Levantamento do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP), baseado em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostra que os cânceres da cavidade oral responderam por 41.601 mortes entre 2020 e 2024, superando laringe (34.281), orofaringe (11.239) e tireoide (4.611). Os dados também evidenciam diferenças importantes entre homens e mulheres, concentração dos óbitos após os 50 anos e predominância entre pessoas com menor escolaridade
Os cânceres da cavidade oral foram responsáveis pelo maior número de mortes entre os
tumores de cabeça e pescoço registrados no Brasil entre 2020 e 2024.
Levantamento realizado pelo Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço
(GBCP), a partir de dados do Sistema de Informações sobre
Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, identificou 41.601
óbitos relacionados às neoplasias malignas do lábio, cavidade
oral e faringe (CID-10 C00 a C14). Na sequência aparecem os cânceres de
laringe, com 34.281 mortes; orofaringe,
com 11.239; e tireoide, com 4.611
óbitos.
Em alusão ao Julho Verde, campanha nacional de conscientização sobre os cânceres de cabeça e
pescoço, o Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP)
realizou um levantamento com base em dados do Sistema de Informações sobre
Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. O estudo mostra que
os cânceres da cavidade oral responderam pelo maior número
de mortes entre os principais tumores da região entre 2020 e 2024,
com 41.601 óbitos. Em seguida aparecem os cânceres de
laringe (34.281 mortes), da orofaringe
(11.239) e da tireoide (4.611).
Embora todos integrem o grupo dos cânceres de
cabeça e pescoço, os dados mostram diferenças importantes entre
essas doenças. Os tumores da cavidade oral, da orofaringe
e da laringe apresentam perfil epidemiológico
semelhante, com predominância de mortes entre homens,
maior concentração de óbitos após os 50 anos e frequência mais
elevada entre pessoas com menor escolaridade. Já o câncer de
tireoide possui características próprias, incluindo maior
ocorrência entre mulheres.
Segundo a cirurgiã de cabeça e pescoço Fátima
Matos, vice-presidente do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça
e Pescoço (GBCP), embora essas doenças sejam frequentemente agrupadas sob uma
mesma denominação, elas acometem diferentes estruturas anatômicas e apresentam
particularidades em relação ao comportamento da doença, aos fatores de risco e
ao tratamento.
"A região da cabeça e pescoço é pequena do
ponto de vista anatômico, mas extremamente rica em estruturas importantes. Por
isso, podem surgir diferentes tipos de tumores. Os mais frequentes acometem a
cavidade oral, a faringe, a laringe e a tireoide”, explica.
A cirurgiã de cabeça e pescoço também detalha que os tumores da cavidade oral, da faringe e da laringe são formados, na maioria dos casos, por carcinomas epidermoides, também conhecidos como carcinomas escamosos, enquanto a tireoide apresenta características biológicas distintas e comportamento clínico próprio.
Cavidade oral concentra maior
número de mortes
Considerando o conjunto formado pelos tumores da
cavidade oral, lábios e faringe, foram registrados 41.601 óbitos no país entre
2020 e 2024. Desse total, 32.296 ocorreram entre homens, correspondendo a 77,6%
das mortes, enquanto 9.303 foram registradas entre mulheres (22,4%).
A distribuição por faixa etária demonstra que a
mortalidade aumenta de forma importante a partir da meia-idade. Somente entre
pessoas com 50 anos ou mais ocorreram 36.897 mortes, equivalentes a 88,7% do
total. O grupo entre 60 e 69 anos concentrou o maior número absoluto de óbitos,
com 13.113 registros (31,5%), seguido pelas faixas de 50 a 59 anos, com 10.029
(24,1%), de 70 a 79 anos, com 8.356 (20,1%) e de 80 anos ou mais, com 5.399
mortes (13%).
