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sábado, 4 de abril de 2026

A APOSENTADORIA DA MULHER MARAVILHA

Ontem me deparei com uma página no Instagram sobre a Mulher Maravilha que me fez dar um passinho para trás no corre-corre do dia. Sabe aquela expressão “Bateu, doeu, pega que é seu”, pois bem, li o post sobre a Amazona mais famosa que já inventaram, senti doer e peguei para mim algumas coisinhas. Diziam o seguinte sobre ela: “Ela nunca foi princesa... Desde cedo precisou trocar a coroa por uma armadura. ”’

Eu sempre admirei essa heroína. Quando pequena assistia seus desenhos e lembro-me de que, naquela versão, ela tinha até um avião invisível. Talvez quiseram dar uma roupagem mais moderna à Mulher-Maravilha, mas eu ainda prefiro vê-la em seu cavalo na mítica ilha Themyscira. Não sei bem explicar o fascínio que sinto por ela, talvez até porque seja essa a intenção ao criarem os super-heróis. Fossem eles sem graça e desinteressantes como ficariam os lucros por trás desses produtos? Sim. Essas criaturas são produtos que consumimos entre tantas outras coisas que nos são oferecidas. No entanto, há algo mais profundo quando nos pegamos admirados e encantados por um super-herói ou personagem. Sorvemos algo deles que se reflete em nós de forma tão poderosa quanto seus superpoderes. Vemos neles algo que queríamos ser, talvez.

            Quando li que a Wonder Woman “precisou” abdicar da coroa para vestir a armadura me doeu aqui num lugar só meu. Não foi uma escolha dela, percebem? Quem sabe nunca a perguntaram de fato o que ela queria. Rapidamente modifiquei meu olhar sobre essa heroína e sobre mim mesma. Ela é acima de tudo uma mulher, maravilha, mas mulher é também seu título.

A Mulher Maravilha é forte, competente, independente, justa, extremamente feminina e bela. Tem como meta salvar o mundo do deus da guerra. Que árdua tarefa! Mas é poderosa e capaz o suficiente para dar conta do recado, pensa ela. Na ficção consigo aceitar perfeitamente esse papel que lhe caiu, mesmo agora olhando-a com certo dó por não saber se ela de fato queria esse fardo ou simplesmente o aceitou.

Acabei escarafunchando e pesquisando mais sobre essa guerreira e descobri que há uma tal de Síndrome da Mulher-Maravilha. Não é uma doença propriamente dita e nem foi reconhecida pela comunidade médica. É, na verdade, um conjunto de atitudes e posturas que as mulheres começam a ter que as equipara à heroína. Quando li sobre essa síndrome, logo levantei o dedo me considerando sofredora desse mal. Esse termo é endereçado àquelas que buscam na vida real alcançar a perfeição em tudo que fazem e desempenhar múltiplos papéis sendo fortes o tempo todo.

Óbvio é que a vida nos demanda flexibilidade, agilidade e adaptabilidade. Muitas mulheres abraçam profissão, filhos, casamento e atividades de todo o tipo. Esse é o fluxo normal da vida e de nossas escolhas, porém a Síndrome da Mulher Maravilha desperta uma cobrança na mulher na qual ela deve desempenhar todos essas atribuições, ou quaisquer outras que ela escolha, com perfeição. Essa sobrecarga de responsabilidades e metas inatingíveis nos leva à exaustão física e mental.

Não venham me dizer que não pode a mulher reclamar porque foi desejo dela própria galgar independência e que foi o feminismo que causou isso tudo. Não cabe mais esse argumento raso. Bato palmas todo dia por esse movimento vital que nos sustenta com o mínimo de dignidade. Digo mínimo porque por aqui e pelo mundo as mulheres ainda têm muito a alcançar. Seguimos nossa luta. Não é essa a questão quando falamos da mulher que deseja ser perfeita em tudo.  Há que se lapidar a ótica feminina sobre si mesma.

            Dentro de uma sociedade voltada à imagem e à produtividade, acabamos por absorver alguns conceitos sem consciência. A falta de pausa, de calma e de respiração nos leva a um ritmo desenfreado em que sequer olhamos para nós mesmas e para o outro. Nos cobramos o tempo todo querendo dar conta de ser uma profissional competente, comer comida de verdade e, de preferência cozinhá-la, quando possível e, ao mesmo tempo, ter uma casa organizada e limpa. E quanto à aparência? Cabelo, unha, maquiagem, academia, procedimentos, roupas e o que mais inventarem. Nada de mais querer ficar bonita. É até saudável, mas quando essa produção toda vira mais um encargo, não vale à pena.

 É um tsunami invadindo nossas mentes e rotinas todos os dias ditando regras e comportamentos. Quando tudo dá certo a sensação de plenitude nos invade, mas quando não, a frustração se instala. E viver frustrada nessa toada doida é algo constante, já que é notório que não conseguiremos cumprir metas que talvez nem a Wonder Woman conseguiria. Pensando aqui, talvez até ela se apiede de nós ao nos observar assim tão loucas correndo por aí achando que estamos vivendo.

            Talvez para a Mulher Maravilha não houve escolha. Ao deixar a coroa ela foi obrigada a ser forte, imbatível e esconder seus sentimentos mais frágeis. Quando vestiu a armadura sentiu-se mais segura para prosseguir e isso não foi de tudo ruim, mas sentiu-se também mais pesada. Aceitou seu destino e seguiu. Mas eu, cá com meus botões, vou seguir me desfazendo da armadura que escolhi para mim, sim eu que escolhi mesmo que inconscientemente, e vou fervorosamente rezar pela Wonder Woman todos os dias. Vou pedir para que ela se enxergue como alguém que tem poder de decisão, que se aposente logo e vá viver dias longos e tranquilos em Themyscira, ou onde quer que ela queira, mas que esteja rodeada pela paz, calmaria e equilíbrio que merece uma guerreira aposentada.

 

Ana Paula Couto - Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Em 2025, lançou “Amor de Alecrim”, continuação da obra, com a personagem aos 50 anos.



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