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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Hora de mudar: associações comerciais e as eleições

 

Como o ativismo judicial e a irresponsabilidade fiscal sufocam quem produz — e por que as entidades de classe devem liderar a cobrança por mudanças reais

 

O Brasil se aproxima de mais um processo eleitoral decisivo em meio a um cenário de incerteza internacional e uma evidente insegurança interna. Vivemos um momento de desequilíbrio institucional que afeta diretamente quem trabalha e produz A realidade, no entanto, não tem contribuído para criar um clima de segurança ou pelo menos mais amigável para o empreendedor brasileiro.

O que assistimos é um Judiciário que extrapola suas funções com decisões monocráticas, desalinhadas com o texto constitucional, e um executivo irresponsável diante do necessário equilíbrio fiscal.

Já o Congresso Nacional vem se destacando pela aprovação de matérias que criam mais burocracia e aumentam a carga tributária, enquanto o Senado se omite de seu papel de frear os excessos e defender as instituições.

Embora os holofotes se voltem naturalmente para a polarizada disputa da Presidência da República, é fundamental compreendermos que o futuro do país depende, com igual peso, da composição do Poder Legislativo.

Sem a formação de uma maioria expressiva e comprometida com reformas estruturais no Congresso — e em especial no Senado —, o Brasil não reencontrará o caminho da retomada econômica, da inclusão social e da segurança jurídica indispensável ao desenvolvimento. Nesse contexto, as Associações Comerciais precisam exercer sua vocação essencial.

Embora sejam entidades políticas, são rigorosamente apartidárias com foco na defesa intransigente das instituições, da democracia e da liberdade em seu sentido mais amplo, ou seja, liberdade de iniciativa, de expressão e igualdade de todos perante a lei. Defende a economia de mercado com inclusão e igualdade de oportunidades.

A base das associações é formada majoritariamente por micro e pequenos empresários e profissionais liberais que, juntos, constituem a espinha dorsal da classe média e o fator de equilíbrio político do país. O empresariado brasileiro carrega valores sólidos de preservação da família, da ética, da moral e da liberdade. Por isso, não pode se calar.

É imperativo, portanto, que as associações participem ativamente do debate político e que os empresários apoiem candidatos que assumam um compromisso claro com a livre iniciativa, independentemente de legendas partidárias.

Para fortalecer esse vínculo entre a sociedade produtiva e a classe política, as associações comerciais tem como bandeira estratégica o Voto Distrital Misto. Como entidades municipais, profundamente inseridas nas comunidades, sabemos que esse sistema aproxima eleitores e eleitos, fortalecendo as cidades e a representatividade regional e aproximando os políticos dos empresários.

O momento exige coragem e clareza de propósitos. É hora de seguir firmes na cobrança por austeridade fiscal, pela implementação plena da Lei de Liberdade Econômica, pela desburocratização e pela redução da pesada carga tributária que sufoca o país.

O voto consciente e o engajamento do setor produtivo são as ferramentas legítimas para resgatar a estabilidade e garantir o futuro do Brasil. 

 

**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**

 

Marcel Solimeo e Arthur Gebara Junior
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/hora-de-mudar-associacoes-comerciais-e-as-eleicoes

Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/hora-de-mudar-associacoes-comerciais-e-as-eleicoes

 

Por que a transformação digital falha quando as pessoas não mudam o jeito de trabalhar


Empresas nunca investiram tanto em tecnologia. Inteligência artificial, automação, plataformas colaborativas, análise de dados e sistemas integrados prometem aumentar produtividade, reduzir custos e acelerar decisões. 

Ainda assim, muitos projetos de transformação digital não entregam os resultados esperados. E o motivo raramente está na tecnologia em si. Na maioria das vezes, o desafio está na forma como as pessoas continuam trabalhando. 

É comum encontrar empresas com ferramentas sofisticadas, mas que ainda dependem de planilhas paralelas, decisões centralizadas, comunicação informal e processos antigos. O software muda, mas os hábitos e, principalmente, os processos permanecem os mesmos. 

Por isso, transformação digital nunca foi apenas uma iniciativa de tecnologia. Ela é, antes de tudo, uma transformação cultural. E isso começa pelas pessoas. 

Ainda existe a crença de que basta implementar uma nova ferramenta para que a empresa evolua naturalmente. Na prática, isso raramente acontece de forma automática. As pessoas criam rotinas, desenvolvem atalhos e constroem formas próprias de executar o trabalho. Esses comportamentos, repetidos ao longo do tempo, formam a cultura organizacional.

Quando uma nova tecnologia chega, ela não substitui automaticamente esses hábitos. Ela passa a competir com eles. Se a mudança não for conduzida de forma intencional, o comportamento anterior tende a prevalecer. 

É por isso que tantas empresas ainda escutam frases como: “sempre fizemos assim e deu certo”; “o sistema é bom, mas prefiro minha planilha”; “depois eu atualizo a plataforma”; ou “é mais rápido fazer do meu jeito”. 

Essas frases não representam, necessariamente, resistência à tecnologia. Elas revelam algo mais profundo: resistência à mudança de comportamento. 

Quando uma empresa lança um novo sistema, o plano normalmente inclui contratação da ferramenta, implantação técnica e treinamento dos usuários. Essas etapas são importantes, mas não são suficientes. 

Aprender a utilizar uma ferramenta é diferente de mudar a forma de trabalhar. O treinamento ensina funcionalidades, mas uma pessoa pode saber exatamente como usar um sistema e, ainda assim, optar por não o utilizar no dia a dia. A pergunta deixa de ser “ela sabe usar?” e passa a ser “ela entende por que deveria mudar?”. 

Um dos maiores aprendizados da gestão da mudança é compreender que toda transformação provoca algum tipo de perda percebida. Mesmo quando a mudança é positiva, as pessoas podem sentir que estão perdendo domínio sobre o trabalho, autonomia, reconhecimento, segurança ou relevância em sua função. 

Por isso, resistência não significa falta de colaboração. Na maioria das vezes, ela é uma resposta natural diante da incerteza. 

Quando líderes compreendem esse movimento, deixam de combater a resistência e passam a administrá-la com mais escuta, clareza e proximidade. 

Muitas empresas acreditam que implantar inteligência artificial, por exemplo, criará automaticamente uma cultura orientada por dados, inovação e experimentação. Mas a cultura funciona no sentido contrário. É ela que determina como as pessoas utilizarão aquela tecnologia. 

Uma empresa cuja liderança tolera riscos, aprende com erros e valoriza a experimentação tende a adotar novas ferramentas com mais velocidade. Já uma organização que pune falhas provavelmente fará com que seus colaboradores utilizem a tecnologia apenas quando tiverem absoluta segurança de que não haverá riscos. 

A tecnologia potencializa comportamentos que já existem. Ela não cria, sozinha, novos comportamentos. Por isso, qualquer processo de transformação digital precisa começar pela clareza sobre o propósito. As pessoas precisam entender por que a mudança está acontecendo. Quando o discurso se limita a “implantaremos um novo sistema”, dificilmente haverá engajamento. Mas, quando a mensagem passa a ser “queremos reduzir retrabalho, acelerar decisões e melhorar a experiência dos nossos clientes”, a conversa muda completamente. As pessoas se conectam com propósito, não apenas com ferramentas. 

Outro ponto essencial é a liderança pelo exemplo. Nenhum projeto de transformação sobrevive quando a liderança continua trabalhando da maneira antiga. Se o gestor pede atualização no sistema, mas continua solicitando informações por WhatsApp ou por planilhas, ele comunica, na prática, que a mudança não é realmente importante. A cultura observa muito mais os comportamentos do que os discursos. 

