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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Mulheres no centro da ciência: um avanço contra a padronização androcêntric

Em 2026, um marco simbólico e científico expõe, mais uma vez, as lacunas históricas da produção de conhecimento: o clitóris feminino foi mapeado em três dimensões com precisão inédita, permitindo uma compreensão mais detalhada de sua estrutura, inervação e funcionalidade. O fato, comandando pela pesquisadora Ju Young Lee, da universidade UMC, por si só, não deveria soar surpreendente, mas soa. Isso porque estruturas análogas do corpo masculino, como o pênis, já haviam sido amplamente descritas e modeladas há décadas, evidenciando um desequilíbrio persistente na agenda científica. 

Esse avanço não se limita ao campo da sexualidade. Trata-se de um reposicionamento epistemológico: reconhecer que o corpo feminino foi, durante séculos, subinvestigado e, muitas vezes, interpretado a partir de parâmetros masculinos. A chamada “neutralidade científica” revelou-se, na prática, uma padronização androcêntrica, na qual o masculino foi assumido como norma e o feminino como variação. 

Esse episódio ilumina uma questão estrutural mais ampla: a invisibilização do corpo feminino na pesquisa científica. Durante décadas, mulheres foram sistematicamente excluídas de ensaios clínicos, seja por questões hormonais consideradas “variáveis demais”, seja por uma lógica de simplificação metodológica. Como consequência, parâmetros diagnósticos, dosagens medicamentosas e protocolos terapêuticos foram amplamente baseados em organismos masculinos, gerando distorções que impactam diretamente a saúde feminina. 

A lacuna se torna ainda mais evidente em áreas como a menopausa, saúde mental e dor crônica, historicamente negligenciadas ou tratadas de forma insuficiente. A escassez de estudos robustos nessas frentes não apenas dificulta a prática clínica baseada em evidências, como também perpetua estigmas e desinformação. Produzir ciência a partir das especificidades femininas não é um recorte identitário, mas uma exigência de rigor metodológico e de justiça sanitária. 

Outra área que podemos esperar avanços nos próximos tempos é em relação a estudos sobre a mente feminina. A neurociência tem avançado de forma galopante quanto a anatomia e funções do cérebro. E quanto mais se estuda mais se percebe que o funcionamento cerebral das mulheres e dos homens é diferente. As mulheres têm uma integração entre os hemisférios muito maior que a dos homens e, portanto, conectam lógica e emoção com mais facilidade. Mulheres são mais empáticas (sistema límbico mais ativo). E vou matar uma curiosidade de muitos agora, a mulher é multitarefa enquanto o homem tem o que chamamos de visão em túnel, isto é, focam na resolução de uma coisa por vez. Compreender estas diferenças podem mudar a forma nas condutas terapêuticas e psicológicas. 

A ciência funciona assim: um estudo embasa o outro. Imagine quantos saberes sobre a sexualidade e saúde feminina podem se desdobrar a partir destes estudos? Inúmeros. A cada descoberta aumentamos a chance de mulheres terem qualidade de vida e saúde. Uma pesquisa como esta, então, não deve ser celebrada somente pela descoberta, mas por também ser uma porta para uma nova direção para outros estudos para mulheres. 

Mais do que um fato isolado, trata-se de um indicativo de mudança de paradigma. Incorporar o feminino como eixo central e não periférico na ciência é ampliar a precisão do conhecimento, reduzir desigualdades em saúde e reconhecer, de forma concreta, que não há universalidade possível quando metade da população é historicamente negligenciada. 

A ciência que inclui as mulheres não é uma ciência segmentada. É, finalmente, uma ciência completa.

 

Karina Rodrigues - neurocientistas e doutoranda em Psicologia dos Arquétipos Femininos e Menopausa pela UNINI no México. Autora do livro “O Ano do Cavalo”.


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