Entre adultos mais jovens, os números são
significativamente menores. Foram registrados 699 óbitos entre pessoas de 30 a
39 anos, 234 entre 20 e 29 anos e apenas 76 mortes entre indivíduos com menos
de 20 anos durante todo o período analisado. O levantamento também evidencia
importante desigualdade relacionada à escolaridade. Entre os pacientes cuja
informação estava disponível, a maior parte das mortes ocorreu entre pessoas com
até sete anos de estudo.
Foram registrados 5.519 óbitos entre indivíduos sem
escolaridade formal, 8.899 entre aqueles com um a três anos de estudo e 10.694
entre quatro e sete anos de escolaridade. Em contrapartida, apenas 2.377 mortes
ocorreram entre pessoas com 12 anos ou mais de estudo. Embora 5.754 registros
apresentassem escolaridade ignorada, o padrão reforça a conhecida associação
entre vulnerabilidade social, exposição aos fatores de risco e dificuldades de
acesso ao diagnóstico precoce.
De acordo com Fátima Matos, muitos pacientes ainda
chegam aos serviços especializados com doença avançada, o que reduz as
possibilidades de tratamentos menos agressivos. "Infelizmente, a maioria
dos pacientes chega para nós com tumores avançados. Isso acaba exigindo
cirurgias maiores. Mesmo assim, hoje dispomos de técnicas reconstrutivas,
cirurgia robótica em situações específicas e diferentes formas de reabilitação
que permitem preservar melhor as funções e reduzir sequelas”.
A especialista ressalta que a principal estratégia
continua sendo identificar a doença precocemente. "A prevenção é essencial
para que consigamos fazer o diagnóstico em fases iniciais. Quanto mais cedo o
tumor é identificado, maiores são as possibilidades de tratamentos menos
extensos, com melhor recuperação funcional e resultado para o paciente”. Ela
lembra ainda que feridas na boca que não cicatrizam, manchas persistentes,
caroços no pescoço, rouquidão prolongada e dificuldade para engolir são sinais
que merecem avaliação médica ou odontológica especializada.
Orofaringe apresenta mudança
no perfil epidemiológico
O levantamento do GBCP registrou 11.239 mortes por
câncer de orofaringe entre 2020 e 2024. Assim como observado na cavidade oral,
os homens concentraram a maior parte dos óbitos: 9.408 registros, equivalentes
a 83,7% do total. Entre as mulheres ocorreram 1.831 mortes. Os óbitos também se
concentraram principalmente após os 50 anos, especialmente entre pessoas de 50
e 69 anos. A distribuição por escolaridade repete o padrão observado nos demais
tumores do trato aerodigestivo superior, com predominância entre indivíduos com
menor nível de instrução.
Embora a maior mortalidade continue concentrada
entre homens acima dos 50 anos, especialistas observam uma mudança gradual no
perfil epidemiológico desse tipo de câncer. Tem aumentado a participação de
tumores relacionados ao papilomavírus humano (HPV), especialmente o subtipo
HPV-16, que frequentemente acometem homens mais jovens, muitos deles sem
histórico de tabagismo ou consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
O câncer de orofaringe, em relação às causas, tem
passado por uma mudança em seu perfil. Embora o tabagismo e o consumo de
bebidas alcoólicas permaneçam entre os principais fatores de risco, cresce a
participação dos tumores relacionados ao papilomavírus humano (HPV),
especialmente ao subtipo HPV-16. Esses casos costumam atingir pessoas mais
jovens, muitas vezes sem histórico de tabagismo ou consumo excessivo de álcool.
A infecção persistente pelo vírus, transmitido principalmente por contato
sexual, tornou-se uma das principais causas desse tipo de câncer em diversos
países, incluindo o Brasil.
Segundo Fátima Matos, a vacinação representa hoje
uma das principais estratégias para prevenir esses tumores. "Temos uma
forma de prevenção, que é a vacina contra o HPV, disponível no Brasil para
meninos e meninas a partir dos nove anos de idade pelo SUS. É muito importante
fazer essa prevenção tanto para evitar esse tipo de tumor, quanto outros
cânceres relacionados ao HPV”, orienta.
