Quando
Shakira subiu ao palco no megashow realizado no Rio de Janeiro e mencionou —
ainda que com imprecisão — o número de mães solo no Brasil, trouxe à luz um
tema que, apesar de cotidiano, ainda permanece subdimensionado no debate
público. Errou na estatística, mas acertou no essencial: há um país inteiro
sustentado por mulheres que criam seus filhos sozinhas.
Os dados oficiais são contundentes. Pesquisa do Datafolha aponta que 69% das
mulheres brasileiras têm ao menos um filho, e, dentro desse universo, cerca de
55% são mães solo — isto é, solteiras, divorciadas ou viúvas que assumem, na
prática, a criação dos filhos sem a presença cotidiana de um parceiro. Não se
trata de uma minoria. Trata-se de uma maioria silenciosa. Mais do que isso:
estudos baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD
Contínua) indicam que mais de 11 milhões de mulheres no Brasil criam seus
filhos sozinhas, número que cresceu significativamente na última década. A
maternidade solo deixou de ser exceção — é uma estrutura familiar consolidada.
A sobrecarga invisível: casa, filhos e sustento
A maternidade solo não se limita à ausência de um companheiro. Ela representa a
concentração absoluta de responsabilidades: cuidar dos filhos, gerir a casa,
garantir o sustento e ainda manter a própria vida profissional ativa. Não há
divisão de tarefas. Não há alternância de responsabilidades. Há acúmulo. E os
números revelam o custo dessa realidade. Entre as mães solo, 18% estão
desempregadas, percentual mais que o dobro das mulheres com companheiro.
Quando conseguem trabalho, ganham menos: a renda média mensal gira em torno de
R$2.105, significativamente inferior à de homens casados com filhos. Quase
metade dessas mulheres vive com até um salário-mínimo. É a face concreta da
chamada feminização da pobreza — quando o peso econômico da desigualdade recai,
de forma desproporcional, sobre mulheres responsáveis por seus lares.
Por que tantas mães criam filhos sozinhas?
A resposta não é única — e é justamente aí que reside a complexidade do
fenômeno.
A maternidade solo pode decorrer de:
* Divórcios e separações, cada vez mais comuns em uma sociedade que não tolera mais relações disfuncionais;
* Viuvez, que coloca abruptamente a mulher como única responsável pela família;
* Decisões conscientes, em que a mulher opta por ter filhos sem parceiro;
* Rompimento de relações abusivas, nas quais permanecer significaria perpetuar
violência;
* Ausência paterna, ainda estrutural em muitos contextos sociais.
Importa
destacar: nem toda mãe solo foi “abandonada”. Muitas escolheram sair — e essa
escolha, embora legítima, vem acompanhada de um custo social e econômico
elevado.
Um país sustentado por mulheres
Outro dado estrutural reforça esse cenário: mais de 50% dos lares brasileiros
já são chefiados por mulheres. Ou seja, a imagem tradicional da família —
centrada no provedor masculino — não corresponde mais à realidade brasileira. E
há um recorte ainda mais sensível: a maternidade solo é majoritariamente
feminina, negra e periférica, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Trata-se de um fenômeno que cruza gênero, raça e classe social — e, por isso,
exige políticas públicas interseccionais.
Entre o discurso e a realidade
A sociedade ainda romantiza a figura da “mãe guerreira”, mas pouco enfrenta o
que está por trás dessa narrativa: sobrecarga extrema, ausência de rede de
apoio e desigualdade estrutural. Cuidar dos filhos não é apenas um ato afetivo
— é trabalho. Gerir a casa não é apenas rotina — é gestão. Conciliar
maternidade e carreira não é escolha — é necessidade. E tudo isso, no caso das
mães solo, ocorre sem divisão.
O que precisa mudar
A maternidade solo não é um problema individual — é um fenômeno social que
exige resposta coletiva.
Alguns caminhos são inevitáveis:
* Políticas de creches acessíveis e em tempo integral;
* Fortalecimento de mecanismos de responsabilização paterna;
* Programas de inclusão produtiva e qualificação profissional;
* Ampliação de redes de apoio institucional e comunitário;
* Reconhecimento do trabalho doméstico e de cuidado como atividade econômica
relevante.
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