sábado, 13 de junho de 2026

Sexo, religião e culpa ainda afetam a vida sexual de milhões de brasileiros

Especialista alerta para impactos que vão da falta de libido à dificuldade de prevenir ISTs 

 

Para muitas mulheres, falar sobre sexo ainda provoca desconforto. Não porque falte informação, mas porque o tema continua cercado por crenças construídas ao longo de gerações. A ideia de que prazer e pecado caminham juntos ainda aparece em consultórios, igrejas e dentro de casa, influenciando relacionamentos e até a forma como as pessoas cuidam da própria saúde.

No Brasil, onde mais de 80% da população se declara cristã (católicos e evangélicos), segundo o Censo 2022 do IBGE, valores religiosos seguem exercendo forte influência sobre a sexualidade. Para a Dra. Íris Bazílio, doutora em Enfermagem, sexóloga e pesquisadora em neurociência, essa herança cultural vai muito além de escolhas individuais e pode provocar consequências emocionais, físicas e até sociais. 


Quando o prazer é associado ao pecado

A ideia de que sexo existe apenas para gerar filhos não surgiu do nada. Ela foi sendo construída ao longo dos séculos e acabou influenciando a forma como diferentes gerações passaram a enxergar o prazer. Em muitas tradições religiosas, aquilo que fugia da reprodução passou a ser visto com desconfiança, culpa ou até pecado. 

Segundo a especialista, essa mentalidade ainda aparece nos atendimentos clínicos. "Muitas mulheres chegam ao consultório carregando a ideia de que sentir prazer é algo errado. Elas foram ensinadas a servir, mas não a sentir. Com o tempo, essa crença pode se manifestar como falta de libido, dificuldade de atingir o orgasmo e até dor durante as relações", explica.

A Dra. Íris observa que esses bloqueios costumam ter origem em uma combinação de fatores, como educação rígida, traumas familiares, experiências de abuso e forte repressão religiosa.


Silêncio que também afeta a saúde pública

Mas as consequências não ficam restritas ao quarto. A culpa religiosa pode dificultar o uso de contraceptivos, a prevenção de ISTs e até impedir que situações de violência doméstica e abuso sexual sejam reconhecidas e denunciadas. 

Para a Dra. Íris, romper esse silêncio é uma questão de cuidado: "Quando a sexualidade é tratada apenas como pecado ou obrigação, as pessoas deixam de conhecer o próprio corpo, deixam de fazer perguntas e passam a viver relações marcadas pelo medo e pela culpa."


O peso histórico sobre as mulheres

Ao longo da história, as regras ligadas à sexualidade recaíram de forma muito mais rígida sobre as mulheres. Durante séculos, o prazer feminino foi ignorado ou tratado como algo secundário, enquanto a função reprodutiva era colocada em primeiro plano.

Na prática clínica, a Dra. Íris relata que ainda encontra reflexos dessa herança. Muitas pacientes contam nunca terem falado sobre seus desejos ou sequer conhecido plenamente o próprio corpo. "Existe um verdadeiro sepultamento da sexualidade feminina em muitas histórias de vida. São mulheres que passaram décadas priorizando o prazer do outro sem nunca se sentirem autorizadas a viver o próprio prazer."

Os reflexos dessa construção histórica também aparecem nos números. Mais de 30% das mulheres enfrentam dificuldade ou incapacidade de atingir o orgasmo, e parte importante desse cenário está relacionada a fatores psicológicos, vergonha do corpo e medo do julgamento.  


Prazer também é saúde

Na contramão dos discursos que tratam a sexualidade apenas como dever ou reprodução, a especialista defende uma abordagem baseada em evidências científicas. De acordo com a Dra. Íris, o prazer está relacionado à liberação de hormônios ligados ao bem-estar, à redução do estresse e à melhora da qualidade de vida.

Conhecida na internet pela frase "quem está com o orgasmo em dia não quer guerra com ninguém", a Dra. Íris afirma que a sexualidade saudável faz parte do equilíbrio físico e emocional. Para isso, porém, é necessário revisitar crenças que foram construídas ao longo de gerações.

"A comunicação é o primeiro passo. O sexo bom começa na garganta, nos olhos e na capacidade de falar o que sente. Enquanto houver medo de conversar sobre desejo, prazer e afeto, os tabus continuarão ocupando espaço onde deveria existir informação", conclui.


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