Também é preciso compreender que mudança não se comunica apenas no lançamento. Ela precisa ser reforçada continuamente. As pessoas devem saber o que muda, quando muda, como muda, quem será impactado e quais benefícios serão percebidos. Mais do que isso, precisam ter espaço para tirar dúvidas, compartilhar dificuldades e participar da construção do novo modelo de trabalho. 

A transformação digital exige novas habilidades, mas também novas mentalidades. Além de ensinar pessoas a utilizarem uma ferramenta, é preciso criar um ambiente em que elas se sintam seguras para aprender, experimentar e evoluir. 

A adesão à mudança passa por colocar o colaborador no centro do processo, compreendendo seus medos, bloqueios e resistências. A partir daí, torna-se possível mostrar que a transformação pode beneficiar não apenas a organização, mas também a trajetória profissional de cada pessoa. 

Quando a empresa demonstra que a mudança representa uma oportunidade de upskilling e reskilling, alinhada às tendências do mercado e à evolução do negócio, ela deixa de tratar a tecnologia apenas como ferramenta e passa a investir no desenvolvimento das pessoas. 

Mudanças só se consolidam quando novos comportamentos passam a ser reconhecidos. Caso contrário, as pessoas naturalmente retornam às práticas anteriores. Toda transformação precisa criar mecanismos para reforçar aquilo que se deseja tornar permanente. Isso envolve reconhecer avanços, celebrar aprendizados e valorizar equipes que incorporam o novo modelo de trabalho. 

Talvez, um dos maiores erros das organizações seja acreditar que a transformação digital pertence exclusivamente à área de tecnologia. Na verdade, ela pertence à estratégia, à liderança, à cultura e, principalmente, às pessoas. 

Nenhum software muda uma organização sozinho. São as pessoas que escolhem utilizá-lo, incorporá-lo à rotina e transformar novos processos em novos hábitos. Quando isso acontece, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta. Ela passa a ser um acelerador da estratégia. 

Em um cenário no qual novas tecnologias surgem continuamente, a verdadeira vantagem competitiva não estará apenas em quem compra as melhores soluções, mas em quem desenvolve uma cultura capaz de aprender, adaptar-se e mudar continuamente. 

 

Juliana Dimário - Diretora de Pessoas e Cultura da CBYK Consultoria e Seastorm Ventures, com certificação Internacional em Psicologia Positiva pelo WholeBeing Institute, Chief Hapiness Officer (CHO) pelo Instituto Feliciência, Colunista no RH Portal, com MBA em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas, e graduação em Comunicação Social pela Universidade Metodista. Profissional voltada a Cultura Organizacional, Bem-estar e Comunicação Corporativa, com mais de 15 anos de experiência atuando em empresas de grande porte e multinacionais, na área de engajamento e clima organizacional, branding, jornada de cliente, comunicação corporativa e marketing de produtos.


Peptídeo isolado de rã do Cerrado aumenta a durabilidade do morango

O experimento mostrou que os sólidos solúveis, que são os açúcares,
altamente degradáveis por microrganismos, foram mantidos nas
 frutas que tiveram contato com o peptídeo e a textura também foi mantida
(imagem:
Natasha Skov/Unsplash)

Estudo mostra que a molécula preserva a firmeza da fruta sem interferir no sabor e tem potencial como tratamento pós-colheita

 

Cinco minutos. Esse foi o tempo durante o qual morangos da variedade Oso Grande ficaram em contato com o peptídeo Ctx(Ile21)-Ha – uma molécula isolada da pele de uma rã do Cerrado brasileiro – em experimentos realizados por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi o suficiente para evidenciar o potencial da molécula para aumentar a vida de prateleira da fruta, que tem alta perecibilidade.

“Somente o peptídeo, sem nenhum outro tipo de componente, manteve as características da fruta madura após cinco dias, o que, para um morango, é um tempo longo de armazenamento. Não esperávamos tanto”, descreve Eduardo Festozo Vicente, coordenador do Laboratório de Equipamentos Multiusuários da Faculdade de Engenharia e Ciências (Lemu-FCE) da Unesp-Tupã, onde o estudo foi conduzido, com financiamento da FAPESP.

Peptídeos são moléculas semelhantes às proteínas, porém mais simples e menores, que executam diversas funções no organismo. Vicente estuda o Ctx(Ile21)-Ha há quase 20 anos, desde o seu mestrado. Ele ressalva que a equipe ainda não fez os estudos microbiológicos para entender a ação da molécula, que é antimicrobiana.

Em artigo publicado na revista Applied Food Research, o time focou apenas nos parâmetros físico-químicos da fruta tratada com a molécula. Descobriu que os tratamentos com peptídeo não interferiram no sabor da fruta e não afetaram significativamente os compostos fenólicos ou os sólidos solúveis totais, indicando que a molécula preservou a composição química da fruta.

“Quando se armazena o morango na geladeira por um tempo, ele será degradado naturalmente. O estudo mostra que o peptídeo retarda essa degradação, aumentando relativamente a vida de prateleira e mantendo as características físico-químicas do morango. A análise do experimento mostrou que os sólidos solúveis, que são os açúcares, altamente degradáveis por microrganismos, foram mantidos nas frutas que tiveram contato com o peptídeo. A textura também foi mantida”, diz Vicente à Agência FAPESP. “Não podemos falar, ainda, em termos microbiológicos, porque não fizemos esses testes. Mas uma hipótese do grupo para futuros trabalhos é que tenha havido uma redução de microrganismos [pelo fato de o peptídeo ter ação antimicrobiana].”

No experimento, a equipe solubilizou o peptídeo em água em três diferentes concentrações e ali mergulhou 300 gramas de morango por cinco minutos. Um grupo-controle foi criado, no qual os morangos foram mergulhados apenas em água. “Depois, esperamos secar e guardamos os morangos em uma bandejinha de PET sanitizada com etanol e coberta com papel-filme, a 5 °C, em uma incubadora que tem um controle preciso de temperatura. Simulamos o que um vendedor de morangos faria ao armazenar em uma geladeira”, afirma Vicente.

As amostras foram mantidas na incubadora por seis dias e parâmetros físico-químicos (como pH, sólidos solúveis, textura e taxa respiratória) e bioquímicos (ácido ascórbico, fenóis totais, açúcares e atividade enzimática) foram avaliados nos dias 0, 1, 2, 3, 4 e 5. Os experimentos foram feitos em triplicata, o que diminui sua variabilidade e grau de erro, em colaboração com a professora Angela Vacaro de Souza, também da FCE-Unesp.

Também colaboraram na pesquisa os professores Luís Roberto Almeida Gabriel Filho e Camila Pires Cremasco, da área de estatística e modelagem preditiva da FCE.


Defesa

Vicente explica que o peptídeo Ctx(Ile21)-Ha foi isolado e extraído em 2006 de uma rã do Cerrado brasileiro (Boana albopunctata) pelo grupo da professora Mariana de Souza Castro, da Universidade de Brasília (UnB). “Essa substância faz parte de uma gama de defesas do anfíbio. Como ele tem uma respiração cutânea, possui um arsenal de moléculas que formam um sistema defensivo eficiente, pois está em contato direto com os patógenos do ambiente. O Ctx(Ile21)-Ha é apenas uma das moléculas isoladas para estudar. E ela é muito ativa do ponto de vista antimicrobiano.”

Segundo ele, a ideia inicial do grupo era aplicar o peptídeo como aditivo zootécnico na nutrição animal para substituição de antibióticos convencionais, que estão gerando muita resistência antimicrobiana. “O projeto inicial tinha três grandes vertentes: primeira, estudar biofisicamente o peptídeo, produzindo análogos mais potentes do que a própria molécula original; segunda, tentar aplicá-lo, ou seus análogos, na nutrição animal, incluindo ruminantes, gado de leite [contra mastite], aves poedeiras, frangos de corte e suínos. A última vertente era aplicar em alimentos, com o objetivo de aumentar sua vida útil.”

