O setor de FFLVO (Frutas, flores, legumes, verduras e ovos) é o coração pulsante do supermercado. É a seção que desperta os sentidos, transmite frescor, saúde e cuidado, e que mais aproxima o varejo do consumidor. Segundo a ABRAS, frutas, legumes e verduras já respondem por até 40% do faturamento dos supermercados brasileiros, e lojas com maior participação de produtos frescos no mix podem alcançar até 15% mais lucro que a média do setor.
Para 2026, a expectativa é de oferta mais ajustada,
preços mais firmes e espaço crescente para produtos de maior valor agregado.
Mas capturar esse valor exige uma mudança de mentalidade. Os três painéis deste
Fórum são as três rotas dessa transformação.
Nos vários eventos pelo Brasil, a IFPA propõe
traçar rotas da Inteligência comercial: da compra estratégica à exposição que
vende, da Comunicação estratégica à conquista do ‘shopper’ de FFLVO e a
colaboração entre fornecedores e supermercados para construir o segmento de
produtos frescos que gera resultados.
A primeira rota do FFLVO de resultado começa onde
tudo começa na operação: na decisão de compra e na forma como o produto chega à
gôndola.
Uma análise recente da ABRAPPE identificou um
padrão preocupante no varejo alimentar brasileiro: compras baseadas em
"feeling" ainda são a regra em grande parte das operações de FLV.
Replicar o pedido da semana anterior ou confiar exclusivamente na experiência
do comprador pode funcionar em períodos estáveis, mas o FFLVO não opera em
linha reta — clima, sazonalidade, comportamento regional, qualidade do
fornecedor e giro por categoria impactam diretamente o desempenho. Sem dados
consistentes, a loja compra errado, que pode significar excesso, ruptura ou
perda acelerada.
O problema se estende à exposição. Layout é
engenharia de venda, produtos de maior margem e melhor giro precisam ocupar
pontos quentes, enquanto itens sensíveis exigem exposição pensada para reduzir
manuseio excessivo e deterioração, que chega a 4,73% de perdas, a maior taxa
entre todas as seções do supermercado. Em casos reais analisados, perdas
chegaram a 12% antes de intervenções estruturadas — e, após 90 dias de ajustes
em compras, exposição e controle por subcategoria, houve redução significativa
das perdas e melhoria clara da margem.
Varejistas que já adotam modelos preditivos
baseados em inteligência artificial conseguem reduzir perdas em até 25% e
rupturas em até 30%.
A segunda rota do FFLVO de resultado enfrenta um
dos maiores gargalos do setor: a dificuldade de comunicar valor ao consumidor
para além de preço e frescor. Enquanto outras categorias do supermercado, como
vinhos, queijos, cervejas artesanais, até água engarrafada trabalham
segmentação, storytelling e diferenciação de marca com sofisticação crescente,
o FFLVO ainda compete com mensagens genéricas que perdem espaço para a
comunicação agressiva de snacks, doces e ultraprocessados.
O dado mais revelador é que, enquanto os preços
médios dos alimentos no varejo aumentaram entre 30% e 40% desde 2019, o valor
dos produtos frescos subiu apenas cerca de 18% por quilo no mesmo período. Em
alguns casos, os preços atuais são até menores que os de sete anos atrás. Mesmo
com reajustes mais moderados, a demanda avança lentamente. Isso demonstra que o
problema não é preço, mas é falta de conexão com a forma como o consumidor
descobre e escolhe alimentos hoje.
Paralelamente, a saudabilidade é a principal
macrotendência do mercado de alimentos em 2026, segundo levantamento que
compilou 682 tendências de 80 fontes globais. O consumidor está cada vez mais
atento à saúde, ao bem-estar e à funcionalidade dos alimentos, mas só será
beneficiário de fato se souber comunicar esse valor no ponto de venda, nas
redes sociais e na jornada de compra.
A terceira rota do FFLVO de resultado aborda a
dimensão mais transformadora, e talvez a mais negligenciada da cadeia: a
colaboração estratégica entre quem produz e quem vende. Historicamente, a
relação entre fornecedores de FFLVO e supermercados no Brasil foi construída
sobre uma lógica transacional: negociação de preço, volume e prazo de entrega.
Essa dinâmica, embora funcional, deixa sobre a mesa um enorme potencial de
geração de valor compartilhado.
O trade marketing voltado para FFLVO é definido
como a ponte entre o fornecedor, o varejo e o consumidor final. O cenário de
2025 tornou essa lacuna ainda mais evidente: o produtor colhe sem visibilidade
da demanda real, o distribuidor opera com estoques desbalanceados, e o
supermercado compra sem dados de qualidade e shelf life que permitiriam
otimizar a operação. O resultado é um sistema onde todos perdem um pouco e o
consumidor, no final, encontra menos frescor, menos variedade e menos valor.
A boa notícia é que modelos colaborativos já
demonstram resultados concretos em outros setores do varejo alimentar. Planos
de negócios conjuntos entre indústria e varejo, quando bem executados, geram
crescimento de vendas, redução de rupturas e melhoria de margem para ambos os
lados. Aplicar essa lógica ao FFLVO, com as adaptações necessárias para a
natureza perecível e sazonal da categoria, é a fronteira de inovação que pode
redefinir o setor.
Quando produtor e varejista deixam de se enxergar
como pontas opostas de uma negociação e passam a se ver como parceiros de uma
mesma missão, que é levar o melhor FFLVO à mesa do consumidor, a paixão que
transforma o varejo se traduz em gôndolas mais inteligentes, consumidores mais
satisfeitos e margens mais saudáveis para toda a cadeia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário