No primeiro lote de redações que corrigi neste ano, uma aluna de
uma cidade pequena do interior escreveu sobre soberania alimentar citando a
guerra na Ucrânia, o bloqueio dos portos do Mar Negro, a alta do trigo em 2022
e os efeitos no preço do pão no Brasil. Tirou nota acima de 950. No mesmo lote,
um aluno de uma escola pública escreveu sobre fome sem mencionar nenhum
conflito internacional, sem nenhum dado, sem nenhuma referência ao mundo dos
últimos cinco anos. Ficou na faixa dos 700. As exceções existem e elas
confirmam a regra que ninguém quer enunciar em voz alta: o Enem deixou de ser
prova de conteúdo. Virou prova de repertório de mundo. E repertório, diferente
de conteúdo, não está distribuído de forma igualitária.
A última década de provas explicita essa virada. Em ciências humanas, atualidades como Oriente Médio, transição energética e crise migratória apareceram em todas as edições recentes. Os temas de redação migraram de questões sociais amplas para recortes cada vez mais específicos e conjunturais — invisibilidade do trabalho de cuidado, herança africana, valorização de povos tradicionais — que recompensam quem acompanha o debate público com regularidade. Mesmo o Enem 2025, criticado por reduzir a presença direta da geopolítica e ignorar a COP-30 que acontecia em Belém durante a aplicação da prova, manteve o exame organizado em torno de leitura de mundo: do clima à democracia, das migrações ao espaço urbano. Em 2026, com a escalada Israel-Irã, o terceiro ano da guerra na Ucrânia e a recomposição da política externa americana redesenhando alianças, é improvável que a tendência mude.
O problema é o que essa virada exige do estudante antes da prova
começar. Acompanhar o mundo de forma que ele vire repertório utilizável em
redação não é assistir ao noticiário. É ter mediação adulta que explique
contexto. É ter tempo livre para ler uma análise longa. É ter acesso a fontes
confiáveis e a alguém que diga qual fonte é confiável. É ter conversado sobre
Israel e Palestina, sobre eleição americana — no jantar, antes do tema cair na
prova. Tudo isso é capital cultural — e capital cultural, sociólogos sabem há
cinquenta anos, se herda. O aluno cuja família lê jornal chega na sala de aula
com um repertório que a escola, sozinha, não constrói em três anos de ensino
médio.
Os números do último ENEM (2024) deixam claro que essa
desigualdade não é pontual, é estrutural. Uma análise inédita feita pela
Descomplica a partir dos microdados do Inep, considerando 1,19 milhão de
concluintes com escola identificada, mostra que a rede privada supera a pública
em 85,5 pontos na média das provas objetivas — vantagem de 17,5%.
O abismo cresce justamente onde o repertório pesa mais: são 175
pontos a mais em Redação (+29,4%) e 120 em Matemática (+24,3%). Em Linguagens e
Códigos, área que ainda se sustenta no que se aprende dentro da sala, o gap cai
para 59 pontos (+11,6%). No topo, a desigualdade explode: 86,5% do 1% melhor
colocado do país vem da rede privada — que responde por apenas 20,5% do
universo de candidatos.
As escolas federais aparecem acima das estaduais em todas as
áreas, mas seguem abaixo da privada. A geografia do gap também tem um padrão
claro: Tocantins, Piauí, Ceará e Amazonas registram diferenças acima de 97
pontos entre as redes; Rondônia, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio Grande do
Norte ficam abaixo de 70. Não é uma diferença de inteligência. É uma diferença
de quanto mundo entrou na casa do estudante antes dele sentar para fazer a
prova.
Essa é uma conta que ainda aparece pouco de forma explícita na
política educacional, mas que cursinhos, escolas, professores e plataformas de
ensino precisam encarar de frente. Se o exame mais democrático do país — porque
é o passaporte para a universidade pública — passou a medir justamente o que
mais correlaciona com origem social, então a função de quem ensina mudou: não
basta mais cobrir o conteúdo curricular, é preciso entregar o mundo.
Quem corrige redação em escala vê esse padrão se repetir todos os
dias. Os alunos que pontuam alto não são, na média, os que sabem mais matérias,
e sim os que sabem mais do mundo. E, nas regiões e classes onde o mundo não
chega via família, ele precisa chegar via ensino. Essa é a única forma de
impedir que o Enem, criado para abrir portas, acabe funcionando como um filtro
silencioso de origem.
A distância existe, está aumentando e é, sim, transponível. Mas só
se pararmos de fingir que o Enem está medindo apenas conteúdo escolar e
começarmos a ensinar leitura de mundo como o que ela é hoje no exame: matéria
obrigatória.
Rafael Cunha -professor de redação da Descomplica e um dos nomes mais reconhecidos da educação digital no Brasil, com mais de 25 anos de experiência em ensino e tecnologia educacional. Formado em Direito pela UERJ, também atuou como Chief Learning Officer da edtech e liderou iniciativas de inovação em educação pública e privada. Em 2021, ganhou destaque nacional ao se tornar o primeiro participante a chegar à pergunta final do quadro “Quem Quer Ser um Milionário”, no Domingão com Huck.
Cláudio Hansen - professor e gerente pedagógico da Descomplica, com atuação voltada ao desenvolvimento de metodologias de ensino e estratégias de aprendizagem para vestibulares e Enem. Com experiência em educação e gestão acadêmica, trabalha diretamente na construção de conteúdos e no acompanhamento pedagógico de alunos em todo o Brasil. Ao longo da trajetória na edtech, consolidou-se como uma das vozes da Descomplica em temas ligados à educação, preparação para provas e comportamento dos estudantes.



