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sábado, 26 de julho de 2025

Quando o desconforto vira rotina: a armadilha da adaptação emocional

Psicanalista Tássia Borges explica por que é comum levar tempo para perceber que um ambiente, um trabalho ou uma relação não nos faz bem – e por que recalcular a rota não é sinal de fracasso, mas de saúde mental

 

Dizem que se colocarmos uma rã em uma panela com água fria e aquecermos gradualmente, ela não percebe o aumento da temperatura e morre sem reagir. Se, no entanto, for jogada direto na água quente, salta imediatamente. A história — real ou não — nos convida a refletir sobre algo muito humano: a tendência de nos adaptarmos a situações desconfortáveis até que seja tarde demais.

 

É com essa imagem que a psicanalista Tássia Borges inicia sua reflexão sobre relacionamentos e ambientes tóxicos que muitas vezes toleramos sem perceber. “As pessoas se adaptam ao meio. A convivência contínua com determinadas dinâmicas, comportamentos ou exigências cria a ilusão de que está tudo bem, quando, na verdade, estamos cada vez mais distantes da nossa essência. E isso vale para o trabalho, para a vida afetiva, familiar ou social”, explica.

 

Segundo Tássia, é comum que só se perceba a nocividade de uma situação depois de um episódio mais grave — a famosa “gota d’água”. “Quando há um rompimento ou uma crise, olhamos para trás e pensamos: havia sinais. Mas por que não vimos antes? Muitas vezes, o dano é paulatino, silencioso. A pessoa se acostuma à água morna.”

 

Isso não tem a ver com ingenuidade ou fraqueza, mas com as dinâmicas inconscientes que cada sujeito carrega. “É natural que alguém permaneça em um ‘clã’ — seja uma empresa, um círculo de amigos ou a própria família — mesmo quando esse grupo já não a acolhe, mas a oprime. Romper com isso pode significar solidão, julgamento e até condenação social, detalha Tássia.

 

Na visão da psicanalista, o mais importante é desmistificar a ideia de que perceber tarde ou recalcular a rota é sinal de fracasso. “Vivemos uma cultura da alta performance, em que todos querem demonstrar que sabem tudo, que previram tudo. Mas reconhecer que algo não serve mais e fazer escolhas diferentes é, na verdade, um ato de coragem, seja quando for.”

 

Ela reforça que sair de ambientes tóxicos pode causar dor, mas também abre espaço para reconstruções mais autênticas. “É importante olhar com compaixão para quem demorou a perceber — inclusive para nós mesmos. Porque recalcular a rota é um movimento de saúde, não de derrota.” 

 

Tássia Borges - especialista em assuntos relacionados à saúde mental e o psiquismo – entre eles ansiedade, narcisismo, questões geracionais, de relacionamento, luto, solidão e entraves psíquicos que podem impedir atletas de atingir altas performances. Mestre em Psicologia Clínica pelo Núcleo de Método Psicanalítico e Formações da Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Bacharel em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), ela trabalha com educação e linguagem há mais de 20 anos. Fundou e dirige o Instituto Kleiniano de Psicanálise, cuja missão é compartilhar de modo responsável e especializado os conhecimentos técnico-teóricos da psicanalista austríaca Melanie Klein (1882-1960) bem como de autores que dialogam com seu pensamento.


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