Tenho visto
empresas se preocuparem com o orçamento da infraestrutura de IA sem olhar com a
mesma atenção para um tema decisivo: o calor. Compram GPU, planejam modelos,
discutem nuvem, segurança e dados. Mas, muitas vezes, a refrigeração ainda
aparece como mero detalhe técnico. Esse é um erro que pode sair bem caro.
Datacenters
projetados para aplicações tradicionais agora recebem servidores com exigências
físicas muito mais intensas. A questão deixou de ser apenas tecnológica e
tornou-se corporativa: o ambiente está preparado para a IA que a empresa
pretende escalar?
A resposta exige
compreender a mudança de escala. Projeções indicam que a IA representará metade
das cargas de trabalho até 2030, demandam enorme expansão energética e
computacional. Infraestruturas tradicionais operam em torno de 12 kW por rack,
enquanto sistemas de IA podem exigir entre 41 kW e 130 kW. Nesse cenário, o
resfriamento a ar já não basta.
Por isso a
refrigeração líquida ganhou protagonismo. Líquidos removem calor de forma mais
eficiente e próxima do chip, o que permite suportar cargas elevadas de GPU sem
comprometer desempenho. Parece detalhe de engenharia, mas define a capacidade
de sustentar modelos maiores, reduzir latência e evitar desperdício de
investimento.
Quando a
temperatura sobe, as GPUs reduzem velocidade para se proteger, fenômeno
conhecido como thermal throttling (estrangulamento térmico). Na prática,
significa perda de capacidade computacional em equipamentos caros. Investimos
em hardware, energia e talentos, mas perdemos performance por não tratar
refrigeração como prioridade de competitividade.
Nesse ponto, o PUE
(Indicador de Uso de Energia) deixou de ser apenas dado técnico e passou a
simbolizar eficiência econômica e ambiental. Quanto menor o desperdício de
energia, mais enxuto e sustentável se torna o datacenter. Grandes provedores
globais já mostram avanços em eficiência térmica e redução de consumo, o que
equivale dizer que refrigeração não é custo, mas diferencial competitivo e
ativo valioso na pauta de sustentabilidade.
O mercado sinaliza
urgência. O segmento de liquid cooling (refrigeração líquida) cresce
rapidamente porque responde a uma demanda concreta: manter infraestrutura de
alta densidade estável e eficiente. Quem começar cedo ganhará aprendizado e
adaptação. Quem postergar enfrentará urgência, custo elevado e dependência
maior de parceiros.
Três soluções
principais se destacam: resfriamento direto ao chip, imersão em fluido
dielétrico em fase única e imersão em duas fases. Cada modelo gera impactos
distintos sobre manutenção, retrofit, densidade computacional e risco
operacional, mas também abre espaço para ganhos de eficiência e vantagem
competitiva.
O tema já
ultrapassou o âmbito técnico. A refrigeração influencia arquitetura de IA,
orçamento de capital, continuidade do negócio e competitividade. Equipes de
datacenter precisarão operar ambientes preparados para GPU, redes de alta
largura de banda e sistemas avançados de refrigeração. O parceiro tecnológico
escolhido será determinante para a capacidade operacional dos próximos anos.
No Brasil, o
desafio é ainda mais sensível. Limitações energéticas, metas ambientais,
pressão por eficiência e maturidade desigual dos parques tecnológicos tornam a
decisão complexa. CIOs convivem com restrição orçamentária, legado técnico e
pressão por resultados rápidos em IA.
Não existe solução
única. Muitas empresas adotarão modelos híbridos, com parte da operação em ar e
ilhas específicas para cargas de IA com refrigeração líquida. Isso exige
planejamento térmico, gestão energética, qualificação de equipes e visão clara
de risco. O maior perigo talvez seja o timing. O mercado ainda oferece espaço
para aprendizado e adaptação, mas nos próximos anos, com maior demanda por
capacidade elétrica, componentes e especialistas, a pressão sobre custos e
disponibilidade aumentará.
Liquid cooling,
portanto, deixou de ser pauta exclusiva da engenharia. O CIO precisa levar o
tema ao centro da estratégia de negócios, avaliar custo total, risco
operacional, impacto em eficiência energética e metas ESG. O CEO deve enxergar
refrigeração como parte inseparável da estratégia de IA. E o CFO precisa
entender que calor invisível também pesa no resultado financeiro.
A inteligência
artificial recolocou o datacenter no centro das decisões corporativas. Empresas
que integrarem computação, energia e refrigeração como uma única gestão estarão
mais preparadas para competir. As demais correm o risco de descobrir tarde
demais que o calor já entrou no orçamento.
Silvio Ferraz de Campos - CEO da Positivo Servers & Solutions. Formado em administração de empresas e responsável pelo marketing e vendas da Positivo Servers & Solutions, ele trabalha há mais de 30 anos no setor de TI. Em 1988, fundou a Accept, antigo nome da Positivo Servers & Solutions
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