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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Cuidar dos netos não deve significar deixar a própria saúde para depois


Julho é mês de férias escolares, mas também de um fenômeno pouco percebido nos serviços de saúde: o aumento das faltas de pessoas idosas a consultas, exames e sessões de reabilitação. Segundo especialistas da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), muitas dessas ausências acontecem porque os avós passam a dedicar boa parte do tempo destinado à rotina ao cuidado dos netos, adiando o próprio acompanhamento de saúde. 

Em São Paulo, segundo Eduardo Canteiro Cruz, médico geriatra e diretor administrativo da SBGG, o número de faltas pode aumentar em até 30% durante todo o mês. Embora ainda não existam levantamentos nacionais consolidados, estudos amostrais realizados em diferentes Estados apontam que o índice de absenteísmo, que costuma variar entre 20% e 30%, pode chegar a quase 40% nesse período, representando um aumento de aproximadamente 25% a 50% em relação ao padrão habitual.

"Mais do que um fenômeno relacionado ao inverno, a ausência das pessoas idosas deve-se, em grande parte, ao fato de comporem a rede de cuidado de netos e bisnetos durante as férias escolares, quando nem sempre os pais conseguem estar disponíveis. Dessa maneira, elas acabam priorizando a harmonia familiar e o senso de colaboração em detrimento das próprias necessidades de saúde", explica o geriatra. 

De acordo com o especialista, o problema vai muito além do adiamento de uma consulta. "O atraso ao comparecimento implica também no atraso do diagnóstico, no tratamento e na estabilização de condições clínicas e cirúrgicas. Também interrompe processos de reabilitação e pode fazer com que a pessoa idosa perca parte dos ganhos conquistados, tornando-se novamente mais vulnerável." 

Eduardo ressalta que, em algumas doenças, o tempo faz diferença para o prognóstico e lembra que o absenteísmo também compromete a eficiência do sistema público de saúde. "Há situações em que o tempo é determinante. No câncer, por exemplo, faltar a uma consulta significa assumir um risco maior para o próprio tratamento. Do ponto de vista do sistema de saúde, isso significa desperdiçar um recurso público que já é escasso para o tamanho da necessidade da população. É como se, durante o mês de julho, jogássemos fora três ou quatro de cada dez reais investidos no cuidado em saúde."
 

O desafio é equilibrar cuidado e autocuidado 

Para Elcyana Bezerra Carvalho, terapeuta ocupacional, doutora em Gerontologia e conselheira da SBGG-CE, o apoio dos avós é fundamental para muitas famílias, mas é importante estabelecer limites para que o cuidado não aconteça às custas da própria saúde. "Precisamos compreender que existe uma diferença entre conviver com os netos e assumir a responsabilidade cotidiana pelo cuidado. A convivência faz parte da avosidade e costuma ser prazerosa. Já o cuidado diário exige reorganizar horários, compromissos e a própria rotina." 

Segundo a terapeuta, o principal impacto dessa mudança costuma ser silencioso. "O maior desafio da longevidade contemporânea não é encontrar tempo para cuidar dos netos. É garantir que, ao cuidar deles, a pessoa idosa não deixe de cuidar de si. Quando toda a rotina passa a girar em torno das necessidades dos netos, existe o risco de a pessoa idosa adiar aquilo que também é essencial para sua saúde, como atividade física, momentos de descanso, participação social e acompanhamento médico." 

Nesse contexto, o desafio não é reduzir a convivência entre avós e netos, mas fazer com que esse período seja positivo para todos. "As férias escolares representam uma oportunidade única de fortalecer os laços entre gerações e construir memórias que permanecerão por toda a vida”, reforça Elcyana. 

"A convivência intergeracional gera benefícios para todos. O que precisamos evitar é a sobrecarga. A saúde da pessoa idosa também é um bem e não deve ser sacrificada. As férias são uma excelente oportunidade para criar boas memórias, desde que os avós não precisem abrir mão da própria saúde”, finaliza Eduardo.

 

Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - SBGG


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