Vicente destaca a importância do suporte da FAPESP, inclusive para a obtenção do peptídeo. “Somos um dos poucos laboratórios do Brasil em que se consegue sintetizar, purificar e caracterizar esse peptídeo e qualquer outro de interesse biológico.” A Fundação apoiou o trabalho por meio dos projetos 21/06706-919/07438-8 e 16/00446-7.

“Conseguimos um grau de pureza superior a 95% na síntese da molécula, composta por aminoácidos. Ela pode ser ingerida, pois será degradada normalmente pelo estômago, já que é um derivado de proteína. Claro, estamos ainda em uma prova de conceito, inclusive para uso como aditivo para alimentação animal. Mas sabemos agora que o peptídeo tem um grande potencial para ser usado como tratamento pós-colheita em frutas altamente perecíveis, como o morango.”


Próximos passos

O Ctx(Ile21)-Ha ainda não tem regulamentação de uso no Brasil, mas Vicente acredita que um eventual processo nesse sentido não seria problema, pois já existem outros peptídeos comerciais aprovados e em uso no país. O grupo já possui um pedido de patente para o uso em aves poedeiras e outro em curso para uso em ruminantes.

“Precisamos ainda trabalhar na parte microbiológica e fazer os testes necessários, e certamente esse será o próximo passo”, adianta Vicente. “Além disso, visamos a produção do peptídeo em larga escala em modelos consagrados pela literatura, como, por exemplo, leveduras. E uma outra vertente seria a criação de um filme, uma película, para envolver frutas com casca, pois a legislação impede que frutas ingeridas sem casca sejam envoltas em películas comestíveis.”

Instrução Normativa nº 211/2023 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabelece os limites máximos e as condições de uso para os aditivos alimentares e os coadjuvantes de tecnologia autorizados para uso em alimentos.

O artigo Effects of the antimicrobial peptide Ctx(Ile21)-Ha on the physicochemical and biochemical quality of organic strawberries during post-harvest storage pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S2772502226004130.

 


Karina Ninni

Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/peptideo-isolado-de-ra-do-cerrado-aumenta-a-durabilidade-do-morango/58687

 

O descanso entrou na lista de compras do brasileiro


Durante muito tempo, o colchão foi aquela compra que se fazia uma vez a cada dez anos e se esquecia em seguida. Hoje, o cenário é outro. O consumidor passou a pensar no sono como uma categoria inteira, que reúne colchões, dispositivos, aplicativos, suplementos e uma série de produtos e serviços voltados ao descanso. O sono entrou na lista de compras, e isso diz muito sobre como o brasileiro está mudando. 

Esse movimento não é um modismo de wellness. Por trás da mudança de comportamento existe substância, e ela vem da ciência. Décadas de pesquisas mostram que o descanso não é o oposto da produtividade, mas uma de suas condições fundamentais. Um estudo publicado na revista Psychological Bulletin analisou 70 estudos e 147 testes cognitivos e concluiu que a privação de sono afeta atenção, memória de trabalho, velocidade de processamento e raciocínio. Outro trabalho conhecido, publicado na revista Sleep, acompanhou adultos saudáveis por duas semanas: quem dormia apenas seis horas por noite acumulava perdas cognitivas progressivas e, ao fim de 14 dias, chegava a um desempenho comparável ao de quem passou até duas noites inteiras sem dormir, muitas vezes sem perceber o próprio déficit. 

É essa percepção, a de que dormir bem muda o dia seguinte de forma concreta, que está levando o consumidor a tratar o descanso como prioridade de compra. No Brasil, o interesse de busca por "como dormir melhor" subiu cerca de 20% no último ano, segundo o Google Trends, sinal de uma preocupação que cresce. E o mercado respondeu: a chamada economia do sono movimentou cerca de US$585 bilhões globalmente em 2024, segundo estimativa da Statista, e se tornou um dos segmentos de consumo que mais avançam. 

Mas existe um descompasso entre o tamanho dessa demanda e a forma como boa parte da categoria se comunica. A oferta costuma oscilar entre dois extremos: o discurso clínico e frio, cheio de termos técnicos, e o wellness aspiracional, com promessas de transformação e pouca substância. Nenhum dos dois responde ao que esse novo consumidor de fato procura. 

Quem chega a esse tema por uma necessidade real não quer ser convencido por jargões nem seduzido por uma estética vazia. Quer entender o que muda na prática: o que vai sentir ao acordar e como uma noite de descanso de verdade afeta sua disposição, sua concentração e seu dia. Ele pesquisa, compara, lê avaliação e cobra entrega, comporta-se diante do colchão como diante de qualquer compra relevante. 

Para quem vende e se comunica nessa categoria, a leitura é direta. Dormir bem não depende só da duração do sono, mas também de sua continuidade e profundidade, e de fatores como estresse, luz, temperatura, ruído e conforto físico. E os ganhos de uma boa noite são concretos: na Pesquisa Global do Sono 2025, da ResMed, quem dorme bem relata mais concentração (41%) e maior produtividade (35%) no dia a dia. O consumidor que entende isso passa a avaliar produtos por aquilo que realmente entregam, e não pela embalagem. Ganha o mercado quem fala com essa pessoa de forma honesta e direta, traduzindo descanso em benefício real. No fim, é disso que se trata: o brasileiro não está comprando colchão, está comprando a chance de funcionar melhor, e a marca que entender isso primeiro larga na frente.


Valter Roldão - CEO da Luuna


Chegada do inverno reforça importância da manutenção preventiva para reduzir riscos no trânsito

 

Canva
A chegada do inverno traz mudanças bruscas nas condições climáticas e exige atenção redobrada de toda população. De acordo com a agência Climatempo, a tendência para a estação do ano em 2026 será de um clima instável, que passam desde massas de ar polar no começo de julho e ao aumento da temperatura nos meses seguintes, frutos da atuação do fenômeno El Niño no Pacífico Equatorial.

 

Para os motoristas, as baixas temperaturas, neblina, pistas úmidas e menor visibilidade podem impactar diretamente o desempenho dos veículos, aumentando os riscos de panes mecânicas, falhas em componentes importantes e acidentes nas vias urbanas e rodovias.

 

Embora o inverno possua características distintas em cada região do país, a queda de temperatura costuma afetar itens essenciais de segurança do automóvel A combinação entre desgaste mecânico e condições climáticas adversas pode comprometer a dirigibilidade do veículo e provocar imprevistos durante deslocamentos cotidianos ou viagens.

 

Nesse cenário, especialistas reforçam que a manutenção preventiva deve ser encarada como parte da rotina dos motoristas, especialmente por quem utiliza o veículo diariamente para trabalhar, estudar ou se deslocar. De acordo com Kleber Vitor, superintendente da APVS, o período exige atenção especial a componentes que podem sofrer maior impacto com o frio.

 

“No inverno, itens como bateria, sistema de freios, pneus, iluminação e palhetas do limpador de para-brisa merecem atenção especial, pois qualquer falha pode comprometer a dirigibilidade do veículo justamente em condições que já exigem mais cuidado por parte do condutor ”

 

A manutenção preventiva também tem impacto direto no planejamento financeiro dos motoristas. Pequenos desgastes identificados com antecedência podem evitar reparos mais caros, preservar a vida útil dos componentes e impedir que o veículo fique parado de forma inesperada. Para profissionais que dependem do automóvel como ferramenta de trabalho, como motoristas de aplicativo, taxistas, representantes comerciais e prestadores de serviço, esse cuidado se torna ainda mais relevante, já que qualquer interrupção pode afetar a renda e a produtividade.

