Com uso de inteligência artificial e comandos por voz, novas tecnologias prometem reduzir o desgaste psicológico dos médicos e devolver horas à rotina clínica
A sobrecarga de tarefas administrativas tem se consolidado como um
dos principais fatores de desgaste na rotina médica. Entre preenchimento de
prontuários, prescrições, sistemas fragmentados e registros digitais,
profissionais de saúde passam boa parte do dia diante de telas, muitas vezes
mais focados em cliques do que no paciente. O impacto desse cenário já é
conhecido: o burnout médico, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como
um fenômeno ocupacional, cresce em diferentes países e especialidades.
Dados ajudam a dimensionar o problema. Um estudo publicado na
Annals of Internal Medicine mostra que médicos podem gastar quase duas horas em
tarefas administrativas para cada hora de atendimento direto ao paciente,
especialmente em ambientes com alto nível de digitalização. Já a consultoria
McKinsey & Company estima que até 30% das atividades administrativas na
saúde podem ser automatizadas com as tecnologias disponíveis atualmente.
É nesse contexto que a automação começa a ganhar espaço como
aliada da prática médica. Soluções baseadas em inteligência artificial vêm
sendo desenvolvidas para reduzir o tempo gasto com documentação clínica,
permitindo que o profissional volte a concentrar sua atenção na consulta.
Na prática, isso significa menos digitação e mais conversa.
Segundo o Dr. João Ladeia, médico e porta-voz da Mediccos Health, a mudança na
rotina pode ser significativa. “Antes, eu saía da clínica por volta das 22h30.
Hoje, consigo encerrar o dia por volta das 20h30. Com a automação, eu
simplesmente falo o que preciso e o sistema organiza tudo”, afirma.
A tecnologia utilizada permite que o médico conduza a consulta
normalmente, informando diagnóstico, medicação e orientações por meio de
comando de voz. A inteligência artificial, então, transforma essas informações
em prontuário estruturado e prescrição médica em PDF, assinada digitalmente, em
poucos segundos. Todo o processo ocorre sob comando do profissional, sem
interferência no raciocínio clínico.
“O ouro está no áudio. Falar é muito mais rápido do que digitar.
Você conduz a consulta, dá os comandos, e em segundos o documento está pronto”,
explica Ladeia.
Segundo ele, além do ganho de tempo, há impacto direto na saúde
mental do profissional. “A gente estima uma redução de até 90% do desgaste
psicológico relacionado à burocracia. Quando você elimina o retrabalho e a necessidade
de digitar tudo, o atendimento fica mais leve e mais fluido”, diz.
A empresa afirma que a automação completa do fluxo, do prontuário
à prescrição, pode representar mais de duas horas economizadas por dia na
rotina médica. Em termos financeiros, isso também pode refletir em maior
capacidade de atendimento. Considerando uma consulta média de R$ 500, o tempo
recuperado pode representar um potencial adicional de receita ao longo do dia,
além de reduzir custos indiretos ligados à ineficiência operacional.
Especialistas apontam que esse tipo de solução acompanha um
movimento global de transformação da saúde, em que a tecnologia deixa de ser
apenas um suporte e passa a atuar diretamente na organização da prática
clínica. Relatório da Gartner indica que o uso de inteligência artificial no
setor deve continuar crescendo nos próximos anos, com foco em eficiência,
redução de custos e melhoria da experiência do paciente.
Ao mesmo tempo, o avanço dessas ferramentas reforça a necessidade
de manter o médico no centro das decisões. “A tecnologia não substitui o
profissional. Ela só tira da frente aquilo que não deveria ocupar o tempo dele.
Quando isso acontece, a medicina volta a ser mais humana”, conclui o Dr. João
Ladeia.

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