Ultimamente, a palavra “cansaço” deixou de ser apenas um estado
passageiro e passou a se tornar quase uma identidade coletiva. Muitas pessoas
relatam sentir-se constantemente esgotadas, seja mental, emocional ou até
fisicamente. Isso levanta uma pergunta importante: por que estamos tão
cansados?
Parte da resposta está em como tradicionalmente entendemos saúde mental.
Durante muito tempo, considerou-se que estar mentalmente saudável significava
simplesmente não apresentar um transtorno psicológico. Ou seja, na ausência de
ansiedade, depressão ou outras condições clínicas, presumiríamos que a mente
estaria funcionando bem.
Mas saúde mental não é apenas a ausência de doença. Ela também envolve a
presença de um funcionamento cognitivo e emocional saudável. Isso inclui
capacidade de atenção, clareza mental, autoconhecimento, regulação
emocional, flexibilidade psicológica, autocontrole, capacidade de tomar
boas decisões, entre outros.
Quando essas habilidades relacionadas às chamadas Funções
Executivas começam a falhar, mesmo sem um diagnóstico clínico, o
resultado frequentemente aparece na forma de fadiga mental, irritabilidade e
sensação de sobrecarga constante.
Vivemos em um ambiente que exige muito do cérebro. A quantidade de
estímulos, decisões, informações e pressões diárias pode ultrapassar a
capacidade natural do nosso sistema de processar tudo de forma equilibrada. Ao
mesmo tempo, muitos dos hábitos que sustentam o bom
funcionamento cerebral, tais como pausas mentais, sono
reparador, atenção plena e regulação emocional, acabam sendo
negligenciados.
O esgotamento, portanto, muitas vezes não é um sinal de fraqueza
individual, mas um indicador de que nossos sistemas mentais estão operando em
modo de sobrevivência por tempo prolongado.
Mas você já percebeu que nem tudo que nos recarrega é
necessariamente descanso?
Veja, muitas atividades que nos devolvem vitalidade podem até cansar o
corpo, mas ainda assim restauram nossa energia vital. Isso acontece porque
elas despertam, nosso sentido de propósito, algo fundamental
para o cérebro humano. Conversar com pessoas queridas, dedicar-se a um projeto
significativo ou contribuir para algo maior do que nós, pode exigir
esforço, mas, paradoxalmente, também nos reenergiza.
No meu mais recente livro Neurociência Positiva,
proponho olhar para a saúde mental de forma mais ampla. Em vez de perguntar
apenas “como evitar o adoecimento”, devemos começar a perguntar também “o
que faz o cérebro funcionar bem?”
Essa mudança de perspectiva é fundamental para cultivarmos
efetivamente uma saúde mental e não apenas para evitarmos, ou
reduzirmos, a incidência de doenças ou os seus sintomas.
Assim, talvez o cansaço coletivo que vemos hoje seja, na verdade,
um convite para repensarmos nossa percepção de saúde,
nossa relação com a produtividade e com aquilo que realmente nos devolve
energia. Afinal, o cérebro humano não foi feito apenas para suportar
demandas, mas para encontrar sentido, equilíbrio e direção.
Juliana Zellauy - especialista em Neurociência e Comportamento, com formação em Psicologia Positiva e em Mindfulness, autora de “Neurociência Positiva – Uma rota prática para cultivar o equilíbrio, desenvolver clareza mental e viver com mais leveza

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