Com curadoria de Brunno Almeida Maia e direção de arte e expografia de Leandro Leão, a mostra reúne videoartes e séries fotográficas, além de ativações e o lançamento de um livro da artista multimídia curitibana
Nascida em Curitiba e radicada em Florianópolis, a artista multimídia Ruchita inaugura, no dia 11 de julho de 2026, sábado, das 10h às 14h, no Museu da Imagem e do Som, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo,a exposição Território de passagem – sua primeira individual na capital paulista. Com visitação gratuita até 24 de agosto, a mostra, que inclui o lançamento do livro Todo momento de achar é um perder-se a si própria e uma série de ativações, foi concebida especialmente para o MIS e apresenta oito obras produzidas entre 2017 e 2025. São videoartes e séries fotográficas que investigam as relações entre corpo, tempo e memória.
Com curadoria de Brunno Almeida Maia e direção de arte e expografia de Leandro Leão, a individual reafirma a proposta de levar ao público a linguagem da videoarte, articulando elementos performáticos, audiovisuais e fotográficos em uma proposta imersiva e não linear. A exposição inédita estabelece, ainda, um diálogo direto com o acervo de videoarte do MIS, referência nacional e na América Latina, com mais de 5 mil títulos produzidos e catalogados desde os anos 1970. Ao inserir a produção de Ruchita nesse contexto histórico, Território de passagem aproxima a pesquisa e a produção da artista a uma tradição experimental marcada por nomes como Walter Zanini, Letícia Parente, Hélio Oiticica, Lygia Pape e Arthur Omar.
Partindo de experiências pessoais traduzidas em
performances para a câmera, Ruchita coloca seu próprio corpo como campo de
experimentação artística e desenvolve trabalhos em fotografia, instalação
e vídeo que evidenciam a transitoriedade entre retrato e autorretrato. Em Território
de passagem, suas investigações são atravessadas por questões
existenciais, psicológicas e simbólicas, articulando aspectos íntimos e
coletivos da experiência humana.
Estruturada a partir de dois eixos curatoriais – O Corpo
Inacabado e O Corpo é Tempo –, a exposição reúne
obras que abordam temas como vulnerabilidade, transcendência, repetição,
impermanência e dissolução. No primeiro eixo, a série Não sou
finito (2018) documenta a ação performática de uma videoinstalação
em duas telas que flagra o corpo da artista amarrado a uma árvore –
representando amarras sociais e mentais – e a tentativa de alcançar o infinito
puxando uma corda suspensa, gesto repetitivo que aproxima o corpo do intangível.
Já a série inédita Alternar-se (2025/2026) mergulha na
experiência de convívio diário da artista com o diabetes. Utilizando mel e
sangue como metáforas, Ruchita compõe um ensaio visual e sonoro que explora os
altos e baixos de seu cotidiano. Em Limiares, a artista escreve com sangue
sobre espelho um gráfico de oscilações de taxas de glicemia; em Compasso,
um lenço vermelho traduz essa inconstância; em Abismo, o reflexo
em uma poça de mel evoca uma dor corporalizada; em Um corpo que me rodeia,
o mel escorre pelo corpo de Ruchita, evidenciando movimentos que escapam de
nosso controle e nos atravessam.
“Alternar-se nasce de algo que atravessa
meu corpo, minhas emoções e minha rotina. Senti que era importante falar sobre
esse tema porque os números seguem crescendo. Hoje, mais de 16 milhões de
pessoas convivem com diabetes no Brasil e quase 600 milhões de pessoas no
mundo. Então, essa obra funciona também como um convite para a observação do
corpo e do cuidado cotidiano”, propõe Ruchita.
As 23 fotografias de Des-continuum – registros de sangue e
mel sobre papel, expostas sem moldura – rompem limites físicos e simbólicos. A
obra Um estado claro de ambiguidade (2017-2018) completa o
primeiro eixo da exposição. Nela, 12 pessoas têm a visão obliterada por um
espelho que reflete os olhos da artista. Ao lado da tela de exibição do vídeo,
um autoretrato impresso de Ruchita é fixado diretamente sobre a parede,
contendo o mesmo pedaço de espelho colado que sobrepõe seu olhar. Assim,
os olhos do espectador estarão refletidos no lugar dos olhos da artista – uma
reflexão sobre retrato, autorretrato, alteridade e um convite a se conectar à
experiência do outro.
No segundo eixo, O Corpo é Tempo, a série Face à
impermanência investiga duração e efemeridade em diálogo com a
cultura japonesa do Wabi-Sabi (que defende que nada é acabado, permanente ou
perfeito). O tríptico é composto de duas obras audiovisuais e uma instalação
fotográfica. Em Esse movimento perpétuo (2018), uma videoinstalação
registrada na praia de Naoshima e projetada sobre areia real depositada no chão
exibe a imagem da artista, que surge e desaparece em sintonia com algas que se
decompõem, simbolizando a fusão do indivíduo na natureza e o ciclo eterno de
decomposição e reintegração. Já em Estar sem estar (2018), Ruchita
permanece imóvel por horas no cruzamento de Shibuya, em Tóquio, enquanto a
multidão passa em ritmo frenético – projetado em loop, o vídeo, de 8’09” e
dimensões variáveis, foi filmado em câmera lenta para acentuar o paradoxo entre
contemplação zen e velocidade urbana, um choque que também ecoa no cotidiano da
metrópole paulistana.
Trajetos livres de visitação
A expografia de Território de passagem foi concebida
para evitar percursos lineares e estimular diferentes possibilidades de circulação
do público. A partir de um prisma central e de planos inclinados que redesenham
a espacialidade da Sala Maureen Bisilliat, o projeto assinado por Leandro Leão
propõe uma experiência de deriva, aproximando corpo, imagem, som e arquitetura.
Ao invés de uma sequência fixa de leitura, a exposição convida o visitante a
construir seu próprio trajeto.
“A seleção das obras foi construída de forma muito
cuidadosa para que diferentes períodos da produção da Ruchita dialogassem entre
si dentro dos eixos da mostra”, afirma Almeida Maia. “A própria expografia
procura traduzir isso espacialmente, criando relações entre vídeo, fotografia,
arquitetura e deslocamento. A mostra também é marcada por atravessamentos de
território e de gênero. No contexto institucional, a videoarte brasileira foi
historicamente associada a uma produção masculina e concentrada entre Rio de
Janeiro e São Paulo. Inserir uma artista mulher, vinda de fora desse eixo, é
reconhecer e dar visibilidade a transformações importantes na arte contemporânea
brasileira”, conclui o curador.
Além da exposição, Território de passagem contará com uma programação de ativações que inclui um bate-papo sobre videoarte contemporânea com Ruchita, o curador Brunno Almeida Maia e a videoartista e pesquisadora Márcia Beatriz Granero. O programa contempla ainda: visitas mediadas; oficina de experimentações em videoarte; ações de registro audiovisual para o acervo institucional do MIS; e o lançamento de Todo momento de achar é um perder-se a si própria, livro que compila a produção da artista entre 2017 e 2025.
SERVIÇO:
Exposição Território
de passagem – Ruchita
Local: Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS) –
Espaço Maureen Bisilliat
Endereço: Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo
Data: de 11 de julho a 24 de agosto de 2026
Visitação
gratuita: terças a sextas, 10h às 19h; sábados, 10h às 20h; domingos e
feriados, 10h às 18h. Ativações gratuitas (sujeitas a lotação): visita mediada
(20.8, 19h30); bate-papo (21.8, 19h30); oficina de experimentação em videoarte
(22.8, 10h).

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