Enfermeira decide quebrar um dos maiores tabus da oncologia brasileira
Falar de
sexo já é difícil. Falar de sexo durante um tratamento de câncer, então, é
quase um tabu absoluto. Mas é exatamente esse silêncio que a enfermeira e
sexóloga Drª Íris Bazílio decidiu romper. Há anos, dentro de um dos maiores
institutos oncológicos do país, ela vivencia um sepultamento da sexualidade da
mulher com Câncer de mama, e isso não é respeito nem cautela, mas negligência.
A
realidade que Íris encontra nos corredores do Instituto Nacional do Câncer
(INCA) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é dura, mas também
cheia de histórias que ninguém está acostumado a ouvir. Mulheres que nunca
sentiram um orgasmo. Corpos que passaram décadas servindo ao prazer alheio sem
receber nada em troca. E um diagnóstico de câncer que, paradoxalmente, pode ser
o momento em que tudo isso vem à tona.
"Sexo
e câncer não são água e óleo"
Existe
um senso comum de que pensar em prazer durante um tratamento oncológico é
egoísmo. Íris discorda diretamente deste pensamento. "O sexo com prazer,
com vontade, é altamente produtivo: aumenta a imunidade, alivia a dor, controla
a insônia. Tudo que um paciente precisa", afirma.
O
problema, segundo a especialista, não está na doença em si, mas na visão que a
sociedade construiu sobre ambos os temas, câncer e sexo, de forma separada e
cheia de julgamentos. Quando os dois se encontram, o tabu se multiplica e o
silêncio vira protocolo “não oficial”.
O
luto que ninguém vê: perder o próprio corpo
Para
Dra. Íris, o impacto mais profundo que o câncer deixa nas mulheres não é físico,
é identitário. Ela relata ouvir com frequência frases que partem o coração:
"Sempre me achei feia, sempre fui gordinha, mas na balada ficava com os
caras mais bonitos, porque meu peito era meu cartão de visita. Agora perdi
tudo."
Esse
luto do corpo, especialmente após a mastectomia, que é a retirada da mama, é
concreto e muitas vezes invisível para o sistema de saúde. Mulheres que não
conseguem se olhar no espelho, que evitam passar a mão na própria cicatriz, que
vivem um luto em vida. "Falam muito desse luto", conta Íris. E o
sistema, em geral, não tem nem espaço nem preparo para acolhê-lo.
Quando
a libido some antes mesmo do diagnóstico
Um
dado que chama atenção nas consultas da Dra. Íris é que a perda da libido, em
muitos casos, começa antes do câncer aparecer. Só que ninguém pergunta sobre
isso, e as mulheres também não contam. Com o tratamento hormonal, esse quadro
piora: ressecamento vaginal, dispareunia (dor genital), queda na autoestima e
uma imagem de si mesma cada vez mais fragmentada.
"A
falta de libido é a consequência de tudo isso junto", explica Íris. E o
tratamento que o sistema costuma oferecer para essa equação complexa é, quase
sempre, simplista: "Tem ressecamento vaginal? Usa lubrificante, usa óleo
de coco". Uma resposta que ignora décadas de história, crenças, traumas e
silêncios acumulados.
Um
ambulatório pioneiro, uma missão incômoda
Foi
justamente para romper com esse modelo que a Dra. Íris criou, no HC III do
INCA, um ambulatório de sexualidade voltado para mulheres com câncer de mama,
pioneiro no Brasil. A proposta era trabalhar não apenas os sintomas físicos,
mas toda a trajetória da mulher: sua criação, suas crenças, sua infância, seus
relacionamentos, sua história com o próprio corpo.
"Uma
consulta completa, que trabalhe crenças, traumas, história familiar, criação,
infância, adolescência, juventude, até os dias atuais", é como ela
descreve o que deveria ser padrão na oncologia, mas não é. Ainda.
O
silêncio dos profissionais da saúde, que persiste nos hospitais, segundo Dra
Íris, tem duas origens: falta de preparo e tabu cultural. "Não falamos da
nossa sexualidade. Como falar da sexualidade dos pacientes?", questiona. E
completa sobre o silêncio médico: "Não são preparados e têm tabus."
Os dois problemas coexistem.
"Ela
me perguntou o que era isso"
Entre
os relatos que ficaram gravados na memória de Íris, um se destaca. Durante uma
consulta de enfermagem, ela perguntou a uma paciente quando havia sido seu último
orgasmo. A resposta foi uma pergunta de volta: "O que é isso?"
Íris
explicou. E a paciente entendeu, mas revelou que nunca havia sentido. "Meu
marido subia em cima de mim, fazia as coisas, acabava e virava para o
lado." A paciente em questão, tinha 40 anos de casada.
Para a
doutora, essa história não é exceção. É sintoma de uma cultura que ainda
violenta as mulheres de duas formas: quando elas não sentem prazer, e quando
elas o buscam. "Se a mulher sai dessa formatação e busca seu prazer, não
aceita um sexo egoísta, ela é rotulada. Assim, a violência perdura", diz
ela.
A
redescoberta é possível
Apesar
da dureza do que vê todos os dias, Íris não trabalha com pessimismo. Sua
função, como ela mesma define, é mostrar que redescobrir a sexualidade depois
da dor é possível. "É isso que faço. Essa é a minha função. Os relatos são
surpreendentes."
Além
do atendimento presencial no INCA e na UFRJ, ela leva o tema para além dos
muros do hospital por meio de palestras, eventos e conteúdo digital, acreditando
que democratizar o acesso à informação sobre sexualidade na oncologia é também
uma forma de cuidado.
Atualmente,
as consultas em sexualidade para pessoas com Câncer de mama foram ampliadas.
Ela criou uma metodologia online e atende pacientes de vários lugares do Brasil
com câncer de mama para uma sexualidade plena, os resultados são
surpreendentes.
Quem
é a enfermeira que quebrou os tabus?
Íris
Bazílio é enfermeira há quase três décadas, mestre e doutora em Enfermagem pela
UERJ e UFRJ, com especialização em Oncologia pela UFRJ/INCA, Neurociências pela
PUC, Sexologia pela Universidade UNINASSAU. Também é Terapeuta Holística e
Reprogramadora Mental.
Atua
como enfermeira líder no Instituto Nacional do Câncer e na Maternidade Escola
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Criou o Ambulatório de Sexualidade
do HC III do INCA, pioneiro no país no atendimento à sexualidade de mulheres
com câncer de mama. Também fundou o Instituto Iris Bazilio, uma plataforma de
cursos online, mentorias, palestras, com conteúdos gratuitos na área de
desenvolvimento humano (Instituto Iris Bazilio)
Pesquisa
os impactos emocionais e neurobiológicos da sexualidade feminina e atua também
como palestrante e terapeuta holística, com foco em desbloqueio do prazer e
recuperação da autoestima para mulheres em tratamento oncológico.

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