Em 2026, um marco simbólico e científico expõe,
mais uma vez, as lacunas históricas da produção de conhecimento: o clitóris
feminino foi mapeado em três dimensões com precisão inédita, permitindo uma
compreensão mais detalhada de sua estrutura, inervação e funcionalidade.
O fato, comandando pela pesquisadora Ju Young Lee, da
universidade UMC, por si só, não deveria soar surpreendente, mas soa. Isso
porque estruturas análogas do corpo masculino, como o pênis, já haviam sido
amplamente descritas e modeladas há décadas, evidenciando um desequilíbrio
persistente na agenda científica.
Esse avanço não se limita ao campo da sexualidade.
Trata-se de um reposicionamento epistemológico: reconhecer que o corpo feminino
foi, durante séculos, subinvestigado e, muitas vezes, interpretado a
partir de parâmetros masculinos. A chamada “neutralidade científica”
revelou-se, na prática, uma padronização androcêntrica, na qual o masculino foi
assumido como norma e o feminino como variação.
Esse episódio ilumina uma questão estrutural mais
ampla: a invisibilização do corpo feminino na pesquisa científica.
Durante décadas, mulheres foram sistematicamente excluídas de ensaios clínicos,
seja por questões hormonais consideradas “variáveis demais”, seja por uma
lógica de simplificação metodológica. Como consequência, parâmetros
diagnósticos, dosagens medicamentosas e protocolos terapêuticos foram
amplamente baseados em organismos masculinos, gerando distorções que impactam
diretamente a saúde feminina.
A lacuna se torna ainda mais evidente em áreas como
a menopausa, saúde mental e dor crônica, historicamente negligenciadas ou
tratadas de forma insuficiente. A escassez de estudos robustos nessas frentes
não apenas dificulta a prática clínica baseada em evidências, como também
perpetua estigmas e desinformação. Produzir ciência a partir das
especificidades femininas não é um recorte identitário, mas uma exigência de
rigor metodológico e de justiça sanitária.
Outra área que podemos esperar avanços nos próximos
tempos é em relação a estudos sobre a mente feminina. A neurociência tem
avançado de forma galopante quanto a anatomia e funções do cérebro. E quanto
mais se estuda mais se percebe que o funcionamento cerebral das mulheres e dos
homens é diferente. As mulheres têm uma integração entre os
hemisférios muito maior que a dos homens e, portanto, conectam lógica e emoção
com mais facilidade. Mulheres são mais empáticas (sistema límbico mais ativo).
E vou matar uma curiosidade de muitos agora, a mulher é multitarefa enquanto o
homem tem o que chamamos de visão em túnel, isto é, focam na
resolução de uma coisa por vez. Compreender estas diferenças podem mudar a
forma nas condutas terapêuticas e psicológicas.
A ciência funciona assim: um estudo embasa o outro.
Imagine quantos saberes sobre a sexualidade e saúde feminina podem se
desdobrar a partir destes estudos? Inúmeros. A cada descoberta aumentamos a
chance de mulheres terem qualidade de vida e saúde. Uma pesquisa como esta,
então, não deve ser celebrada somente pela descoberta, mas por também ser uma
porta para uma nova direção para outros estudos para mulheres.
Mais do que um fato isolado, trata-se de
um indicativo de mudança de paradigma. Incorporar o feminino como eixo central
e não periférico na ciência é ampliar a precisão do conhecimento, reduzir
desigualdades em saúde e reconhecer, de forma concreta, que não há
universalidade possível quando metade da população é historicamente negligenciada.
A ciência que inclui as mulheres não é uma ciência
segmentada. É, finalmente, uma ciência completa.

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