Combinação de dados sociodemográficos com exames de sangue e neuroimagem amplia a capacidade de prever o risco e pode melhorar a prevenção em saúde mental
Um estudo liderado professor e doutor em psiquiatria,
Christian Kieling, Head da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do Instituto de
Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com pesquisadores do Reino
Unido, aponta um caminho promissor para identificar o risco de depressão em
adolescentes antes mesmo do surgimento dos primeiros sintomas. Os resultados
indicam que, além de ser possível estimar o risco de desenvolver a doença
utilizando um escore baseado no contexto de vida dos jovens, a combinação
dessas informações com um conjunto de marcadores biológicos, melhora de forma
significativa a capacidade de previsão.
Entre os adolescentes classificados como de alto risco em ambos os modelos, 44% desenvolveram depressão ao longo de três anos. Já entre aqueles considerados de baixo risco nos dois critérios, não houve registros da doença no mesmo período. Publicado na revista Molecular Psychiatry, do grupo Nature, o trabalho reuniu dados sociodemográficos, exames de sangue e neuroimagem em um modelo preditivo inédito, com potencial para transformar as estratégias de prevenção em saúde mental.
A pesquisa integra o consórcio internacional IDEA (Identifying
Depression Early in Adolescence) e acompanhou estudantes da rede pública de
Porto Alegre durante três anos. “A depressão não surge de forma repentina. O
que mostramos é que existem indicadores psicossociais e biológicos que permitem
identificar uma vulnerabilidade maior ao desenvolvimento da doença”, afirma
Christian Kieling.
Da identificação tardia à prevenção
Tradicionalmente, o diagnóstico ocorre apenas quando os sintomas já estão presentes. O estudo propõe mudar esse cenário pela identificação do risco para desenvolver a depressão. Ao combinar o contexto de vida dos adolescentes, como ambiente familiar e condições sociais, com indicadores biológicos relacionadas a inflamação, desequilíbrios em substâncias que protegem o cérebro e maior sensibilidade a estímulos negativos em áreas cerebrais ligadas às emoções, os pesquisadores ampliaram de forma consistente a capacidade de prever quem desenvolveria o transtorno.
“Quando analisados em conjunto, esses fatores permitem uma
compreensão mais ampla da saúde mental, ao conectar o funcionamento do cérebro,
o sistema imunológico e o contexto de vida,” explica o pesquisador brasileiro.
Impacto para prevenção e políticas públicas
Os resultados abrem caminho para mudanças concretas com impacto
direto na sociedade. Entre elas, destacam-se:
- A possibilidade de identificar precocemente adolescentes em
situação de vulnerabilidade;
- A chance de reduzir o impacto da depressão, hoje uma das
principais causas de incapacidade no mundo, sobretudo entre jovens;
- A alocação mais eficiente de recursos em saúde mental;
- O fortalecimento de estratégias de prevenção baseadas em
evidência.
Para viabilizar essa abordagem, os pesquisadores sugerem que um caminho possível seria um modelo aplicável aos sistemas de saúde, com uma triagem em etapas: primeiro com informações sociodemográficas simples e acessíveis e, em seguida, para jovens selecionados, a complementação com exames mais específicos.
“Esse modelo abre caminho para uma mudança importante
no cuidado em saúde mental: sair de uma abordagem reativa, focada no
tratamento, para uma atuação preventiva, identificando quem precisa de atenção
antes do adoecimento”, destaca Kieling.

Nenhum comentário:
Postar um comentário