 

Além da revisão mecânica, a condução também precisa ser adaptada às condições típicas da estação. Em situações de neblina, por exemplo, a recomendação é reduzir a velocidade, ampliar a distância de segurança em relação ao veículo à frente, utilizar corretamente os faróis baixos e manter os vidros desembaçados. Em pistas molhadas, evitar acelerações, frenagens bruscas e manobras repentinas também contribui para reduzir riscos.

 

Para Kleber Vitor, a prevenção precisa ser vista de forma ampla, combinando cuidados mecânicos, direção segura e planejamento patrimonial. “Nenhum motorista está totalmente livre de imprevistos. Por isso, a prevenção deve ser entendida de forma ampla. Ela começa com a manutenção periódica do veículo e a adoção de uma direção responsável, mas também passa pelo planejamento patrimonial. Estar preparado para enfrentar situações inesperadas proporciona mais tranquilidade, reduz prejuízos e contribui para que o motorista mantenha sua rotina com mais segurança.”, completa.

 

Para a APVS, estimular a cultura da prevenção significa incentivar escolhas que preservem vidas, reduzam vulnerabilidades e ajudem os motoristas a enfrentar imprevistos com mais segurança. A combinação entre manutenção preventiva, direção consciente e planejamento patrimonial se torna ainda mais importante em períodos do ano em que as condições climáticas exigem cuidado adicional nas vias.


4 soluções que apoiam e desenvolvem o agronegócio brasileiro

Empresas apostam em tecnologia e integração para enfrentar gargalos logísticos e apoiar o crescimento do setor

 

O agronegócio brasileiro segue em expansão, mas ainda esbarra em gargalos logísticos. Segundo o Insper Agro Global, a dependência do transporte rodoviário — que concentra mais de 70% da movimentação de cargas no país — é um dos principais fatores que impactam a eficiência do setor. O tema ganha visibilidade, ao mesmo tempo em que empresas destacam soluções baseadas em tecnologia e integração para enfrentar esses desafios. 

Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a produção de grãos no país cresce, em média, 5% ao ano desde 2000, enquanto o valor das exportações já é oito vezes maior do que no início do século. Apesar desse avanço, a infraestrutura logística ainda não acompanha o ritmo do setor, abrindo espaço para soluções que aumentem a eficiência e reduzam gargalos ao longo da cadeia.

Nesse cenário, empresas de diferentes frentes — da logística à tecnologia — têm desenvolvido iniciativas para apoiar o agronegócio brasileiro. Confira alguns exemplos:


  • Eficiência e conectividade no segmento:

A Motz é uma transportadora que conecta embarcadores, transportadoras e caminhoneiros por meio de um ecossistema que integra soluções logísticas com apoio da inteligência de dados e presença física. A companhia alia solidez, capilaridade e segurança para aumentar a eficiência operacional, apoiando o crescimento de seus parceiros e clientes, e impulsionando o transporte rodoviário de cargas. 

Prova do modelo sólido de desenvolvimento, a Motz cresceu 147% em novos clientes no agronegócio apenas em 2025. Com o protagonismo da soja, com 1,24 milhão de toneladas transportadas no último ano, seguida por milho, fertilizantes e algodão, a companhia atingiu mais de R$ 2 bilhões em receita líquida e planeja crescer seu faturamento em 16% até o fim de 2026. Além do agronegócio, a empresa também possui clientes da construção civil, segmento em que a companhia nasceu.

 

  • Integração logística através da tecnologia:

Em 2024, a nstech, maior empresa de software para supply chain da América Latina e uma das cinco maiores SaaS do Brasil, criou sua primeira frente setorial, voltada 100% para o agronegócio. Representando 30% do faturamento da companhia, o foco está em soluções que atendam às dores da logística da cadeia frigorificada de laticínios e frigoríficos, Tradings agrícolas, papel e celulose, além de empresas de insumos do agrícolas como agroquímicos e fertilizantes. 

A estratégia da nstech está fundamentada na integração de todo o ecossistema logístico, por isso, a empresa criou o Transportation Network System (TNS), uma categoria de rede logística integrada que conecta, de forma fluida e inteligente, empresas e diferentes elos da cadeia por meio de uma única plataforma para resolver dores como redução de custo e ganho de eficiência, adequação ao compliance e aumento de nível de serviço nas operações logísticas de embarcadores e transportadores do agro.

 

  • Qualidade e eficiência na cadeia de grãos

A Kicaldo, marca referência em grãos e líder no segmento de feijão, possui forte atuação na cadeia do agronegócio brasileiro. Com foco em soluções que atendem às demandas do consumidor e do mercado, a companhia se destaca pela seleção criteriosa das melhores safras do Brasil e do mundo, além de um rigoroso processo de controle e testes de qualidade que garantem a qualidade de seus produtos. A operação é sustentada por um time de campo altamente experiente, responsável por assegurar padrão, consistência e confiabilidade em todas as etapas de distribuição. 

Com mais de 20 mil toneladas distribuídas mensalmente e um portfólio com mais de 20 produtos, a empresa combina escala com eficiência operacional. Sua estratégia é baseada em uma forte expertise logística e ampla capilaridade de distribuição, o que permite garantir abastecimento contínuo em todo o território nacional, conectando logística própria, qualidade e foco no protagonismo do feijão na mesa dos brasileiros.

 

  • Rastreabilidade de toda cadeia produtiva

Atualmente, a tecnologia vai muito além do ganho de produtividade no campo e se consolida como uma das principais barreiras contra perdas e crises de segurança na cadeia produtiva. A solução com aplicação em IA da SoftExpert, multinacional especializada em software para conformidade, governança e gestão empresarial, atua na simplificação de processos, automação de gestão documental e rastreabilidade de ponta a ponta - do campo à indústria. Na prática, permite que cooperativas, fornecedores e empresas do setor tenham controle integral da qualidade, rastreando desde embalagens e matérias-primas até o operador responsável na fábrica. 

Além da gestão de processos, a tecnologia fortalece a conformidade das operações ao reduzir riscos e vulnerabilidades, por meio de sistemas de homologação digital e monitoramento contínuo de certificações e normas internacionais. Com isso, contribui para maior eficiência operacional, reforça o controle de qualidade e ajuda a reduzir o  desperdício de alimentos.

 

Seis anos após o Marco Legal, projetos contratados têm potencial de beneficiar mais de 100 milhões de brasileiros – quase metade da população do país


  • Carteira de projetos em estruturação prevê mais de R$ 58,4 bilhões em investimentos, abrangendo uma população de mais de 18 milhões e impactando 625 municípios;
  • Desde a aprovação do Marco Legal o volume anual de investimento cresceu 51%, de R$ 90,54/hab para 137,02/hab. Entretanto, ainda segue distante do volume médio necessário previsto pelo PLANSAB, de R$ 225/ano/hab;
  • O país ainda convive com lacunas relevantes na regulação do saneamento. Há 963 municípios, com cerca de 20 milhões de habitantes, sem agência reguladora cadastrada na ANA;
  • Mesmo entre os municípios com agência reguladora cadastrada, a aderência às normas de referência ainda é bastante limitada. Apenas 29 das 82 agências cadastradas, comprovaram aderência, abrangendo 2.809 municípios e cerca de 92 milhões de habitantes, o equivalente a 43% da população brasileira;

 

O Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, divulga a quinta edição do estudo “Avanços do Marco Legal do Saneamento Básico no Brasil de 2026 (SINISA, 2024)”. O material busca avaliar o estágio de implementação da Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020, bem como analisar os potenciais ganhos socioeconômicos provenientes de maiores investimentos em saneamento. 

