Procedimento pouco
difundido ajuda a resgatar imagem pessoal e qualidade de vida
Mais de 40% dos brasileiros adultos convivem com
doenças crônicas, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, e o país
registra cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano, de acordo com
estimativas do INCA. Apesar da legislação garantir reconstrução mamária e
acompanhamento psicológico pelo SUS, dados do Instituto Nacional de Câncer
(INCA) e do DATASUS mostram que o acesso ainda está aquém da demanda, com filas
e desigualdades regionais. Procedimentos complementares, como a
micropigmentação paramédica, seguem fora da estrutura regular da rede pública.
É nesse cenário que a atuação da especialista
Flávia Souza, 42 anos, se destaca ao trabalhar na reconstrução da imagem e da
autoestima de pacientes que passaram por cirurgias, doenças ou traumas. A
principal característica da técnica desenvolvida por Flávia é o efeito
tridimensional, que simula luz e sombra para dar profundidade e realismo,
tornando a reconstrução praticamente indistinguível da natural.
Após ficar um ano acamada devido a um acidente que
causou fraturas nas duas pernas e pés, a empreendedora redirecionou sua
trajetória profissional. Formada na área da saúde, havia interrompido a
carreira após o nascimento das filhas gêmeas, em 2012, que enfrentaram
complicações nos primeiros meses de vida. O período de imobilização e os dois
anos de reabilitação marcaram o início de uma nova atuação voltada ao cuidado
emocional de pacientes.
“Passei por um momento de fragilidade emocional
muito grande. Foi ali que surgiu o desejo de ajudar pessoas que também estavam
vivendo o mesmo que eu”, afirma.
A micropigmentação paramédica utiliza pigmentos
aplicados na pele para reconstruir características afetadas por tratamentos
médicos, como sobrancelhas, lábios e aréolas mamárias. Flávia buscou formação
internacional, incluindo especialização pela Phiacademy, e passou a atuar com foco
em reconstrução areolar. Em 2025, conquistou o título de campeã mundial na
técnica e desenvolveu o método próprio Aréola Thera, voltado à reprodução da
anatomia da região.
No Brasil, a falta de acesso a esse tipo de procedimento
impacta diretamente pacientes que passaram por cirurgias que deixam cicatrizes
impactantes. Maria Luisa Marques, 53 anos, advogada, relata que deixou de se
reconhecer após uma intervenção. “De repente eu estava deformada. Evitava o
espelho. Não me sentia bonita”, afirma. Segundo ela, a falta de informação
sobre a micropigmentação prolongou esse processo. Após o procedimento, relata
mudança na percepção do próprio corpo. “Hoje eu me sinto mulher novamente. Fiz
as pazes com o espelho. Eu me vejo inteira”, completa.
Situação semelhante foi vivida por Marilei Ribeiro
do Vale Montagnoli, 51 anos, que passou por tratamento de câncer de mama e
cirurgias posteriores. Após a perda da aréola, afirma que não se reconhecia
mais. A reconstrução marcou um ponto de mudança. “Ela devolveu muito mais do
que a aréola ao meu corpo. Devolveu a minha identidade como mulher”, revela.
No Brasil, a micropigmentação paramédica ainda não
integra de forma estruturada os serviços públicos de saúde e está concentrada
na rede privada ou em iniciativas pontuais. A ausência desse tipo de
atendimento amplia o impacto emocional do pós-tratamento, dificultando a
retomada da vida social de muitos pacientes. O Projeto de Lei n.º 892/2023, de
autoria da Deputada Silvia Waiãpi, propõe a integração da dermopigmentação
funcional (também conhecida como micropigmentação paramédica) como um serviço
oficial do SUS.
Flávia afirma que o trabalho atua nesse intervalo
em que o tratamento médico já foi concluído, mas os impactos emocionais e na
imagem corporal ainda permanecem. “Não se trata apenas de aparência. É devolver
identidade e qualidade de vida para pessoas que passaram por esses processos”,
conclui.
Flávia Souza - especialista em micropigmentação
paramédica, com atuação voltada à reconstrução da autoestima de pacientes
oncológicos e pessoas com doenças autoimunes. Com formação inicial na área da
saúde, encontrou na técnica uma forma de unir conhecimento técnico e propósito
de vida após enfrentar um grave acidente que a deixou acamada por um ano. Desde
então, dedica-se a devolver identidade, confiança e bem-estar por meio de
procedimentos que vão além da estética, acompanhando uma tendência crescente de
humanização do cuidado.
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