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sábado, 24 de outubro de 2026

Cibernarcisismo: o preço de transformar a vida em vitrine

A necessidade de transformar momentos pessoais em conteúdo pode comprometer a espontaneidade das experiências e reforçar a dependência da aprovação alheia

 

Vivemos em uma época em que compartilhar a vida se tornou quase tão importante quanto vivê-la. Fotografamos refeições, registramos viagens, publicamos conquistas e acompanhamos a rotina de pessoas que, muitas vezes, sequer conhecemos pessoalmente. Nesse movimento constante de exposição, uma pergunta me parece fundamental: estamos construindo relações mais verdadeiras ou aprendendo a representar versões de nós mesmos para sermos aceitos?

É dessa reflexão que parto ao abordar o cibernarcisismo, fenômeno relacionado à busca por reconhecimento e validação no ambiente digital. Não se trata de classificar quem publica fotos ou compartilha momentos como narcisista, mas de observar o que acontece quando a percepção que temos de nós mesmos passa a depender excessivamente da reação dos outros.

As redes sociais oferecem oportunidades de expressão, troca e pertencimento. O problema começa quando curtidas, comentários e seguidores deixam de ser interações pontuais e se transformam em medidas do nosso valor. Nesse cenário, a aprovação externa ganha espaço nas decisões, nos comportamentos e até na maneira como interpretamos nossas experiências.

Percebo um paradoxo nessa dinâmica. Ao mesmo tempo que somos incentivados a demonstrar autenticidade, aprendemos a selecionar cuidadosamente aquilo que mostramos. Escolhemos os melhores ângulos, editamos imagens, organizamos narrativas e, muitas vezes, escondemos as partes da vida que não correspondem à expectativa de sucesso. Aos poucos, corremos o risco de confundir nossa identidade com a imagem que construímos para o público.

Essa lógica não se limita à aparência física. Ela alcança o trabalho, os relacionamentos, o lazer e até a saúde emocional. Precisamos parecer produtivos, felizes, realizados e disponíveis. O descanso vira conteúdo, o autocuidado se transforma em desempenho e as conquistas parecem incompletas quando não são compartilhadas.

Existe uma diferença importante entre sentir satisfação e precisar provar que estamos satisfeitos. Quando tudo precisa ser exibido, a experiência perde parte de sua espontaneidade. Em vez de estarmos inteiramente presentes em um encontro, por exemplo, podemos nos preocupar com a fotografia que faremos dele ou com a reação que ela provocará. A atenção se desloca do momento vivido para a imagem que ficará registrada.

Essa busca contínua por reconhecimento também pode alimentar comparações. Nas redes, geralmente vemos recortes cuidadosamente selecionados da vida alheia, mas tendemos a compará-los com nossa realidade inteira, incluindo dúvidas, dificuldades e inseguranças. Essa comparação é desigual e pode produzir a sensação de que estamos sempre atrasados, aquém das expectativas ou perdendo alguma coisa.

Em Ser é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito, publicado pela Editora Labrador, proponho uma reflexão sobre a relação entre identidade, atenção e hábitos. Acredito que recuperar a presença exige reconhecer quando nossas escolhas deixam de refletir nossos desejos e passam a responder principalmente à expectativa de aprovação.

Não defendo o abandono das redes sociais. A tecnologia faz parte da vida contemporânea e pode aproximar pessoas, ampliar conhecimentos e abrir caminhos profissionais. O desafio está em utilizá-la sem permitir que ela determine nossa percepção de valor.

Podemos começar com atitudes simples: fazer uma refeição sem consultar o celular, caminhar sem transformar o percurso em publicação, reservar momentos de intimidade e observar o que sentimos quando uma experiência não recebe reconhecimento público. Também vale perguntar a nós mesmos: eu faria isso se ninguém pudesse ver? Essa escolha tem significado para mim ou estou tentando corresponder a uma expectativa?

Essas pausas não resolvem, isoladamente, todas as pressões da vida digital, mas podem abrir espaço para escolhas mais conscientes. O silêncio, nesse sentido, não representa ausência de conexão. Pode ser uma oportunidade de escutar necessidades que ficam abafadas pelo excesso de estímulos.



Para mim, a questão central não é quantas pessoas acompanham nossa vida, mas quanto conseguimos habitá-la de verdade. Quando precisamos de uma plateia para confirmar nossa existência, corremos o risco de nos afastar justamente da pessoa que deveríamos conhecer melhor: nós mesmos.

Descer da vitrine é compreender que nem tudo precisa ser mostrado para ter valor. Há experiências que ganham profundidade quando permanecem privadas, conquistas que não precisam de aplausos e momentos de felicidade que não dependem de testemunhas. Recuperar essa liberdade é um exercício de presença e uma forma de construir uma relação mais honesta com quem somos, dentro e fora das telas.



Lygia Flaiano Nyikos - advogada, pesquisadora, professora, escritora e pós-graduanda em Neurociência, Neuromarketing e Narrativas de Impacto pela PUC-PR. É autora de “Ser é a nova revolução – Da performance à presença: um guia para quem quer trabalhar, viver e se conectar com propósito”.

 

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