O Marco Legal do Saneamento Básico consolidou mudanças significativas para impulsionar o setor rumo à sua universalização. O cenário atual, porém, ainda é bastante desafiador: 15,9% da população brasileira vive sem acesso à água potável e 43,3% não possuem coleta de esgoto. A lei estabeleceu que todas as localidades brasileiras devem atender a 99% da população com abastecimento de água e 90% com esgotamento sanitário até 2033. 

A legislação busca contribuir com a constituição de uma estrutura que incentive investimentos no tema, estimulando alternativas para o aumento da cobertura dos serviços básicos. Seus principais alicerces podem ser compilados em seis eixos: 

Quadro 1: Principais Eixos da Reorganização Setorial Promovida pelo Marco

Eixo

Mudança promovida

Função no novo arranjo

Metas nacionais

Fixação dos objetivos de 99% de atendimento com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033, com possibilidade de extensão até 2040 em situações específicas

Transformar a universalização em referência comum para contratos, planos, investimentos e regulação

Competição pelo mercado

Vedação a novos contratos de programa e licitação como regra para novos contratos

Selecionar prestadores com base em compromissos de investimento, qualidade e eficiência

Capacidade econômico-financeira

Exigência de demonstração da capacidade dos prestadores para cumprir as metas legais

Verificar se os contratos em vigor tinham condições materiais de entregar a universalização

Segurança jurídica e contratual

Regras para adaptação contratual, concessões, PPPs e desestatizações, inclusive no caso de alienação de controle de companhia estatal prestadora

Reduzir incertezas jurídicas e dar maior previsibilidade à transição para novos modelos de prestação

Regionalização

Estímulo à prestação regionalizada e à formação de blocos de municípios

Ampliar escala, viabilizar subsídios cruzados e incluir municípios onde a universalização é mais difícil.

Normas de referência da ANA

Atribuição à ANA para editar parâmetros nacionais de regulação

Reduzir a fragmentação regulatória e aumentar a previsibilidade para titulares, prestadores, reguladores, investidores e usuários

Fonte: Lei nº 11.445/2007, com alterações promovidas pela Lei nº 14.026/2020. Elaboração: GO Associados.

 

CENÁRIO DO SANEAMENTO NO BRASIL DE 2020 A 2024 

A evolução desses indicadores entre 2020 e 2024, apresentada no Quadro 2, revela avanços tímidos e ainda insuficientes para aproximar o país das metas previstas para 2033. Embora o indicador de tratamento de esgoto tenha registrado a maior expansão no período, ele permanece como o mais distante da universalização, uma vez que sua evolução depende, em grande medida, da ampliação da cobertura de coleta de esgoto. 

Quadro 2: Evolução dos Indicadores de Atendimento no Brasil (2020-2024)

Fonte: SNIS (2020-2022); SINISA (2023-2024). Elaboração: GO Associados.


HISTÓRICO DE INVESTIMENTOS DE 2020 A 2024 

O total dos investimentos no período de 2020 a 2024 ficou em R$ 112,6 bilhões. Desse montante, a maior parcela (R$ 57,3 bilhões ou 50,9%) foi desempenhada pela macrorregião Sudeste, com o estado de São Paulo apresentando o desembolso mais significativo entre as unidades da federação brasileiras (R$ 34,6 bilhões ou 30,8%). 

A macrorregião Norte, por outro lado, observou o menor investimento do quinquênio, com R$ 5,3 bilhões, o que representa aproximadamente 4,7% do total. Não coincidentemente, trata-se também da região com os piores indicadores de atendimento. Sob perspectiva estadual, o Acre foi aquele com o menor investimento no período, somando somente R$ 65,8 milhões entre 2020 e 2024, menos de 0,1% do total. 

O Quadro 3 apresenta a evolução dos investimentos por habitante. Desde a aprovação do Marco Legal o volume anual de investimento no país cresceu 51%, de R$ 90,54/hab para 137,02/hab. Entretanto, ainda segue distante do volume médio necessário previsto pelo PLANSAB, de R$ 225/ano/hab. 

Quadro 3: Evolução dos Investimentos por Habitante em Saneamento Básico no Brasil, 2020-2024


Fonte: SNIS (2020-2022); SINISA (2023-2024). Elaboração: GO Associados. Nota: valores de 06/2024.


 

CAPACIDADE ECONÔMICO-FINANCEIRA 

A comprovação de capacidade econômico-financeira tornou-se um dos instrumentos centrais do Marco. Sua finalidade foi verificar se os prestadores tinham condições materiais de cumprir as metas legais nos prazos estabelecidos. O objetivo não era apenas formalizar documentos, mas confrontar a existência jurídica dos contratos com a capacidade efetiva de financiar e executar os investimentos necessários à universalização. 

Publicado em julho de 2023, o Decreto nº 11.598/2023 definiu a metodologia para comprovação da capacidade econômico-financeira dos prestadores de serviços públicos de abastecimento de água potável ou de esgotamento sanitário que detivessem contratos regulares em vigor. Na prática, a exigência alcançou sobretudo contratos de programa celebrados entre municípios e companhias estaduais, muitos deles firmados sem licitação e sem metas compatíveis com as metas legais de universalização.

 

REGIONALIZAÇÃO 

A prestação regionalizada foi incorporada como instrumento para enfrentar a insuficiência de escala de muitos municípios. Em um país com milhares de cidades, grande diversidade territorial e fortes desigualdades de renda, a prestação isolada pode limitar a viabilidade dos investimentos. Municípios pequenos, pouco densos ou com menor capacidade de pagamento tendem a apresentar maior custo por usuário atendido e menor atratividade econômica. A regionalização responde a esse diagnóstico ao organizar a prestação em escala compatível comas a necessidade de cobertura e de financiamento. 

Ao reunir municípios em uma mesma estrutura, torna-se possível combinar diferentes perfis de demanda, diluir custos, organizar mecanismos de subsídio cruzado e incluir localidades que, isoladamente, teriam menor capacidade de atrair investimentos. Essa lógica é central para a universalização, porque parte relevante do déficit está justamente em áreas onde o atendimento é mais caro, disperso ou operacionalmente complexo. 

A experiência dos últimos anos mostra avanços desiguais entre os estados. Alguns conseguiram estruturar blocos e contratar investimentos. Outros avançaram na legislação ou na definição formal das unidades regionais, mas ainda enfrentam dificuldades de adesão municipal, governança, modelagem ou implementação. Isso indica que a regionalização deve ser avaliada menos pela criação formal de blocos e mais pela capacidade de transformar escala em contratos viáveis, investimentos executáveis, fiscalização efetiva e atendimento à população. 

O ganho de escala, por si só, não resolve todos os problemas. A regionalização depende de governança interfederativa, coordenação entre titulares, regras claras de tomada de decisão, transparência nos subsídios cruzados e capacidade regulatória compatível com a complexidade dos contratos. 

A consolidação das entidades regionalizadas é um fator decisivo para que a regionalização produza os resultados esperados. Embora a maioria dos estados já tenha instituído formalmente suas unidades regionais, muitas dessas estruturas ainda operam de forma limitada, sem mecanismos efetivos de governança, coordenação entre os municípios, planejamento integrado ou capacidade técnica para conduzir processos de contratação e fiscalização. Esse cenário reduz a capacidade de transformar o ganho de escala em investimentos concretos, compromete a segurança jurídica dos arranjos e dificulta a implementação de soluções regionalizadas capazes de ampliar o acesso aos serviços. O desafio atual, portanto, não está apenas na criação dessas estruturas, mas em garantir seu funcionamento efetivo, com regras claras, participação dos entes envolvidos e capacidade institucional compatível com a complexidade do setor.

