Revisão internacional revela impactos profundos na
saúde mental, nas relações sociais e no acesso ao cuidado
A discriminação contra pessoas com sobrepeso e obesidade é praticamente
universal na América Latina e no Caribe e produz impactos profundos que vão
muito além da aparência. É o que revela uma pesquisa publicada na The Lancet
Regional Health – Americas, liderada pela Profa. Dra. Fernanda Baeza
Scagliusi, do Centro de Medicina do Estilo de Vida (CMEV) da Faculdade de
Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Grupo de Pesquisa em
Alimentação, Corporalidades e Cultura (GPAC) da Faculdade de Saúde Pública da
USP (FSP-USP).
A análise mostra que “sobrepeso” e “obesidade” são classificações clínicas, utilizadas para fins de saúde, e não devem ser interpretadas como atributos morais ou comportamentais. Ainda assim, pessoas enquadradas nessas categorias são frequentemente alvo de julgamentos e discriminação.
O estudo analisou 46 pesquisas conduzidas em países da região e identificou que 97,8% delas registram experiências de preconceito relacionadas ao peso. Os resultados indicam associação com sofrimento emocional, isolamento, dificuldades nas relações interpessoais e barreiras no acesso aos serviços de saúde.
“Os dados mostram que essa forma de discriminação não é um fenômeno isolado —
ela é estruturante na experiência de vida dessas pessoas. Trata-se de um
processo contínuo de desvalorização social, que afeta a identidade, a
autoestima e as oportunidades ao longo da vida”, afirma a Profa. Dra. Fernanda
Scagliusi.
Bullying e exclusão marcam experiências desde a infância
Entre as manifestações mais recorrentes, o bullying aparece em mais de dois
terços dos casos analisados. Apelidos, piadas, insultos e humilhações públicas
são frequentes, especialmente entre crianças e adolescentes.
Os dados também mostram que o preconceito está diretamente associado a intenso sofrimento psíquico, incluindo vergonha, ansiedade, tristeza e baixa autoestima. Muitos indivíduos relatam evitar situações sociais e se afastar de atividades cotidianas por medo de julgamento.
“Esse processo cria um ciclo de sofrimento. A pessoa é discriminada, passa a
evitar interações sociais, internaliza essas mensagens negativas e, muitas
vezes, deixa de buscar ajuda por receio de novas experiências de julgamento”,
explica a pesquisadora da FMUSP.
Discriminação chega aos serviços de saúde
Um dos achados mais preocupantes é a presença desse tipo de preconceito dentro dos próprios serviços de saúde. Pacientes relatam desrespeito, julgamentos morais e atendimento inadequado por parte de profissionais.
“Quando esse viés se manifesta no sistema de saúde, ele se torna uma barreira
concreta ao cuidado. Muitas pessoas deixam de procurar atendimento ou têm suas
queixas reduzidas ao peso corporal, o que compromete diagnósticos e
tratamentos”, afirma a professora.
Estereótipos reforçam preconceito e culpabilização
A revisão mostra que a discriminação está fortemente associada a estereótipos morais, que classificam pessoas com sobrepeso como preguiçosas, desleixadas ou sem força de vontade. Essa visão simplificada desconsidera fatores sociais, econômicos, culturais e biológicos que influenciam o peso corporal e contribui para a responsabilização individual.
“Há uma moralização do corpo. O peso passa a ser interpretado como sinal de
caráter ou disciplina. Isso desloca o debate de uma questão complexa de saúde
para uma lógica de culpa individual, que é equivocada e prejudicial”, destaca a
Profa. Dra. Fernanda Baeza Scagliusi.
Mulheres são mais afetadas
O estudo também aponta que esse tipo de estigmatização é mais frequente e intenso entre mulheres, refletindo padrões estéticos mais rígidos e maior pressão social sobre o corpo feminino.
Segundo a pesquisadora, as mulheres estão mais expostas a cobranças estéticas
constantes, o que torna esse tipo de preconceito mais profundo e internalizado
nesse grupo.
Relações sociais intensificam o fenômeno na região
Embora seja um fenômeno global, a pesquisa mostra que, na América Latina e no Caribe, ele está fortemente ligado às relações sociais e familiares. Comentários de parentes, normas culturais e expectativas sobre aparência têm papel central na forma como a discriminação é vivenciada.
Um dos achados que mais se destacam na região é o papel das relações familiares
na reprodução desse tipo de discriminação. A docente explica que, na nossa
região, esse processo é profundamente relacional. Ele aparece nas interações
cotidianas, muitas vezes de forma naturalizada, o que torna essa experiência
mais persistente e difícil de enfrentar. Comentários sobre o corpo, cobranças
por perda de peso e críticas dentro do ambiente familiar, muitas vezes vistos
como normais, têm um impacto profundo e contínuo na saúde emocional dessas pessoas.
Estigma deve ser tratado como problema de saúde pública
O estudo recomenda o desenvolvimento de políticas e intervenções baseadas em justiça social, abordagem interseccional e adaptação aos contextos culturais locais.
“Combater esse problema é essencial para melhorar a saúde da população. Isso implica rever práticas, formar profissionais e garantir que o cuidado seja baseado em respeito e dignidade. Não se trata apenas de uma questão ética, mas de uma estratégia fundamental para reduzir desigualdades e melhorar os resultados em saúde”, conclui a Profa. Dra. Fernanda Scagliusi.
O artigo completo está disponível na The Lancet Regional Health – Americas
(clique
aqui)*
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