segunda-feira, 23 de março de 2026

Mesmo sendo uma doença evitável, a projeção é de aumento de 13,5% nos casos anuais de câncer de colo do útero no Brasil


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Durante o Março Lilás, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) alerta que o câncer do colo do útero é o terceiro mais incidente entre as mulheres no Brasil, com mais de 19 mil novos casos previstos para cada ano do triênio 2026-2029. Entidade reforça a importância do acesso ao exame HPV-DNA, ao Papanicolau e à vacinação contra o HPV como estratégias para o Brasil atingir as metas propostas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) 

 

Mesmo sendo um dos poucos cânceres com estratégias comprovadamente eficazes de prevenção e rastreamento, o câncer do colo do útero deve apresentar crescimento no número de casos no Brasil nos próximos anos. As novas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que o país passará de 17.010 casos anuais no período (2023-2025) para 19.310 novos diagnósticos anuais no triênio 2026-2028. Comparando os dois períodos, salta de 51.030 para 57.930, um aumento de 13,5%. O dado reforça um paradoxo da saúde pública brasileira, pois enquanto há tecnologias disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) capazes de prevenir a doença, o acesso e a adesão ainda não são suficientes para reverter a tendência de crescimento.

O câncer do colo do útero permanece como o mais frequente entre as neoplasias ginecológicas e ocupa a terceira posição entre todos os tipos de câncer que acometem mulheres no país, atrás apenas dos tumores de mama e colorretal, quando excluídos os casos de câncer de pele não melanoma. Na análise da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), esse cenário exige uma resposta mais coordenada entre vacinação, rastreamento e tratamento oportuno, sobretudo em um momento em que o Brasil dispõe de instrumentos capazes de alterar de forma significativa a história natural da doença. Também é fundamental ampliar o acesso a informações científicas confiáveis, que ajudem a população a compreender as formas de prevenção. Entre elas, destaca-se a vacinação contra o HPV, capaz de reduzir significativamente o risco de câncer do colo do útero e de outros tumores associados ao vírus

O avanço mais recente nessa direção é a incorporação progressiva do exame HPV-DNA no SUS. A tecnologia permite identificar até 14 genótipos do papilomavírus humano antes que o vírus provoque alterações celulares no colo do útero. Diferentemente do exame de Papanicolau, que detecta alterações já estabelecidas, o teste molecular rastreia diretamente o material genético do HPV, inclusive em mulheres assintomáticas, ampliando a capacidade de identificar precocemente aquelas em maior risco.

Conforme observa a cirurgiã oncológica Viviane Rezende de Oliveira, vice-presidente da SBCO, o impacto dessa mudança vai além da sensibilidade diagnóstica. “Ao reduzir significativamente a proporção de resultados inconclusivos, o teste HPV-DNA permite um rastreamento mais organizado e eficiente, com intervalos maiores entre os exames, que passam a ser de cinco anos. Isso também possibilita que o Papanicolau seja utilizado de forma direcionada, principalmente nos casos em que o teste molecular já apontou a presença do vírus”, explica.

Paralelamente ao rastreamento, a vacinação segue como o principal eixo de prevenção primária. Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que a cobertura vacinal contra o HPV em meninas de 9 a 14 anos atingiu 82% no Brasil, um índice significativamente superior à média global, estimada em 12%. Ainda assim, o país permanece abaixo da meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê cobertura de 90% para que o câncer do colo do útero deixe de ser um problema de saúde pública nas próximas décadas. Atualmente, a vacina contra o HPV passou a ser aplicada em dose única no calendário do Ministério da Saúde, o que facilita a adesão e amplia a cobertura vacinal no país.

Além da vacinação e do rastreamento, o diagnóstico precoce tem impacto direto nas opções terapêuticas e nos desfechos clínicos. Nos estádios iniciais, o câncer do colo do útero costuma ser silencioso, o que reforça a importância dos exames preventivos regulares. Quando presentes, os sinais de alerta incluem sangramento vaginal anormal, corrimento com odor desagradável, dor pélvica e desconforto durante as relações sexuais. A principal causa da doença é a infecção persistente pelo HPV, associada a fatores de risco como início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros, tabagismo e histórico familiar.

No campo do tratamento, as estratégias são definidas caso a caso e envolvem cirurgia, radioterapia, quimioterapia, terapias-alvo e imunoterapia. De acordo com o cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes, presidente da SBCO, os avanços recentes ampliaram tanto as chances de controle da doença quanto às possibilidades de preservação da qualidade de vida. “Hoje, dispomos de técnicas cirúrgicas mais precisas, terapias medicamentosas modernas e abordagens combinadas que aumentam as taxas de cura e, em situações selecionadas, permitem preservar a fertilidade e reduzir os impactos do tratamento na vida das pacientes”, afirma Fernandes.

Entre as inovações cirúrgicas, destacam-se procedimentos como a traquelectomia radical, indicada para casos iniciais e que possibilita a retirada do colo do útero com preservação do corpo uterino, e a transposição uterina, ainda em caráter experimental, voltada a pacientes que necessitam de radioterapia após cirurgia e desejam manter a função reprodutiva. As terapias neoadjuvantes, como a quimioterapia antes da cirurgia, também têm sido utilizadas para reduzir o volume tumoral e ampliar a eficácia do tratamento.

No tratamento medicamentoso, as terapias-alvo e a imunoterapia representam um avanço relevante, sobretudo em casos selecionados ou em esestádios mais avançados da doença. Ao bloquear mecanismos específicos do crescimento tumoral ou estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater as células cancerosas, essas abordagens ampliam o arsenal terapêutico disponível no SUS e na saúde suplementar.

A SBCO reforça que a combinação entre vacinação ampla, rastreamento eficiente com tecnologias mais sensíveis e acesso oportuno ao tratamento é o caminho para que o Brasil avance rumo à meta global de eliminação do câncer do colo do útero. O desafio, reforça a entidade durante o Março Lilás, não está na ausência de soluções, mas na capacidade de garantir que elas cheguem de forma equitativa e contínua a toda a população feminina.

 


Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica - SBCO

 

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