Levantamento mostra que 51% das multinacionais já sofreram perdas em investimentos internacionais e que seguro pode reduzir custos e prejuízos;
Média de investimento internacional anual é de US$ 50 milhões entre setores
A adoção de
ferramentas de gestão de risco político por multinacionais deve crescer
significativamente nesta década, passando de 68% no período de 2020 a 2025 para
80% entre 2025 e 2030, segundo levantamento da Howden, corretora global de
seguros especializada em riscos de alta complexidade. A pesquisa ouviu cerca de
500 executivos responsáveis por gestão de riscos e tesouraria em multinacionais
dos Estados Unidos, Reino Unido e França, todas com receita superior a US$1
bilhão e investimento médio de US$50 milhões na internacionalização de suas
marcas.
Os dados fazem
parte do estudo “Stepping up: Political risk insurance in a volatile world”,
desdobramento do relatório global da Howden “Opportunity in Flux”, que analisa
como a combinação de tensões geopolíticas, fragmentação do comércio,
reconfiguração de cadeias globais e maior volatilidade econômica está
redefinindo decisões de investimento e ampliando a exposição a riscos
políticos. Entre os setores ouvidos estão Energia, Farmacêuticas e Saúde,
Indústria e Exportação, Construção, Serviços, Agricultura e
Telecomunicações.
Nesse contexto,
o relatório aponta que o mundo passa por uma transição para uma ordem mais
fragmentada e multipolar, em que conflitos, políticas protecionistas e disputas
por recursos estratégicos aumentam a incerteza e pressionam empresas a reforçar
mecanismos de proteção para suas operações internacionais. “O ambiente global
se tornou mais imprevisível, e isso está mudando a forma como as empresas tomam
decisões. O risco político deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar
um papel central na estratégia de investimento internacional”, afirma Andoni
Hernández, CEO da Howden Brasil, filial da corretora global.
Perdas
e impacto financeiro
O levantamento
mostra que o risco já se materializou para uma parcela relevante das
companhias: 51% das multinacionais relataram ter sofrido ao menos uma perda
associada a risco político em investimentos internacionais entre 2020 e 2025.
Entre os
principais impactos estão o atraso ou impossibilidade de converter moeda local
ou repatriar recursos (40%), interferência de governos estrangeiros em direitos
de propriedade (40%) e abandono forçado de ativos no exterior por causa de
violência política (33%).
Como uma mesma
empresa pode ter enfrentado mais de um tipo de evento, as categorias de perdas
não são mutuamente exclusivas e, por isso, os percentuais não somam 100%.
Além da frequência
dos eventos, o estudo aponta para o potencial de perdas relevantes. Em alguns
casos, companhias reportaram prejuízos superiores a US$100 milhões em projetos
internacionais, evidenciando a natureza de baixa frequência, mas alto impacto,
típica desse tipo de risco.
Segundo a
Howden, o uso de seguro de risco político tem contribuído para mitigar esses
impactos. Empresas que contrataram proteção reportaram perdas médias de ao
menos US$1,4 milhão menores do que aquelas sem cobertura no período analisado.
Além de reduzir
perdas, o seguro também tem impacto direto na viabilidade financeira dos
projetos. De acordo com o levantamento, a contratação pode reduzir o custo de
capital em mercados emergentes de cerca de 15% para 11%, gerando uma economia
média anual de aproximadamente US$2 milhões por investimento.
O relatório
“Opportunity in Flux”, por sua vez, destaca ainda que, em um ambiente de maior
restrição de crédito e aumento do custo de financiamento, instrumentos que
reduzam risco e capital exigido tendem a ganhar relevância, ampliando o papel
do seguro não apenas como proteção, mas como ferramenta financeira. “Não se trata
apenas de proteção contra eventos extremos. O seguro de risco político também
melhora a estrutura financeira dos projetos, ao reduzir o custo de capital e
ampliar o acesso a investimento em mercados mais complexos”, diz o executivo da
Howden Brasil.
Além
do risco político
De acordo com o
executivo, no contexto do mercado, o termo “risco político” não se limita a
mudanças de governo ou instabilidade institucional. Essa categoria de seguro
abrange uma série de eventos que podem impactar diretamente operações no país,
como protestos, bloqueios logísticos, ocupações, episódios de violência
política, interferências regulatórias e restrições à movimentação de recursos.
Casos recentes no Brasil ilustram essa dinâmica: em fevereiro de 2026, a
operação da Cargill em Santarém (PA) foi afetada por manifestações e bloqueios
que interromperam o acesso ao terminal portuário, gerando paralisação das
atividades e danos a ativos. “São situações que podem ser enquadradas em
coberturas de violência política e interrupção de negócios”, ressalta.
Desconhecimento
ainda limita adoção
Apesar dos
benefícios, a adoção ainda enfrenta barreiras. O levantamento aponta que 73%
das multinacionais que não contrataram seguro de risco político entre 2020 e
2025 citam a falta de entendimento sobre o produto como principal obstáculo.
Para a Howden,
esse dado evidencia um descompasso entre a crescente exposição a riscos e o
nível de maturidade das estratégias de proteção adotadas pelas empresas.
“A demanda está
crescendo, mas ainda existe uma lacuna importante de entendimento. Parte
relevante das empresas ainda não incorporou plenamente o risco político na sua
estratégia, mesmo já tendo sido impactada por ele”, afirma Andoni Hernández.
Howden Brasil
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