Diagnóstico diferencial é o único caminho para não sobrecarregar o sistema e garantir apoio a quem realmente precisa
Basta navegar alguns minutos pelas redes sociais para encontrar
relatos de pessoas que se identificam com traços do Transtorno do Espectro
Autista (TEA). O aumento expressivo de diagnósticos de autismo, especialmente
no nível 1 do espectro, tem gerado debates nos últimos meses. Estamos
diagnosticando melhor ou estendendo demais a condição?
Camila Canguçu, psicóloga, doutora pelo Medaille College (EUA), supervisora
do PRATEA (Programa de Atenção ao Transtorno do Espectro do Autismo) da
Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e mãe de um adolescente autista, traz
uma análise sobre essa possível “inflação” de laudos. Para ela, a ampliação dos
níveis de suporte pode criar uma zona cinzenta, na qual outros transtornos,
como a ansiedade, acabam sendo rotulados precocemente como autismo.
“O problema central é que, após as mudanças diagnósticas ocorridas
em 2013, os critérios passaram a abranger um espectro mais amplo. Se a
avaliação não for feita de forma criteriosa, existe o risco de confundirmos
outros quadros clínicos. Por exemplo, a evitação social por questões de
ansiedade pode ser interpretada como característica de autismo. Ou até mesmo
traços de personalidade podem ser equivocadamente considerados como critérios
diagnósticos”, afirma.
Um dos pontos principais defendidos pela especialista é que, para
ser considerado autismo, deve haver, obrigatoriamente, um prejuízo funcional na
vida do indivíduo. Não basta ter características isoladas ou preferências
específicas; é preciso que existam barreiras reais na comunicação e na
interação social, por exemplo.
“Devemos considerar o diagnóstico de autismo quando há evidências
claras de déficits na comunicação e na interação social, associadas à presença
de padrões restritos e repetitivos de comportamento e interesses, causando
prejuízos significativos para o indivíduo. Além disso, o autismo é uma condição
do neurodesenvolvimento que se manifesta desde muito cedo, na primeira
infância. Ele não ‘surge’ na adolescência ou na vida adulta. O que ocorre,
nesses casos, é um diagnóstico tardio de algo que sempre esteve presente”,
completa a especialista.
A psicóloga ressalta ainda que o perigo da banalização do diagnóstico
é o impacto direto em quem realmente precisa de suporte intenso. Quando casos
de ansiedade são confundidos com autismo, o tratamento pode não ser o mais adequado
para o paciente e a rede de apoio acaba sobrecarregada, sem contar o uso do
diagnóstico apenas para obter vantagens práticas.
"A conscientização é fundamental, mas o autismo não pode ser
visto como um rótulo de conveniência para acessar benefícios. Quando pessoas
sem prejuízos reais buscam o laudo apenas por essas facilidades, acabamos
tirando o espaço e o tempo de quem possui barreiras severas e depende
visceralmente dessas políticas públicas. O diagnóstico deve servir para
garantir o tratamento correto, e não para banalizar uma condição que exige
tanto das famílias que a vivem diariamente", finaliza a psicóloga.
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