Mecanismos hormonais e neuroquímicos
explicam o desejo por carboidratos na estação; pacientes bariátricos têm
vantagem metabólica, mas ainda precisam aumentar os cuidados durante o período
O frio não é só desculpa para comer mais. A maior fome sentida no
inverno tem base biológica real e entender as causas que levam a esse
comportamento é o primeiro passo para não perder o controle do peso nessa
estação. O cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de
Cirurgia Digestiva), em Brasília, explica o que acontece no organismo e quais
estratégias ajudam a atravessar o período frio sem estagnar no processo de
emagrecimento ou aumentar o percentual de gordura corporal.
Dois mecanismos principais estão por trás do aumento do apetite
nos meses mais frios. O primeiro é hormonal: a queda de temperatura altera o
equilíbrio entre grelina e leptina — o primeiro hormônio, que sinaliza fome,
sobe, enquanto o segundo, que atua na saciedade, cai. “Isso já foi demonstrado
em modelos de exposição ao frio, em que a queda de leptina provoca um aumento
compensatório do apetite”, esclarece De Fazzio.
O segundo mecanismo é neuroquímico. Os dias mais curtos do inverno
reduzem a exposição à luz solar, o que diminui a produção de serotonina e
dopamina. Para compensar, o cérebro busca carboidratos, que estimulam a
liberação dessas substâncias ligadas ao bem-estar. “É por isso que o desejo no
inverno é especificamente por pão, massa e chocolate, e não por qualquer
caloria”, completa o médico.
A resistência à insulina pode entrar nessa equação como agravante.
Leptina e insulina trabalham juntas na regulação do apetite e quem já apresenta
resistência insulínica ou obesidade tende a entrar num ciclo em que sente mais
fome, consome mais carboidrato simples e retroalimenta o desequilíbrio
metabólico.
Paciente bariátrico tem proteção extra, mas não está imune
A cirurgia bariátrica e metabólica altera esse cenário porque
modifica a produção de hormônios intestinais que competem diretamente com o
mecanismo do frio. Após o procedimento, especialmente no bypass, há aumento de
GLP-1 e PYY — hormônios que promovem saciedade — e redução da grelina. “Isso
cria um contrapeso hormonal ao efeito do inverno”, afirma De Fazzio. Segundo o
médico, estudos de neuroimagem também apontam mudanças em regiões cerebrais
ligadas à recompensa e ao controle cognitivo, contribuindo para a redução de
desejos compulsivos.
Isso não elimina o efeito sazonal. O paciente operado ainda
sentirá maior atração por carboidratos nos meses frios, mas conta com uma
ferramenta hormonal adicional para conter esse impulso. “Esse equilíbrio pode
se perder com o tempo, principalmente se houver reganho. Esse é mais um motivo
para não abandonar o acompanhamento médico pós-procedimento”, alerta o
cirurgião.
Há ainda um risco específico para quem tem o estômago reduzido:
líquidos quentes açucarados e carboidratos de alto índice glicêmico favorecem a
síndrome de dumping, provocada pelo esvaziamento acelerado do estômago para o
intestino. O distúrbio desencadeia uma cascata hormonal com sintomas como
mal-estar, taquicardia e sudorese. De acordo com o especialista, cerca de 85%
dos pacientes submetidos ao bypass, uma das técnicas de cirurgia bariátrica,
apresentam algum episódio de dumping após o procedimento.
Orientações práticas para o inverno
De Fazzio propõe ajustes simples para contornar os erros comuns
nessa época do ano, entre eles o aumento no consumo de bebidas quentes
calóricas, beliscar alimentos durante o dia, queda na hidratação e redução da
atividade física.
A primeira orientação do médico é incluir proteína em todas as
refeições, inclusive no café da manhã, para estabilizar a glicemia e prolongar
a saciedade. Substituir carboidrato simples por versões com fibra e proteína —
uma sopa com proteína magra, por exemplo, no lugar de um caldo só de amido — é
outra sugestão do profissional. A atividade física também continua sendo
fundamental.
Além disso, é importante manter a hidratação — utilizando até
mesmo lembretes fixos de horário, se necessário —, já que a sede pode ser
confundida com fome pelo organismo e, no frio, o estímulo natural para beber
água tende a diminuir, mesmo que a necessidade hídrica permaneça a mesma.
Ele alerta ainda ser importante que o paciente evite associar o
frio à época de comer à vontade. “O desejo por comida mais calórica no inverno
é real e tem base hormonal. É fisiológico, não falta de força de vontade. Mas
ele pode e deve ser direcionado para opções mais inteligentes”, recomenda De
Fazzio.
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