Especialista alerta para impactos que vão da falta de libido à dificuldade de prevenir ISTs
Para muitas mulheres, falar sobre sexo
ainda provoca desconforto. Não porque falte informação, mas porque o tema
continua cercado por crenças construídas ao longo de gerações. A ideia de que
prazer e pecado caminham juntos ainda aparece em consultórios, igrejas e dentro
de casa, influenciando relacionamentos e até a forma como as pessoas cuidam da
própria saúde.
No Brasil, onde mais de 80% da
população se declara cristã (católicos e evangélicos), segundo o Censo 2022 do
IBGE, valores religiosos seguem exercendo forte influência sobre a sexualidade.
Para a Dra. Íris Bazílio, doutora em Enfermagem, sexóloga e pesquisadora em
neurociência, essa herança cultural vai muito além de escolhas individuais e
pode provocar consequências emocionais, físicas e até sociais.
Quando o prazer é associado ao pecado
A ideia de que sexo existe apenas para
gerar filhos não surgiu do nada. Ela foi sendo construída ao longo dos séculos
e acabou influenciando a forma como diferentes gerações passaram a enxergar o
prazer. Em muitas tradições religiosas, aquilo que fugia da reprodução passou a
ser visto com desconfiança, culpa ou até pecado.
Segundo a especialista, essa
mentalidade ainda aparece nos atendimentos clínicos. "Muitas mulheres
chegam ao consultório carregando a ideia de que sentir prazer é algo errado.
Elas foram ensinadas a servir, mas não a sentir. Com o tempo, essa crença pode
se manifestar como falta de libido, dificuldade de atingir o orgasmo e até dor
durante as relações", explica.
A Dra. Íris observa que esses bloqueios
costumam ter origem em uma combinação de fatores, como educação rígida, traumas
familiares, experiências de abuso e forte repressão religiosa.
Silêncio que também afeta a saúde pública
Mas as consequências não ficam
restritas ao quarto. A culpa religiosa pode dificultar o uso de contraceptivos,
a prevenção de ISTs e até impedir que situações de violência doméstica e abuso
sexual sejam reconhecidas e denunciadas.
Para a Dra. Íris, romper esse silêncio
é uma questão de cuidado: "Quando a sexualidade é tratada apenas como
pecado ou obrigação, as pessoas deixam de conhecer o próprio corpo, deixam de
fazer perguntas e passam a viver relações marcadas pelo medo e pela
culpa."
O peso histórico sobre as mulheres
Ao longo da história, as regras ligadas
à sexualidade recaíram de forma muito mais rígida sobre as mulheres. Durante
séculos, o prazer feminino foi ignorado ou tratado como algo secundário,
enquanto a função reprodutiva era colocada em primeiro plano.
Na prática clínica, a Dra. Íris relata
que ainda encontra reflexos dessa herança. Muitas pacientes contam nunca terem
falado sobre seus desejos ou sequer conhecido plenamente o próprio corpo.
"Existe um verdadeiro sepultamento da sexualidade feminina em muitas
histórias de vida. São mulheres que passaram décadas priorizando o prazer do
outro sem nunca se sentirem autorizadas a viver o próprio prazer."
Os reflexos dessa construção histórica
também aparecem nos números. Mais de 30% das mulheres enfrentam dificuldade ou
incapacidade de atingir o orgasmo, e parte importante desse cenário está
relacionada a fatores psicológicos, vergonha do corpo e medo do
julgamento.
Prazer também é saúde
Na contramão dos discursos que tratam a
sexualidade apenas como dever ou reprodução, a especialista defende uma
abordagem baseada em evidências científicas. De acordo com a Dra. Íris, o
prazer está relacionado à liberação de hormônios ligados ao bem-estar, à redução
do estresse e à melhora da qualidade de vida.
Conhecida na internet pela frase
"quem está com o orgasmo em dia não quer guerra com ninguém", a Dra.
Íris afirma que a sexualidade saudável faz parte do equilíbrio físico e
emocional. Para isso, porém, é necessário revisitar crenças que foram
construídas ao longo de gerações.
"A comunicação é o primeiro passo.
O sexo bom começa na garganta, nos olhos e na capacidade de falar o que sente.
Enquanto houver medo de conversar sobre desejo, prazer e afeto, os tabus continuarão
ocupando espaço onde deveria existir informação", conclui.

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