Jogos ativam circuitos cerebrais ligados ao
pertencimento, recompensa, memória e identidade social
Toda
Copa do Mundo é o mesmo comportamento: Pessoas que mal acompanham campeonatos
passam a assistir aos jogos, escritórios param, famílias e amigos se reúnem, as
ruas ganham bandeiras, camisas e discussões apaixonadas sobre escalações e
resultados. Mas o que explica tamanho envolvimento emocional que comove e
paralisa países?
Segundo
o médico Dr. Fernando Gomes, neurocirurgião, neurocientista e professor
livre-docente da USP, a resposta está menos no futebol e mais na forma como o
cérebro humano foi construído ao longo da evolução.
"O
cérebro foi programado para viver em grupo. Durante uma Copa do Mundo, ele
encontra um dos maiores gatilhos de pertencimento coletivo da vida
moderna", explica.
De
acordo com o médico, quando o torcedor veste a camisa da seleção, canta o hino
ou acompanha uma partida decisiva, áreas cerebrais relacionadas à identidade
social são ativadas. O cérebro passa a interpretar a equipe nacional como uma
extensão do próprio grupo.
O gol provoca uma explosão química no cérebro
Outro
protagonista dessa história é a dopamina, neurotransmissor ligado à motivação,
expectativa e recompensa. Ao contrário do que muitos imaginam, ela não é
liberada apenas quando o gol ou a vitória acontece.
A
expectativa pela convocação, os debates sobre os jogadores, a análise dos
adversários e a contagem regressiva para a estreia já começam a estimular os
circuitos cerebrais da recompensa semanas antes do torneio.
Quando
o gol finalmente acontece, especialmente em partidas decisivas, ocorre uma
verdadeira tempestade neuroquímica.
"O
coração acelera, a respiração muda, a atenção fica completamente focada e o
cérebro libera substâncias associadas à sensação de prazer e alívio",
explica Dr. Fernando Gomes.
Por que perder um jogo da Copa pode ser tão doloroso?
Para
Dr. Fernando, quando a seleção perde, o cérebro registra uma quebra de
expectativa em algo que possuía significado emocional relevante. "Em
determinadas circunstâncias, a resposta cerebral pode se parecer com aquela
observada diante de outras frustrações importantes da vida cotidiana",
afirma.
O fenômeno da sincronização social durante a Copa do Mundo
Durante
a Copa, milhões de pessoas assistem aos mesmos acontecimentos, compartilham
emoções semelhantes e reagem simultaneamente aos mesmos estímulos.
Em
um mundo marcado pelo excesso de telas, polarização e isolamento social, esses
momentos de experiência coletiva se tornaram cada vez mais raros.
Talvez
por isso sejam tão impactantes.
A memória afetiva das Copas
Outra
curiosidade fascinante está relacionada à memória. Muitas pessoas não lembram o
que almoçaram na semana passada, mas conseguem dizer exatamente onde estavam
durante o pentacampeonato de 2002, no tetra de 1994 ou em jogos marcantes de
outras Copas do Mundo.
A
explicação é simples: emoções intensas fortalecem a consolidação das memórias
no cérebro. Quanto maior a carga emocional de uma experiência, maior a
probabilidade de ela permanecer viva por muitos anos.
Por
isso, quando pensamos em Copas do Mundo, raramente lembramos apenas dos
resultados. Lembramos da família reunida em frente à televisão, dos amigos, dos
churrascos, das bandeiras nas janelas, das ruas decoradas de verde e amarelo e
dos momentos compartilhados.
E
a memória afetiva não guarda apenas alegrias. Ela também registra as grandes
dores coletivas. Poucos brasileiros esquecem onde estavam no dia da derrota por
7 a 1 para a Alemanha, na Copa de 2014. Aquele resultado inesperado gerou uma
forte emoção nacional e ficou gravado na memória de milhões de pessoas,
tornando-se um daqueles momentos que marcam uma geração inteira.
No
fundo, as Copas do Mundo são muito mais do que futebol. Elas se transformam em
capítulos da nossa história pessoal e coletiva, conectando emoções, lembranças
e sentimentos que permanecem vivos muito tempo depois do apito final.
Dr. Fernando Gomes - Professor Livre Docente de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas de SP com mais de 2 milhões de seguidores. É autor de 10 livros de neurocirurgia e comportamento humano. Professor Livre Docente de Neurocirurgia, com residência médica em Neurologia e Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é neurocirurgião em hospitais renomados e também coordena a Unidade de Hidrodinâmica Cerebral relacionada ao diagnóstico, tratamento e pesquisa de doenças como Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN) e Hipertensão Intracraniana Idiopática (HII ou pseudotumor cerebral) no Hospital das Clínicas.
drfernandoneuro
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