmente quando se somam à falta de sono, ansiedade ou excesso de estímulos. Nem todo cérebro distraído é um cérebro com TDAH. Muitas vezes, é um cérebro cansado, hiperestimulado ou emocionalmente sobrecarregado", destaca a especialista.
 

Redes sociais ampliam o risco de autodiagnóstico

Embora reconheça o papel das redes sociais na divulgação de informações sobre saúde mental, a neuropsicóloga do CEUB alerta que conteúdos simplificados podem induzir interpretações equivocadas: "O problema não é falar sobre TDAH nas redes. A psicoeducação é importante e ajuda muitas pessoas. O risco está na simplificação excessiva. Informação de qualidade amplia o conhecimento; informação superficial amplia a confusão. E o algoritmo, infelizmente, não faz diagnóstico".
 

Por que muitos adultos só descobrem o transtorno depois de anos?

Apesar de ser um transtorno do neurodesenvolvimento, o TDAH pode permanecer sem diagnóstico até a idade adulta. Isso ocorre, principalmente, entre pessoas com bom desempenho intelectual, ambientes estruturados ou estratégias que compensaram as dificuldades ao longo da vida. Com o aumento das responsabilidades, entretanto, essas estratégias podem deixar de funcionar e os sintomas tornam-se mais evidentes. "Muitas vezes, o adulto chega ao consultório afirmando que consegue cumprir suas responsabilidades, mas às custas de um desgaste muito grande".
 

Diagnóstico correto evita tratamentos inadequados

A avaliação neuropsicológica auxilia na investigação de funções como atenção, memória operacional, planejamento, organização e controle inibitório, além de contribuir para o diagnóstico diferencial e a identificação de possíveis comorbidades. Ainda assim, a professora ressalta que nenhum teste isolado é suficiente para confirmar ou descartar o transtorno. "Um bom diagnóstico não serve para rotular a pessoa. Ele permite compreender a origem das dificuldades, orientar o tratamento adequado, reduzir prejuízos e promover uma melhor qualidade de vida", conclui.


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