Ontem me deparei com uma
página no Instagram sobre a Mulher Maravilha que me fez dar um passinho para
trás no corre-corre do dia. Sabe aquela expressão “Bateu, doeu, pega que é
seu”, pois bem, li o post sobre a Amazona mais famosa que já inventaram, senti
doer e peguei para mim algumas coisinhas. Diziam o seguinte sobre ela: “Ela
nunca foi princesa... Desde cedo precisou trocar a coroa por uma armadura. ”’
Eu sempre admirei essa
heroína. Quando pequena assistia seus desenhos e lembro-me de que, naquela
versão, ela tinha até um avião invisível. Talvez quiseram dar uma roupagem mais
moderna à Mulher-Maravilha, mas eu ainda prefiro vê-la em seu cavalo na mítica
ilha Themyscira. Não sei bem explicar o fascínio que sinto por ela, talvez até
porque seja essa a intenção ao criarem os super-heróis. Fossem eles sem graça e
desinteressantes como ficariam os lucros por trás desses produtos? Sim. Essas
criaturas são produtos que consumimos entre tantas outras coisas que nos são
oferecidas. No entanto, há algo mais profundo quando nos pegamos admirados e
encantados por um super-herói ou personagem. Sorvemos algo deles que se reflete
em nós de forma tão poderosa quanto seus superpoderes. Vemos neles algo que
queríamos ser, talvez.
Quando
li que a Wonder Woman “precisou” abdicar da coroa para vestir a armadura me
doeu aqui num lugar só meu. Não foi uma escolha dela, percebem? Quem sabe nunca
a perguntaram de fato o que ela queria. Rapidamente modifiquei meu olhar sobre
essa heroína e sobre mim mesma. Ela é acima de tudo uma mulher, maravilha, mas
mulher é também seu título.
A Mulher Maravilha é
forte, competente, independente, justa, extremamente feminina e bela. Tem como
meta salvar o mundo do deus da guerra. Que árdua tarefa! Mas é poderosa e capaz
o suficiente para dar conta do recado, pensa ela. Na ficção consigo aceitar
perfeitamente esse papel que lhe caiu, mesmo agora olhando-a com certo dó por
não saber se ela de fato queria esse fardo ou simplesmente o aceitou.
Acabei escarafunchando e
pesquisando mais sobre essa guerreira e descobri que há uma tal de Síndrome da
Mulher-Maravilha. Não é uma doença propriamente dita e nem foi reconhecida pela
comunidade médica. É, na verdade, um conjunto de atitudes e posturas que as
mulheres começam a ter que as equipara à heroína. Quando li sobre essa
síndrome, logo levantei o dedo me considerando sofredora desse mal. Esse termo
é endereçado àquelas que buscam na vida real alcançar a perfeição em tudo que
fazem e desempenhar múltiplos papéis sendo fortes o tempo todo.
Óbvio é que a vida nos
demanda flexibilidade, agilidade e adaptabilidade. Muitas mulheres abraçam profissão,
filhos, casamento e atividades de todo o tipo. Esse é o fluxo normal da vida e
de nossas escolhas, porém a Síndrome da Mulher Maravilha desperta uma cobrança
na mulher na qual ela deve desempenhar todos essas atribuições, ou quaisquer
outras que ela escolha, com perfeição. Essa sobrecarga de responsabilidades e
metas inatingíveis nos leva à exaustão física e mental.
Não venham me dizer que
não pode a mulher reclamar porque foi desejo dela própria galgar independência
e que foi o feminismo que causou isso tudo. Não cabe mais esse argumento raso.
Bato palmas todo dia por esse movimento vital que nos sustenta com o mínimo de
dignidade. Digo mínimo porque por aqui e pelo mundo as mulheres ainda têm muito
a alcançar. Seguimos nossa luta. Não é essa a questão quando falamos da mulher
que deseja ser perfeita em tudo. Há que
se lapidar a ótica feminina sobre si mesma.
Dentro
de uma sociedade voltada à imagem e à produtividade, acabamos por absorver
alguns conceitos sem consciência. A falta de pausa, de calma e de respiração
nos leva a um ritmo desenfreado em que sequer olhamos para nós mesmas e para o
outro. Nos cobramos o tempo todo querendo dar conta de ser uma profissional
competente, comer comida de verdade e, de preferência cozinhá-la, quando
possível e, ao mesmo tempo, ter uma casa organizada e limpa. E quanto à
aparência? Cabelo, unha, maquiagem, academia, procedimentos, roupas e o que
mais inventarem. Nada de mais querer ficar bonita. É até saudável, mas quando
essa produção toda vira mais um encargo, não vale à pena.
É um tsunami invadindo nossas mentes e rotinas
todos os dias ditando regras e comportamentos. Quando tudo dá certo a sensação
de plenitude nos invade, mas quando não, a frustração se instala. E viver
frustrada nessa toada doida é algo constante, já que é notório que não
conseguiremos cumprir metas que talvez nem a Wonder Woman conseguiria. Pensando
aqui, talvez até ela se apiede de nós ao nos observar assim tão loucas correndo
por aí achando que estamos vivendo.
Talvez
para a Mulher Maravilha não houve escolha. Ao deixar a coroa ela foi obrigada a
ser forte, imbatível e esconder seus sentimentos mais frágeis. Quando vestiu a
armadura sentiu-se mais segura para prosseguir e isso não foi de tudo ruim, mas
sentiu-se também mais pesada. Aceitou seu destino e seguiu. Mas eu, cá com meus
botões, vou seguir me desfazendo da armadura que escolhi para mim, sim eu que
escolhi mesmo que inconscientemente, e vou fervorosamente rezar pela Wonder
Woman todos os dias. Vou pedir para que ela se enxergue como alguém que tem
poder de decisão, que se aposente logo e vá viver dias longos e tranquilos em
Themyscira, ou onde quer que ela queira, mas que esteja rodeada pela paz,
calmaria e equilíbrio que merece uma guerreira aposentada.
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