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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Câncer e sexo: o que ninguém te conta dentro do hospita

 

Enfermeira decide quebrar um dos maiores tabus da oncologia brasileira

 

Falar de sexo já é difícil. Falar de sexo durante um tratamento de câncer, então, é quase um tabu absoluto. Mas é exatamente esse silêncio que a enfermeira e sexóloga Drª Íris Bazílio decidiu romper. Há anos, dentro de um dos maiores institutos oncológicos do país, ela vivencia um sepultamento da sexualidade da mulher com Câncer de mama, e isso não é respeito nem cautela, mas negligência.

A realidade que Íris encontra nos corredores do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é dura, mas também cheia de histórias que ninguém está acostumado a ouvir. Mulheres que nunca sentiram um orgasmo. Corpos que passaram décadas servindo ao prazer alheio sem receber nada em troca. E um diagnóstico de câncer que, paradoxalmente, pode ser o momento em que tudo isso vem à tona.


"Sexo e câncer não são água e óleo"

Existe um senso comum de que pensar em prazer durante um tratamento oncológico é egoísmo. Íris discorda diretamente deste pensamento. "O sexo com prazer, com vontade, é altamente produtivo: aumenta a imunidade, alivia a dor, controla a insônia. Tudo que um paciente precisa", afirma.

O problema, segundo a especialista, não está na doença em si, mas na visão que a sociedade construiu sobre ambos os temas, câncer e sexo, de forma separada e cheia de julgamentos. Quando os dois se encontram, o tabu se multiplica e o silêncio vira protocolo “não oficial”.


O luto que ninguém vê: perder o próprio corpo

Para Dra. Íris, o impacto mais profundo que o câncer deixa nas mulheres não é físico, é identitário. Ela relata ouvir com frequência frases que partem o coração: "Sempre me achei feia, sempre fui gordinha, mas na balada ficava com os caras mais bonitos, porque meu peito era meu cartão de visita. Agora perdi tudo."

Esse luto do corpo, especialmente após a mastectomia, que é a retirada da mama, é concreto e muitas vezes invisível para o sistema de saúde. Mulheres que não conseguem se olhar no espelho, que evitam passar a mão na própria cicatriz, que vivem um luto em vida. "Falam muito desse luto", conta Íris. E o sistema, em geral, não tem nem espaço nem preparo para acolhê-lo.


 Quando a libido some antes mesmo do diagnóstico

Um dado que chama atenção nas consultas da Dra. Íris é que a perda da libido, em muitos casos, começa antes do câncer aparecer. Só que ninguém pergunta sobre isso, e as mulheres também não contam. Com o tratamento hormonal, esse quadro piora: ressecamento vaginal, dispareunia (dor genital), queda na autoestima e uma imagem de si mesma cada vez mais fragmentada.

"A falta de libido é a consequência de tudo isso junto", explica Íris. E o tratamento que o sistema costuma oferecer para essa equação complexa é, quase sempre, simplista: "Tem ressecamento vaginal? Usa lubrificante, usa óleo de coco". Uma resposta que ignora décadas de história, crenças, traumas e silêncios acumulados.


Um ambulatório pioneiro, uma missão incômoda

Foi justamente para romper com esse modelo que a Dra. Íris criou, no HC III do INCA, um ambulatório de sexualidade voltado para mulheres com câncer de mama, pioneiro no Brasil. A proposta era trabalhar não apenas os sintomas físicos, mas toda a trajetória da mulher: sua criação, suas crenças, sua infância, seus relacionamentos, sua história com o próprio corpo.

"Uma consulta completa, que trabalhe crenças, traumas, história familiar, criação, infância, adolescência, juventude, até os dias atuais", é como ela descreve o que deveria ser padrão na oncologia, mas não é. Ainda.

O silêncio dos profissionais da saúde, que persiste nos hospitais, segundo Dra Íris, tem duas origens: falta de preparo e tabu cultural. "Não falamos da nossa sexualidade. Como falar da sexualidade dos pacientes?", questiona. E completa sobre o silêncio médico: "Não são preparados e têm tabus." Os dois problemas coexistem.


"Ela me perguntou o que era isso"

Entre os relatos que ficaram gravados na memória de Íris, um se destaca. Durante uma consulta de enfermagem, ela perguntou a uma paciente quando havia sido seu último orgasmo. A resposta foi uma pergunta de volta: "O que é isso?"

Íris explicou. E a paciente entendeu, mas revelou que nunca havia sentido. "Meu marido subia em cima de mim, fazia as coisas, acabava e virava para o lado." A paciente em questão, tinha 40 anos de casada.

Para a doutora, essa história não é exceção. É sintoma de uma cultura que ainda violenta as mulheres de duas formas: quando elas não sentem prazer, e quando elas o buscam. "Se a mulher sai dessa formatação e busca seu prazer, não aceita um sexo egoísta, ela é rotulada. Assim, a violência perdura", diz ela.


A redescoberta é possível

 Apesar da dureza do que vê todos os dias, Íris não trabalha com pessimismo. Sua função, como ela mesma define, é mostrar que redescobrir a sexualidade depois da dor é possível. "É isso que faço. Essa é a minha função. Os relatos são surpreendentes."

Além do atendimento presencial no INCA e na UFRJ, ela leva o tema para além dos muros do hospital por meio de palestras, eventos e conteúdo digital, acreditando que democratizar o acesso à informação sobre sexualidade na oncologia é também uma forma de cuidado.

Atualmente, as consultas em sexualidade para pessoas com Câncer de mama foram ampliadas. Ela criou uma metodologia online e atende pacientes de vários lugares do Brasil com câncer de mama para uma sexualidade plena, os resultados são surpreendentes.


Quem é a enfermeira que quebrou os tabus?

Íris Bazílio é enfermeira há quase três décadas, mestre e doutora em Enfermagem pela UERJ e UFRJ, com especialização em Oncologia pela UFRJ/INCA, Neurociências pela PUC, Sexologia pela Universidade UNINASSAU. Também é Terapeuta Holística e Reprogramadora Mental.

Atua como enfermeira líder no Instituto Nacional do Câncer e na Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Criou o Ambulatório de Sexualidade do HC III do INCA, pioneiro no país no atendimento à sexualidade de mulheres com câncer de mama. Também fundou o Instituto Iris Bazilio, uma plataforma de cursos online, mentorias, palestras, com conteúdos gratuitos na área de desenvolvimento humano (Instituto Iris Bazilio)

Pesquisa os impactos emocionais e neurobiológicos da sexualidade feminina e atua também como palestrante e terapeuta holística, com foco em desbloqueio do prazer e recuperação da autoestima para mulheres em tratamento oncológico.


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