Laringe apresenta segunda
maior mortalidade
Com 34.281 mortes registradas entre
2020 e 2024, o câncer de laringe apresentou o segundo maior número de óbitos
entre os principais tumores de cabeça e pescoço analisados pelo GBCP. Os homens
responderam por 29.182 mortes (85,1%), enquanto
entre as mulheres foram registrados 5.099 óbitos (14,9%).
Assim como observado na cavidade oral e na
orofaringe, a mortalidade concentrou-se principalmente após os 50 anos de
idade, com predominância nas faixas entre 60 e 69 anos,
seguidas por 50 a 59 anos e 70 a 79 anos. A análise da
escolaridade também evidencia maior número de óbitos entre pessoas com menor
nível de instrução, reforçando um padrão observado em praticamente todos os
tumores do trato aerodigestivo superior.
Entre os principais sinais de alerta estão
rouquidão persistente, dificuldade para engolir, dor ao engolir e a presença de
caroços no pescoço. Como esses sintomas frequentemente surgem quando a doença
ainda pode ser tratada com maior chance de preservação funcional, especialistas
recomendam investigação sempre que persistir por mais de duas semanas. Segundo
Fátima Matos, identificar o tumor precocemente amplia as possibilidades de
tratamentos menos agressivos. "Quanto mais cedo conseguimos diagnosticar,
maiores são as chances de realizar tratamentos menos agressivos e preservar
funções importantes para o paciente”.
Morte por câncer de tireoide é
mais comum nas mulheres
O levantamento identificou 4.611
mortes por câncer de tireoide entre 2020 e 2024. Diferentemente
dos demais tumores analisados, a mortalidade foi maior entre as mulheres,
responsáveis por 2.822 óbitos (61,2%), enquanto os
homens registraram 1.789 mortes (38,8%). A
distribuição por idade também difere parcialmente dos tumores da cavidade oral,
orofaringe e laringe. Embora a maior parte dos óbitos também ocorra após os 50
anos, o câncer de tireoide apresenta comportamento biológico distinto, com
diferentes subtipos histológicos, fatores de risco e estratégias terapêuticas.
A análise da escolaridade mostra distribuição mais equilibrada entre os
diferentes níveis de instrução, sem o predomínio tão acentuado observado nos
carcinomas escamosos do trato aerodigestivo superior.
Segundo Fátima Matos, embora o câncer de tireoide
integre o grupo dos tumores de cabeça e pescoço por acometer uma estrutura
anatômica dessa região e fazer parte da área de atuação do cirurgião de cabeça
e pescoço, trata-se de uma doença com características próprias, exigindo
abordagem diagnóstica e terapêutica específica.
Julho Verde defende integração
para mudar esse cenário
Os dados divulgados pelo GBCP integram as ações da
campanha Julho Verde 360 – Integração para transformar o futuro,
que neste ano propõe ampliar a conscientização sobre os cânceres de cabeça e pescoço
por meio da atuação conjunta de profissionais de saúde, pesquisadores,
gestores, pacientes, familiares e sociedade. A campanha parte do entendimento
de que nenhuma medida isolada será suficiente para reduzir a mortalidade dessas
doenças.
Além de estimular hábitos saudáveis, combater o tabagismo e o consumo abusivo de bebidas alcoólicas e ampliar a cobertura da vacinação contra o HPV, a iniciativa busca fortalecer o diagnóstico precoce e o acesso oportuno ao tratamento especializado. O GBCP também destaca a importância do cuidado multidisciplinar, envolvendo cirurgiões de cabeça e pescoço, oncologistas clínicos, radioterapeutas, dentistas, fonoaudiólogos, nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e outros profissionais, desde o diagnóstico até a reabilitação.
GBCP - Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço
https://www.gbcp.org.br/


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