Celebrado
em 22 de julho, o Dia Mundial do Cérebro reforça a importância de prevenir
doenças neurológicas e ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Para o
neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP Dr. Fernando
Gomes, no entanto, cuidar do cérebro exige uma política pública que acompanhe a
população durante toda a vida — e não apenas quando a doença já está instalada.
O
especialista defende a ideia de ações integradas para crianças, adultos e
idosos. A proposta parte de uma visão ampla: a saúde cerebral começa no
desenvolvimento infantil, passa pela proteção emocional durante a vida adulta e
inclui prevenção, diagnóstico e tratamento no envelhecimento.
“Durante
muito tempo, esperamos a doença aparecer para começar a cuidar do cérebro.
Precisamos inverter essa lógica. Saúde cerebral deve ser tratada como
prioridade de Estado, presente na escola, na UBS, no ambiente de trabalho, na
família e no atendimento ao idoso”, afirma Fernando Gomes.
Na infância: identificação precoce
Reconhecer
sinais de autismo, TDAH, atrasos no desenvolvimento, dificuldades de
aprendizagem e alterações comportamentais é uma necessidade urgente. “Quanto
mais cedo uma criança é acolhida, avaliada e estimulada, maiores são as chances
de desenvolver comunicação, autonomia, aprendizado e qualidade de vida. O que
não pode acontecer é a família ficar perdida entre filas, laudos e
encaminhamentos que não se conectam”, explica o médico que afirma que ter
atenção aos primeiros sinais garante que a criança consiga se tratar e se
desenvolver melhor. “O diagnóstico precoce é o que vai abrir a porta para
orientação, tratamento, inclusão e suporte à família.”
Principais sinais de alerta:
atraso na fala, dificuldade de interação social e contato visual, não responder
ao nome, movimentos repetitivos, sensibilidade excessiva a estímulos,
dificuldade de atenção, hiperatividade, queda no rendimento escolar,
dificuldades de aprendizagem, mudanças de comportamento, isolamento,
dificuldade para fazer amigos e problemas de coordenação motora.
"O
mais importante é observar se esses sinais são persistentes, aparecem tanto em
casa quanto na escola e passam a interferir no aprendizado, na convivência e na
autonomia da criança. O objetivo não é rotular, mas garantir uma avaliação
precoce e o cuidado adequado", destaca o Dr. Fernando Gomes.
Adultos: prevenção de doenças emocionais
Cada
vez mais o mundo conectado e sobrecarregado de tarefas abre espaços para
ansiedade, depressão, burnout, isolamento social, violência, uso abusivo de
substâncias e sobrecarga mental.
“Não
podemos tratar o adoecimento emocional apenas como um problema individual.
Muitas vezes, ele está relacionado às condições de trabalho, à sobrecarga, à
falta de acesso ao cuidado e à ausência de uma rede de apoio”, ressalta.
Sinais de alerta:
tristeza ou ansiedade persistentes, cansaço constante, alterações no sono,
dificuldade de concentração, perda de interesse pelas atividades, esgotamento
físico e emocional, queda no desempenho e isolamento social.
"Quando
esses sintomas persistem e começam a interferir na rotina, é fundamental buscar
ajuda. O diagnóstico e o cuidado precoces fazem toda a diferença",
ressalta o Dr. Fernando Gomes.
Segundo
o neurocientista, proteger a saúde cerebral do adulto também exige olhar para
sono, atividade física, alimentação, vínculos sociais e ambientes de trabalho
mais saudáveis.
“Cuidar
do cérebro não é apenas tratar uma doença neurológica. É criar condições para
que a pessoa possa viver, trabalhar, dormir, se relacionar e envelhecer com
equilíbrio.”
Idosos: nem toda perda de memória é Alzheimer
O
médico alerta que alterações de memória, dificuldade para caminhar, quedas,
mudanças de comportamento e perda de independência não devem ser
automaticamente atribuídas à idade. “Nem toda perda de memória é Alzheimer.
Existem doenças neurológicas que se parecem com demência, mas podem ter
tratamento, controle e, em alguns casos, até reversão, quando identificadas a
tempo”, afirma.
Sinais de alerta nos idosos:
perda de memória que interfere na rotina, dificuldade para caminhar, quedas
frequentes, mudanças de comportamento, perda de autonomia e incontinência
urinária.
"Esses
sintomas não devem ser vistos como parte natural do envelhecimento. Algumas
doenças, como a Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN), podem ser tratadas e até
revertidas quando diagnosticadas precocemente", alerta o Dr. Fernando
Gomes.
“Uma
criança acompanhada na escola, um adulto acolhido antes de adoecer gravemente e
um idoso diagnosticado corretamente fazem parte da mesma política: cuidar da
saúde do cérebro ao longo da vida. O cérebro precisa ser tratado como
prioridade desde a infância até o envelhecimento.”
Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. Desde 2012 anos atua como comunicador, já tendo passado pela TV Globo por seis anos como consultor fixo do programa Encontro com Fátima Bernardes (2013 a 2019), por um ano (2020) na TV Band no programa Aqui na Band como apresentador do quadro de saúde “E Agora Doutor?” e dois anos (2020 a 2022) como Corresponde Médico da TV CNN Brasil. É também autor de 10 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Link
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