Tiago Simões Leite chama atenção de pais, médicos e especialistas em saúde pública
Em 2008, o pediatra Tiago Simões Leite, então especializando-se em Atenção Básica e Saúde da Família na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), começou a investigar um paradoxo no Conjunto Felicidade, comunidade de Belo Horizonte. Enquanto o programa Fome Zero celebrava a redução da desnutrição no país, o médico identificou um problema emergente: metade dos moradores atendidos no centro de saúde local apresentavam sobrepeso ou obesidade. E isso incluía crianças. Mais grave: 82,9% dos atendimentos médicos na unidade se relacionavam com alterações causadas pelo sobrepeso.
“O que mudou desde então é a escala.
O que era um achado em uma comunidade de Belo Horizonte tornou-se a realidade
de um terço das crianças e adolescentes brasileiros. O que não mudou é a
resposta do sistema de saúde: ainda fragmentada, ainda reativa, ainda voltada
ao tratamento das consequências em vez da prevenção das causas”, avalia Tiago
Simões Leite.
Primeiro estudo já
era um alerta de saúde pública
O estudo, orientado pela professora Cristina Maria Martins e
intitulado "Fome Zero, Obesidade 50%: uma realidade assustadora",
foi apresentado em 2011. Na época, os dados foram recebidos com ceticismo
por parte de setores que ainda viam a obesidade como problema de países
desenvolvidos.
Tiago Simões Leite, que também é
mestre em Saúde da Criança e Adolescente pela UFMG, continuou relacionando os
dados nos anos que vieram. A pesquisa foi feita em paralelo a atuação como
coordenador de pediatria em hospitais de Minas Gerais e como professor de
medicina em instituições como UniBH e Faculdade de Medicina de Barbacena.
O que os dados de
2025 e 2026 revelam sobre obesidade infantil?
Quinze anos após o primeiro alerta do pediatra, a obesidade infantil deixou de ser projeção para se tornar a principal forma de má nutrição entre crianças em idade escolar no planeta.
Segundo relatório do UNICEF divulgado em setembro de 2025, pela primeira vez na história, a obesidade superou a desnutrição entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos. São 188 milhões de jovens com obesidade no mundo: 1 em cada 10 nessa faixa etária. O total de crianças e adolescentes acima do peso chega a 391 milhões.
No Brasil, o quadro segue a mesma
curva. Os dados mais recentes do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional
(SISVAN), compilados no Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes do
Instituto Desiderata, mostram que:
·
33% das crianças e
adolescentes brasileiros de 0 a 19 anos (cerca de 6,8 milhões de pessoas) estão com excesso de peso.
·
Entre adolescentes de 10 a 19 anos, 1 em cada 3 tem excesso de peso, totalizando 2,6 milhões de jovens (1,5 milhão com sobrepeso,
840 mil com obesidade e 237 mil com obesidade grave).
·
Em uma década, o sobrepeso nessa faixa etária subiu quase 9 pontos percentuais.
· O Atlas Mundial da Obesidade de 2026, citado pelo Hospital de Clínicas da Unicamp, aponta 7 milhões de crianças e adolescentes brasileiros entre 5 e 19 anos com obesidade.
A Federação
Mundial de Obesidade (WOF) projeta que, mantida a tendência atual, metade das
crianças no Brasil estará com sobrepeso em 2035.
Diabetes
tipo 2 é a doença de adulto que chegou à infância
Um dos pontos
centrais do trabalho de Tiago Simões Leite era a relação entre obesidade e
diabetes na população que ele acompanhava. Em 2025, essa correlação se
concretizou.
A diabetes tipo 2,
até recentemente considerada doença de adultos, avança entre crianças e
adolescentes brasileiros. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo em julho de
2025, o crescimento de casos está diretamente ligado à obesidade infantil, ao
sedentarismo e à puberdade precoce. O Observatório de Saúde na Infância
(Observa Infância) da Fiocruz já havia identificado, em 2023, que o Brasil possuía
quase três vezes mais crianças de até 5 anos com excesso de peso do que com
desnutrição.
Ultraprocessados e a arquitetura da epidemia de obesidade
infantil
O relatório do
UNICEF de dezembro de 2025 reforça o que o pediatra mineiro já indicava em seu
trabalho: o ambiente alimentar é o motor da epidemia. A revisão global
publicada pela agência mostra que o consumo de ultraprocessados aumenta entre
crianças e adolescentes no Brasil e no mundo.
O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani),
conduzido pela UFRJ entre 2019 e 2020, revelou que 25% das
calorias consumidas por crianças brasileiras até 6 anos vêm de
ultraprocessados. Na faixa de 2 a 5 anos, essa proporção chega a 30%
— um terço de tudo o que a criança consome.
A regulação segue
lenta. A rotulagem nutricional frontal, aprovada pela ANVISA, passou a exigir
avisos em embalagens de alimentos com alto teor de açúcar, sódio ou gordura
saturada. Projetos de lei que restringem a comercialização de ultraprocessados
em cantinas escolares avançaram em alguns estados, como a Lei Estadual nº
15.216/2018, do Rio Grande do Sul, mas ainda não há norma federal consolidada.
O que mudou e o que não mudou
O trabalho de Tiago Simões Leite, em 2010, já apontava três
elementos que a literatura científica consolidou nos anos seguintes:
- A transição
nutricional brasileira: passagem da desnutrição para o
excesso de peso como principal problema nutricional, especialmente em
populações de baixa renda
- A ligação
direta entre obesidade e doenças crônicas: hipertensão,
diabetes e dores osteomusculares como consequências imediatas, e não
futuras, do excesso de peso
- A necessidade
de intervenção na Atenção Primária: o espaço onde o pediatra detectou
o problema é o mesmo onde ele deve ser combatido, por meio de educação
alimentar, acompanhamento nutricional e detecção precoce.

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