Desde 1924, o Brasil celebra o mês de maio como o
Mês do Trabalhador, considerando o período como marco da luta por melhores
condições laborais. Nos últimos anos, porém, novas dinâmicas se impuseram:
modelos híbridos, plataformas digitais, pejotização e a “glamourização” do
empreendedorismo. Ao mesmo tempo, a Quarta Revolução Industrial, com IA, IoT e
robotização, promete ganhos de produtividade. Mas quais são os impactos reais
para as pessoas trabalhadoras? O que, de fato, há a comemorar?
O trabalho sempre ocupou papel central na
sociedade, impulsionando inovação e garantindo dignidade. No entanto, ao
discutir o futuro do trabalho, corremos o risco de negligenciar sua base: o
Trabalho Decente. Formalizado pela OIT em 1999, ele promove oportunidades de
trabalho de qualidade, fundamentais para superar a pobreza, reduzir
desigualdades e impulsionar o desenvolvimento sustentável. Entre suas
dimensões, destacam-se condições seguras e rendimentos adequados.
Desde a pandemia, o mundo do trabalho enfrenta uma
crise de saúde mental. No Brasil, 2025 registrou mais de 540 mil afastamentos
por transtornos mentais. Assédio, burnout, jornadas excessivas e medo do
desemprego estão entre os principais fatores de risco. Mulheres são as mais
afetadas, e o recorte racial evidencia desigualdades ainda mais profundas.
Promover saúde exige ação intencional das
organizações, com estratégias que coloquem a pessoa trabalhadora no centro. O
IPEA aponta retrocesso na meta 3.4 do ODS 3, Saúde e Bem-Estar. Nesse contexto,
a atualização da NR1 tornou obrigatória a avaliação de riscos psicossociais no
PGR, ampliando a responsabilidade das empresas. Diante de dados tão alarmantes,
por que agir apenas sob pressão de fiscalização, multas ou danos reputacionais?
A saúde, como direito humano, deveria ser critério central das decisões
organizacionais.
Outra dimensão essencial do trabalho decente é a
remuneração. O conceito de Salário Digno deve orientar políticas salariais, uma
vez que o salário mínimo, embora importantíssimo, não tem assegurado uma vida
digna. Trata-se de garantir renda suficiente para cobrir necessidades básicas,
promover bem-estar e autonomia.
Dados do IBGE mostram que, embora milhões tenham
saído da pobreza, cerca de 12% das pessoas trabalhadoras ainda vivem em
domicílios pobres. A renda insuficiente afeta mais pessoas pretas, pardas,
mulheres e crianças. O país também retrocedeu na meta de trabalho decente do
ODS 8. Não é possível discutir o tema sem enfrentar desigualdades estruturais
de gênero e raça.
Assim, qualquer debate sobre o futuro do trabalho
será incompleto se ignorar essas condições. É preciso reconhecer os retrocessos
e recolocar o Trabalho Decente no centro das agendas de governo, empresas e
sociedade.
Para avançar, o Pacto Global da ONU – Rede Brasil
lançou a Ambição 2030, com movimentos que incentivam compromissos empresariais.
Entre eles, destacam-se Mente em Foco e Salário Digno, que apoiam a promoção de
ambientes de trabalho seguros, saudáveis e com remuneração adequada.
Este é o momento de as empresas se engajarem e contribuírem
para um futuro do trabalho mais justo e sustentável.
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