 

AGENDA REGULATÓRIA DA ANA (2025-2026) E O PAPEL DA LISTA POSITIVA 

A Agenda Regulatória 2025-2026 inaugura uma nova etapa na consolidação do papel atribuído à Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) pelo Marco Legal. Após um primeiro ciclo concentrado nas normas mais diretamente associadas à organização contratual, à governança regulatória, às metas progressivas, à qualidade da prestação, aos modelos tarifários, ao reajuste e à matriz de riscos, o biênio 2025-2026 avança sobre temas operacionais, tarifários e institucionais necessários à aplicação prática desse arcabouço. 

Uma destas ações é a Lista Positiva decorrente da Resolução ANA nº 134/2022, que avalia a comprovação da adoção das normas de referência pelas Entidades Reguladoras Infranacionais (ERI). Em 22 de dezembro de 2025, a ANA divulgou a primeira lista desse ciclo de comprovação, organizada por componente do saneamento básico. A verificação foi feita separadamente para abastecimento de água, esgotamento sanitário e limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos urbanos. Para ser considerada aderente em determinado componente, a entidade reguladora deve comprovar o atendimento a todas as normas aplicáveis àquele componente, inclusive normas gerais ou transversais quando cabíveis. 

Os resultados do ciclo de 2025 podem ser observados no Quadro 4, que indica que cerca de 20 milhões de brasileiros vivem em municípios sem agência reguladora cadastrada na ANA. 

Quadro 4: Distribuição dos municípios e da população segundo a existência de agência reguladora e aderência às Normas de Referência da ANA

 

Nº de agências

Nº de Municípios

População (milhões)

Brasil

1051

5.570

213

Municípios sem agência reguladora cadastrada na ANA2

-

963

20

Municípios com agência reguladora cadastradas na ANA

82

4.605

1934

Municípios com agência reguladora aderente às Normas de Referência da ANA

29

2.8093

92

Fonte: ANA (2026) – Painéis ERIs e IBGE. Elaboração: GO Associados. (1) Considerou o número de agências reguladoras de saneamento reportado pela ANA no RAIR sobre “Norma de Referência sobre indicadores operacionais da prestação dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos urbanos”. (2) Existem municípios, de fato, sem presença de agência reguladora e outros municípios cuja atuação de agência reguladora ocorre, mas não foi devidamente reportada à ANA. Em vista da impossibilidade de distinção, com base nos dados disponíveis, optou-se por deixar sem registro o número de agências desta linha. (3) Para fins de apuração, Brasília foi considerada como município. (4) A ANA informa que 20 milhões de pessoas residem em 963 municípios sem regulação de serviços de saneamento, enquanto 4.605 municípios apresentam regulador cadastrado na ANA. A soma do total de municípios, segundo a ANA, é de 5.568, pouco inferior aos 5.570 reportados pelo IBGE. A população de 193 milhões foi obtida pela diferença entre 213 milhões para o Brasil (IBGE) e os 20 milhões de habitantes em municípios sem agência reguladora (dados reportados pela ANA).

 

O Quadro 5 apresenta a lista de ERI aderentes às normas da ANA. Conforme observado, a maior concentração ocorre em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com 4 agências em cada estado. Em seguida, aparecem Goiás e Mato Grosso, com 3 agências cada, e São Paulo, com 2 agências. Os demais estados e o Distrito Federal contam com 1 agência aderente cada, sendo eles Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Piauí, Paraná e Sergipe. O resultado mostra que a adesão ainda se concentra em um grupo limitado de unidades da federação, com presença mais intensa em estados que contam com estruturas regulatórias estaduais, municipais ou intermunicipais mais diversificadas. 

Quadro 5: Distribuição geográfica das ERIs aderentes às Normas da ANA

Fonte: ANA (2026). Elaboração: GO Associados

Os últimos seis anos mostram que as atribuições conferidas à ANA pelo Marco Legal ganharam densidade institucional e passaram a ocupar um papel central na coordenação regulatória do saneamento. O arcabouço de normas de referência sobre temas estruturantes, como governança regulatória, metas progressivas, qualidade da prestação, modelos de regulação, reajuste e matriz de riscos, encontra-se em grande parte consolidado. A Agenda 2025-2026, por sua vez, desloca a atuação normativa para temas operacionais e tarifários, como estrutura tarifária e tarifa social, controle de perdas de água, drenagem, resíduos sólidos, contabilidade regulatória e revisão tarifária. 

Esses avanços, contudo, convivem com um hiato relevante entre a norma e a prática. A leitura dos resultados da comprovação de 2025 sugere que parte relevante das entidades reguladoras infranacionais ainda encontra dificuldades para comprovar integralmente a adoção das normas de referência. Nesse sentido, a efetividade do Marco depende de uma etapa adicional, que é transformar a adesão formal às normas em capacidade regulatória aplicada aos contratos, aos investimentos, às tarifas e aos usuários. 

O hiato reflete assimetrias de capacidade técnica e institucional entre as entidades reguladoras. Enquanto parte das ERI demonstra maior capacidade de absorver as diretrizes da ANA, um contingente expressivo de entidades municipais e intermunicipais ainda enfrenta restrições de pessoal qualificado, autonomia orçamentária, estrutura administrativa e capacidade de fiscalização. Em alguns casos, a agência reguladora precisa acompanhar contratos complexos, com investimentos bilionários e metas de longo prazo, sem dispor de equipe compatível com a complexidade da tarefa.

 

BALANÇO SOBRE PROJETOS EM SANEAMENTO BÁSICO 

Um dos objetivos do Marco Legal do Saneamento foi o de atrair capital para o aumento dos investimentos, seja através de concessões plenas dos serviços de água e esgoto ou através de celebração de parcerias público-privadas com os prestadores regionais. Nos últimos seis anos, é possível perceber que ocorreram processos licitatórios significativos no saneamento, incluindo a licitação de blocos regionais para a prestação dos serviços. Com a participação do BNDES como agente estruturador das novas concessões, destacam-se, entre outros, os projetos de concessão e/ou PPPs dos serviços de saneamento nos estados do Amapá, Rio de Janeiro, Ceará, Alagoas, Pará e Sergipe. 

O Quadro 6 consolida os principais projetos mapeados entre 2020 e 2026, com os respectivos investimentos previstos ao longo do período de concessão, a população beneficiada e o número de municípios abrangidos. Os projetos já em curso preveem investimentos de mais de R$ 420 bilhões em investimentos estimados, impactando mais de 100 milhões de pessoas em 2.460 municípios. 

Quadro 6: Principais Projetos de Concessão, PPP e Desestatização no Saneamento Básico no Brasil (2020-2026)

Área de Concessão

UF

Modalidade

Objeto

CAPEX

(MM)

