Poucas situações revelam tão claramente o choque
entre gerações quanto a reação de muitos adultos diante das novas gírias utilizadas
pelos jovens. Expressões como "cringe", "tankar",
"forma aura" e "six seven" costumam provocar estranhamento,
críticas e até previsões pessimistas sobre o futuro da língua portuguesa.
Pode-se observar que, sempre que uma nova forma de expressão se populariza
entre os mais jovens, surgem discursos anunciando o empobrecimento da linguagem
e a perda dos padrões considerados corretos.
A preocupação não é totalmente descabida. Afinal, a escola possui
a responsabilidade de ensinar a norma-padrão e de preparar os estudantes para
contextos acadêmicos, profissionais e institucionais. Entretanto, vale
perguntar: toda mudança linguística representa, de fato, uma ameaça à língua?
Ou estaríamos diante de um fenômeno que acompanha a própria história das línguas
humanas?
Segundo a Sociolinguística, campo da Linguística dedicado ao
estudo das relações entre língua e sociedade, a variação constitui uma
característica natural dos idiomas. Desde os estudos de William Labov e de
Uriel Weinreich, sabe-se que as mudanças linguísticas não ocorrem à margem do
sistema, mas em seu interior, impulsionadas pelas necessidades comunicativas
dos próprios falantes. A língua muda porque a sociedade muda. E talvez seja
justamente essa capacidade de adaptação que garanta sua permanência ao longo do
tempo.
Quando um jovem utiliza a palavra "cringe" para
classificar comportamentos considerados ultrapassados por sua geração ou
emprega expressões como "six seven" para compartilhar referências
compreendidas por determinado grupo, não se trata apenas da substituição de
palavras antigas por palavras novas. Trata-se da construção de identidade,
pertencimento e reconhecimento social. A linguagem, nesse contexto, funciona
como um espaço de encontro entre indivíduos que compartilham experiências
semelhantes.
Pode-se observar, ainda, que a resistência às gírias não é um
fenômeno recente. A história da língua portuguesa parece sugerir exatamente o
contrário do que afirmam os discursos alarmistas. Muitas palavras hoje
plenamente incorporadas ao vocabulário comum também despertaram desconfiança em
outros períodos históricos. O que muda são as expressões; a preocupação
permanece praticamente a mesma.
Não se trata de abandonar a norma-padrão ou de defender que qualquer forma de expressão seja adequada para todos os contextos. Trata-se de compreender que diversidade linguística e ensino formal não são realidades incompatíveis. Talvez o verdadeiro desafio não seja combater as gírias, mas ensinar os falantes a transitarem conscientemente entre diferentes registros da língua.
Afinal,
uma língua viva não se caracteriza pela ausência de mudanças, mas pela
capacidade de se renovar sem perder sua identidade. E, sob essa perspectiva, as
gírias dizem menos sobre a decadência da língua portuguesa e mais sobre sua
permanente vitalidade.
Midian Rebeca Justino de Araújo - professora de Linguística no Ensino Fundamental e Médio do Colégio Presbiteriano Mackenzie Agnes, no Recife. Mestranda em Educação Clássica e licenciada em Letras, dedica-se à formação linguística e ao desenvolvimento humano por meio da educação.
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