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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Especialista brasileira ganha destaque mundial ao suprir falha no cuidado pós-câncer no país

Procedimento pouco difundido ajuda a resgatar imagem pessoal e qualidade de vida 

 

Mais de 40% dos brasileiros adultos convivem com doenças crônicas, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, e o país registra cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano, de acordo com estimativas do INCA. Apesar da legislação garantir reconstrução mamária e acompanhamento psicológico pelo SUS, dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do DATASUS mostram que o acesso ainda está aquém da demanda, com filas e desigualdades regionais. Procedimentos complementares, como a micropigmentação paramédica, seguem fora da estrutura regular da rede pública.

É nesse cenário que a atuação da especialista Flávia Souza, 42 anos, se destaca ao trabalhar na reconstrução da imagem e da autoestima de pacientes que passaram por cirurgias, doenças ou traumas. A principal característica da técnica desenvolvida por Flávia é o efeito tridimensional, que simula luz e sombra para dar profundidade e realismo, tornando a reconstrução praticamente indistinguível da natural. 

Após ficar um ano acamada devido a um acidente que causou fraturas nas duas pernas e pés, a empreendedora redirecionou sua trajetória profissional. Formada na área da saúde, havia interrompido a carreira após o nascimento das filhas gêmeas, em 2012, que enfrentaram complicações nos primeiros meses de vida. O período de imobilização e os dois anos de reabilitação marcaram o início de uma nova atuação voltada ao cuidado emocional de pacientes.

“Passei por um momento de fragilidade emocional muito grande. Foi ali que surgiu o desejo de ajudar pessoas que também estavam vivendo o mesmo que eu”, afirma.

A micropigmentação paramédica utiliza pigmentos aplicados na pele para reconstruir características afetadas por tratamentos médicos, como sobrancelhas, lábios e aréolas mamárias. Flávia buscou formação internacional, incluindo especialização pela Phiacademy, e passou a atuar com foco em reconstrução areolar. Em 2025, conquistou o título de campeã mundial na técnica e desenvolveu o método próprio Aréola Thera, voltado à reprodução da anatomia da região.

No Brasil, a falta de acesso a esse tipo de procedimento impacta diretamente pacientes que passaram por cirurgias que deixam cicatrizes impactantes. Maria Luisa Marques, 53 anos, advogada, relata que deixou de se reconhecer após uma intervenção. “De repente eu estava deformada. Evitava o espelho. Não me sentia bonita”, afirma. Segundo ela, a falta de informação sobre a micropigmentação prolongou esse processo. Após o procedimento, relata mudança na percepção do próprio corpo. “Hoje eu me sinto mulher novamente. Fiz as pazes com o espelho. Eu me vejo inteira”, completa.

Situação semelhante foi vivida por Marilei Ribeiro do Vale Montagnoli, 51 anos, que passou por tratamento de câncer de mama e cirurgias posteriores. Após a perda da aréola, afirma que não se reconhecia mais. A reconstrução marcou um ponto de mudança. “Ela devolveu muito mais do que a aréola ao meu corpo. Devolveu a minha identidade como mulher”, revela.

No Brasil, a micropigmentação paramédica ainda não integra de forma estruturada os serviços públicos de saúde e está concentrada na rede privada ou em iniciativas pontuais. A ausência desse tipo de atendimento amplia o impacto emocional do pós-tratamento, dificultando a retomada da vida social de muitos pacientes. O Projeto de Lei n.º 892/2023, de autoria da Deputada Silvia Waiãpi, propõe a integração da dermopigmentação funcional (também conhecida como micropigmentação paramédica) como um serviço oficial do SUS. 

Flávia afirma que o trabalho atua nesse intervalo em que o tratamento médico já foi concluído, mas os impactos emocionais e na imagem corporal ainda permanecem. “Não se trata apenas de aparência. É devolver identidade e qualidade de vida para pessoas que passaram por esses processos”, conclui. 

  

Flávia Souza - especialista em micropigmentação paramédica, com atuação voltada à reconstrução da autoestima de pacientes oncológicos e pessoas com doenças autoimunes. Com formação inicial na área da saúde, encontrou na técnica uma forma de unir conhecimento técnico e propósito de vida após enfrentar um grave acidente que a deixou acamada por um ano. Desde então, dedica-se a devolver identidade, confiança e bem-estar por meio de procedimentos que vão além da estética, acompanhando uma tendência crescente de humanização do cuidado.


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