População Beneficiada1

Número de Municípios

Ano

Casal - Bloco A

AL

Concessão

Água e Esgoto

2.600,00

1.347.703

13

2020

Sanesul

MS

PPP

Esgoto

1.026,30

1.801.432

68

2020

Cariacica

ES

PPP

Esgoto

829,00

375.485

1

2020

Casal - Bloco B

AL

Concessão

Água e Esgoto

2.900,00

687.228

32

2021

Casal - Bloco C

AL

Concessão

Água e Esgoto

2.900,00

391.591

27

2021

Amapá

AP

Concessão

Água e Esgoto

3.000,00

802.837

16

2021

Cedae - Bloco 1

RJ

Concessão

Água e Esgoto

9.900,00

3.726.320

18

2021

Cedae - Bloco 2

RJ

Concessão

Água e Esgoto

9.900,00

1.741.942

3

2021

Cedae - Bloco 3

RJ

Concessão

Água e Esgoto

4.700,00

2.456.900

21

2021

Cedae - Bloco 4

RJ

Concessão

Água e Esgoto

9.900,00

4.962.255

9

2021

Xique-Xique

BA

Concessão

Água e Esgoto

54,90

46.979

1

2022

Crato

CE

PPP

Esgoto

248,00

138.232

1

2022

Santa Cruz das Palmeiras

SP

Concessão

Água e Esgoto

53,60

29.525

1

2022

Corsan - RS

RS

Privatização

Água e Esgoto

13.000,00

7.541.421

317

2023

Ceará

CE

PPP

Esgoto

6.411,00

4.586.541

24

2023

Pomerode

SC

Concessão

Água e Esgoto

200,00

36.392

1

2023

Olímpia

SP

Concessão

Água e Esgoto

81,10

56.701

1

2023

Sanepar

PR

PPP

Esgoto

1.114,00

707.425

16

2023

Governador Valadares

MG

Concessão

Água e Esgoto

1.308,90

266.649

1

2023

Teresópolis

RJ

Concessão

Água e Esgoto

700,50

176.692

1

2023

São Mateus do Maranhão

MA

Concessão

Água e Esgoto

n/d

40.160

1

2023

São Miguel do Guaporé

RO

Concessão

Água e Esgoto

47,30

22.267

1

2023

Nanuque

MG

Concessão

Água e Esgoto

106,90

35.554

1

2023

Acorizal

MT

Concessão

Água e Esgoto

9,10

4.990

1

2023

Miranorte

TO

Concessão

Água e Esgoto

33,50

13.056

1

2023

Igarapava

SP

Concessão

Água e Esgoto

57,50

26.755

1

2024

Flexeiras

AL

Concessão

Água e Esgoto

23,70

9.767

1

2024

Jaru

RO

Concessão

Água e Esgoto

143,70

55.583

1

2024

Ourinhos

SP

Concessão

Água e Esgoto

200,00

106.877

1

2024

Pirangi

SP

Concessão

Água e Esgoto

15,40

11.076

1

2024

Concórdia

SC

Concessão

Água e Esgoto

364,80

85.982

1

2024

Palhoça

SC

Concessão

Água e Esgoto

1.500,00

245.477

1

2024

Ilhota

SC

Concessão

Água e Esgoto

123,80

18.197

1

2024

Alpinópolis

MG

Concessão

Água e Esgoto

37,60

18.672

1

2024

Marília

SP

Concessão

Água e Esgoto

2.300,00

246.627

1

2024

Brodowski

SP

Concessão

Água e Esgoto

66,90

26.167

1

2024

Sabesp

SP

Privatização

Água e Esgoto

257.200,00

30.955.228

374

2024

Pará (Blocos A, B e D)

PA

Concessão

Água e Esgoto

15.207,20

6.477.406

99

2024

Sergipe

SE

Concessão

Água e Esgoto

6.313,30

2.258.361

74

2024

Piauí

PI

Concessão

Água e Esgoto

8.500,00

2.460.028

220

2024

Sanepar

PR

PPP

Água e Esgoto

2.100,00

1.077.142

112

2024

Cesan

ES

PPP

Água e Esgoto

1.479,60

1.459.059

43

2025

Pará (Bloco C)

PA

Concessão

Água e Esgoto

3.590,00

1.454.548

27

2025

São Miguel do Oeste

SC

Concessão

Água e Esgoto

168,80

47.724

1

2025

Brusque

SC

Concessão

Esgoto

686,50

155.307

1

2025

Compesa (Blocos 1 e 2)

PE

Concessão Parcial

Água e Esgoto

18.900,00

9.200.000

175

2025

Bauru

SP

Concessão

Esgoto

1.200,00

392.947

1

2025

Cagepa

PB

PPP

Esgoto

3.000,00

1.650.000

85

2026

Andradas

MG

Concessão

Água e Esgoto

209,30

42.501

1

2026

Copasa

MG

Privatização

Água e Esgoto

28.000,00

11.600.000

636

2026

Ceará (Bloco 1)

CE

PPP

Esgoto

1.080,00

276.000

23

2026

Total

R$ 423.492,20

102.353.708

2.460

 

                                     Fontes: BNDES (2026). Radar PPP (2026). Elaboração: GO Associados.


 


O Quadro 7 e o Quadro 8 apresentam a distribuição geográfica, respectivamente, do investimento previsto e da população potencialmente beneficiada pelos projetos já executados. 

Quadro 7: Investimentos Previstos em Projetos Contratados

Fonte: BNDES (2026); Radar PPP (2026). Elaboração: GO Associados.


Quadro 8: População Potencialmente Beneficiada em Projetos Contratados


Fonte: BNDES (2026); Radar PPP (2026). Elaboração: GO Associados


QUANTO AINDA FALTA DE INVESTIMENTO PARA A UNIVERSALIZAÇÃO?

 

Existem diferentes estimativas para as necessidades de investimento associadas à universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil. Para fins deste material, adotou-se a segunda revisão do Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), por se tratar da principal referência oficial para o planejamento setorial de longo prazo.

 

As estimativas indicam uma necessidade total de investimentos da ordem de R$ 525 bilhões, a valores de fins de junho de 2024. Como esse montante tem como referência o período de estimativa original do Plano, o ano de 2020, procedeu-se à dedução dos investimentos efetivamente realizados em 2021 e 2022, conforme reportado pelo SNIS, bem como em 2023 e 2024, segundo dados do SINISA. O valor residual estimado, de aproximadamente R$ 430 bilhões, foi então distribuído ao longo dos anos remanescentes até o prazo estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento Básico (2025-2033), resultando em um investimento médio anual necessário da ordem de R$ 48 bilhões, conforme detalhado no Quadro 9.

 

Quadro 9: Investimento Necessário à Universalização do Saneamento Básico

 

Valores Correntes

Valores de Junho de 2024

PLANSAB

R$ 511.058.701.248

R$ 524.805.158.194

SNIS 2021

R$ 13.639.101.904

(–) R$ 17.580.269.523

SNIS 2022

R$ 22.464.924.847

(–) R$ 20.704.229.446

SINISA 2023

R$ 25.591.522.868

(–) R$ 26.302.984.742

SINISA 2024

R$ 29.128.219.016

(–) R$ 29.128.219.016

Resíduo Total

NA

R$ 431.089.455.466

Resíduo Anual (÷ 9)

R$ 47.898.828.385

População Brasileira (2024)

212.583.750

Resíduo Anual por Habitante

R$ 225

Fonte: PLANSAB (2022); SNIS (2021-2022), SINISA (2023-2024). Elaboração: GO Associados.

 

PERSPECTIVAS: LEILÕES, PARCERIAS E CONCESSÕES NA ÁREA DE SANEAMENTO BÁSICO 

Em relação às perspectivas de leilões, parcerias e concessões, que visam justamente a ampliação da capacidade de investimento no setor e a utilização eficientes dos recursos públicos, entende-se que o BNDES seguirá como um ator importante. O Quadro 10 consolida os principais projetos atualmente mapeados em fase de estruturação na área de saneamento. Em conjunto, essas iniciativas somam investimento estimado de aproximadamente R$ 58,4 bilhões, abrangem uma população superior a 18 milhões de pessoas e devem alcançar 625 municípios. 

