Com prevalência em alta, ciência aponta
forte base genética no TEA, mas destaca influência ambiental, idade paterna e
risco de diagnóstico equivocado
O número de diagnósticos de Transtorno do Espectro
Autista (TEA) cresce de forma expressiva no mundo e já levanta debates
importantes na comunidade científica. Em pouco mais de duas décadas, a
prevalência passou de cerca de 1 em cada 150 crianças para aproximadamente 1 em
cada 36, chegando a 1 em 31 nas estimativas mais recentes, segundo dados do
Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Embora parte desse aumento
seja explicada pelo avanço dos critérios diagnósticos e pela maior
conscientização, especialista alerta que o cenário é mais complexo, e inclui
desde fatores genéticos até possíveis distorções no diagnóstico.
Segundo o geneticista Dr. Ciro Martinhago, um dos pontos críticos
hoje é a confusão entre traços comportamentais e o diagnóstico fechado de TEA.
Crianças com deficiência auditiva, por exemplo, podem apresentar dificuldades
de interação social e comunicação, características que podem ser confundidas
com autismo.
“É comum receber no consultório crianças com diagnóstico de
autismo que, na verdade, são surdas e não passaram por exames básicos
auditivos. Isso muda completamente a condução do caso”, explica o especialista.
O mesmo pode ocorrer em quadros de deficiência intelectual ou
outros atrasos do desenvolvimento. Nesses casos, a criança pode apresentar
comportamentos semelhantes aos do espectro autista, sem necessariamente
preencher os critérios para o diagnóstico.
Do ponto de vista científico, o autismo tem forte base genética,
com herdabilidade estimada em até 80%. Alterações como microdeleções e
microduplicações cromossômicas já foram identificadas, principalmente em casos
mais complexos.
No entanto, há um dado que chama atenção: cerca de 80% dos casos
considerados “puros”, aqueles sem outras condições associadas, não apresentam
alterações estruturais identificáveis no genoma com as tecnologias atuais.
“Isso mostra que ainda existe uma limitação importante no nosso conhecimento.
Muitas vezes, o que vemos é a expressão de múltiplos fatores, e não uma causa
única”, afirma Martinhago.
Entre os fatores de risco mais estudados está a idade paterna. De
acordo com o especialista, filhos de homens mais velhos têm maior chance de
desenvolver o transtorno. “Um pai de 45 anos pode ter cerca de três vezes mais
chance de ter um filho com autismo em comparação a um pai de 25 anos. Isso
acontece porque, com o envelhecimento, aumentam as mutações novas no
espermatozoide”, explica o geneticista.
Essas mutações, chamadas de “de novo”, não estão presentes nos
pais, mas surgem no material genético transmitido ao filho, e podem impactar o
desenvolvimento neurológico.
Fatores ambientais entram na equação
Apesar da forte influência genética, o crescimento acelerado dos
casos levanta a hipótese de participação ambiental. Segundo Martinhago, doenças
genéticas clássicas tendem a ser estáveis ou até reduzir sua incidência ao
longo do tempo, o que não ocorre com o autismo. “Genética não costuma aumentar
nessa velocidade. Isso sugere que fatores ambientais também podem estar
envolvidos”, afirma.
Entre os pontos em investigação estão a exposição a substâncias
químicas, como agrotóxicos, além de mudanças no estilo de vida e no ambiente ao
longo das últimas décadas. Alguns estudos observacionais, por exemplo, indicam
menor prevalência em países com maior controle sobre determinadas substâncias,
embora ainda não haja consenso científico definitivo.
Outro dado conhecido é a maior prevalência do autismo em meninos.
Uma das explicações está no cromossomo X: enquanto meninas têm dois, meninos
possuem apenas um, o que pode aumentar a vulnerabilidade a determinadas
alterações genéticas. Além disso, mulheres podem apresentar mecanismos de compensação
biológica mais eficientes, o que pode mascarar ou reduzir a manifestação dos
sintomas.
Desafios: diagnóstico e compreensão do espectro
Com um espectro amplo e heterogêneo, o autismo segue como um dos
maiores desafios da medicina contemporânea. A variabilidade clínica é grande,
desde indivíduos altamente independentes até aqueles que necessitam de suporte
intensivo.
Para o especialista, o momento exige cautela e precisão. “Estamos
avançando muito, mas ainda precisamos melhorar a qualidade do diagnóstico. Nem
tudo é autismo, e entender isso é fundamental para garantir o tratamento
correto para cada criança”, conclui.
No contexto do Abril Azul, a discussão sobre o que já se sabe, e, principalmente, sobre o que ainda precisa ser investigado, é essencial para qualificar o debate público e orientar políticas de saúde mais eficazes.
Ciro Martinhago - médico geneticista, especialista em
doenças raras pela Sociedade Brasileira de Genética Médica (SBGM) e PhD em
genética reprodutiva. Atua em pesquisa e atendimento clínico, com foco em
genética médica, aconselhamento genético e medicina reprodutiva.
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