Quadro 10: Projetos em Fase de Estruturação na Área de Saneamento

Projeto

UF

Modalidade

Objeto

CAPEX
Estimado
(R$ MM)

População
da Região

Número de Municípios

Estimativa
p/ Licitação

Erechim

RS

Concessão

Água e Esgoto

637,5

109.500

1

3T/2026

Rondônia

RO

Concessão

Água e Esgoto

4.387

1.270.000

43

3T/2026

Rio Grande do Norte

RN

Concessão

Água e Esgoto

4.663

1.510.000

48

4T/2026

Universaliza SP

SP

A definir

Água e Esgoto

29.000

9.300.000

146

4T/2026

Goiás

GO

PPP

Esgoto

5.450

1.475.900

220

4T/2026

Porto Alegre

RS

Concessão

Água e Esgoto

2.100

1.500.000

1

2T/2027

Arapiraca Saneamento

AL

Concessão

Água e Esgoto

1.702

554.000

29

1T/2027

Espírito Santo

ES

Concessão

Água e Esgoto

4.500

1.100.000

32

1T/2028

Ceará (demais blocos)

CE

PPP

Esgoto

5.920

1.224.000

105

Indefinido (*)

Total

 

 

 

58.360

18.043.400

625

 


Fonte: BNDES, Radar PPP e GO Associados (2026). Elaboração: GO Associados.
(*) No dia 30/06/2026 a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) pretendia realizar o leilão dos cinco blocos de PPPs, mas apenas o primeiro bloco recebeu proposta e foi leiloado. Como resultado, a Cagece informou que estudará ajustes e voltará a licitar os demais blocos, mas ainda sem fixar prazo.

Um ponto relevante é a diversidade regional da carteira. Há projetos em estruturação no Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, o que sugere a continuidade da disseminação do modelo de concessões e PPPs para além dos primeiros casos emblemáticos do pós-Marco Legal. Ainda assim, a distribuição dos projetos não elimina assimetrias entre estados. Em várias unidades da federação, a estruturação permanece mais lenta, seja por dificuldades institucionais, por indefinições sobre regionalização, por limitações regulatórias ou por maior complexidade político-institucional. 

Para avaliar o desenvolvimento dos projetos regionais de saneamento básico, o Quadro 11 apresenta um mapa do Brasil no qual os estados são classificados conforme o estágio de desenvolvimento dessas iniciativas. Verifica-se que, até junho de 2026, predominavam estados com projetos concluídos ou em fase avançada de estruturação, refletindo os avanços observados desde a promulgação do Marco Legal do Saneamento Básico. Ainda assim, persistem unidades da federação em estágios iniciais de desenvolvimento, evidenciando que o processo de regionalização avança de forma heterogênea entre os estados brasileiros. 

Quadro 11: Classificação dos Estados Brasileiros de Acordo com o Desenvolvimento de Projetos Regionais de Saneamento Básico

Fonte: BNDES (2026); Radar PPP (2026). Elaboração: GO Associados. (*) Para alguns estados, há a possibilidade de mais de uma classificação. No caso de São Paulo, por exemplo, houve a privatização da Sabesp e atualmente o programa Universaliza SP está estruturando novos arranjos para atração do setor privado para áreas não atendidas pela Sabesp.


CONCLUSÃO 

Passados seis anos da promulgação do Marco Legal do Saneamento Básico, a análise indica que o novo arranjo setorial produziu mudanças relevantes na forma como o saneamento básico passou a ser organizado, regulado e financiado no Brasil, embora o desafio da universalização permaneça significativo. 

O Marco consolidou um novo modelo de organização do setor, baseado em metas nacionais de universalização, maior segurança jurídica dos contratos, regionalização da prestação dos serviços, fortalecimento da regulação e ampliação dos mecanismos de atração de investimentos. Esse conjunto de instrumentos representou uma mudança estrutural em relação ao modelo anterior, criando condições mais favoráveis para a expansão da infraestrutura de saneamento básico. 

Do ponto de vista regulatório, observou-se a consolidação gradual do papel da ANA como coordenadora da convergência regulatória nacional. A ampliação do número de normas de referência publicadas, a implementação da Lista Positiva e os avanços recentes da agenda regulatória demonstram que a construção de um ambiente regulatório mais homogêneo e previsível continua em evolução. Ao mesmo tempo, permanecem desafios relacionados à capacidade institucional das entidades reguladoras infranacionais e à incorporação efetiva dessas normas na regulação cotidiana dos contratos. 

Os indicadores de atendimento analisados também revelam uma trajetória de evolução desde a aprovação do Marco. Entre 2020 e 2024, observou-se crescimento da cobertura de abastecimento de água, coleta de esgoto e tratamento de esgoto em âmbito nacional, ainda que em ritmos distintos. Apesar desses avanços, os resultados evidenciam que as metas de universalização permanecem distantes em grande parte do território nacional, sobretudo no caso da coleta e do tratamento de esgoto. 

O levantamento dos projetos de concessão, PPPs e desestatizações reforça essa percepção. Desde 2020, observou-se uma expansão significativa do número de projetos estruturados, do volume de investimentos contratados e da população potencialmente beneficiada. Embora esses empreendimentos apresentem diferentes estágios de implementação, sua distribuição geográfica demonstra que o novo ambiente institucional tem favorecido a ampliação da participação de diferentes modelos de prestação dos serviços e contribuído para a viabilização de investimentos em escala crescente. 

Nesse contexto, os próximos anos tendem a ser decisivos para a consolidação dos resultados esperados pela legislação. O cumprimento das metas de universalização dependerá da continuidade dos investimentos e da execução dos projetos já contratados, além do fortalecimento de um ambiente institucional capaz de oferecer segurança jurídica, estabilidade regulatória e incentivos à eficiência na prestação dos serviços. O acompanhamento sistemático desses processos continuará sendo fundamental para avaliar a efetividade do Marco futuramente. 

“Seis anos após a aprovação do Marco Legal do Saneamento Básico, os resultados observados mostram que o saneamento básico avançou, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Os projetos já em curso somam mais de R$ 420 bilhões em investimentos, com potencial de beneficiar mais de 100 milhões de pessoas em 2.460 municípios, enquanto novos leilões, concessões e parcerias previstos podem adicionar outros R$ 58 bilhões ao setor. Ainda assim, o desafio da universalização permanece enorme. Desde a aprovação do Marco Legal o volume anual de investimento no país cresceu 51%, porém ainda distante do volume médio necessário previsto pelo PLANSAB, de R$ 225/ano/hab. Para que as metas sejam alcançadas até 2033, será necessário manter um ritmo médio de investimentos próximo de R$ 48 bilhões por ano – valor nunca alcançado nos últimos anos – além de garantir a execução dos projetos contratados e fortalecer continuamente o ambiente regulatório e institucional. Os próximos anos serão decisivos para transformar os avanços observados até aqui em resultados concretos para milhões de brasileiros que ainda não têm acesso adequado à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto” destaca Luana Pretto, Presidente-Executiva do Trata Brasil.  

"Um dos aspectos fundamentais para o avanço do saneamento básico será o amadurecimento regulatório do setor. Desde o Marco Legal do Saneamento, a atuação da ANA se fortaleceu, tendo como destaque o ano de 2024, quando foram publicadas nove novas normas de referência. Esse ritmo ganhou ainda mais tração na Agenda 2025-2026, com a publicação de resoluções voltadas para temas operacionais, além da adoção da Lista Positiva, que avalia a comprovação da adoção das normas de referência pelas ERI. Ainda assim, grandes desafios permanecem: os resultados da primeira Lista Positiva expõem que das 82 agências infranacionais cadastradas na ANA, apenas 29 comprovaram aderência integral às normas federais, cobrindo 2.809 municípios. Fortalecer essa governança local é o que garantirá a segurança jurídica para viabilizar o ritmo de R$ 48 bilhões em investimentos anuais necessários para atingirmos a universalização até 2033. Esse aporte possui potencial para gerar aproximadamente R$ 60 bilhões anuais adicionais de PIB, além de gerar e sustentar mais de 1,1 milhão de empregos diretos, indiretos e induzidos. Dessa forma, alinhar o fortalecimento regulatório à expansão dos investimentos é a chave para a transformação desse cenário nos próximos anos." - Gesner Oliveira, Professor da EAESP-FGV e Sócio-Executivo da GO Associados.


Instituto Trata Brasil - ITB
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