Depois de um longo período de avaliações em que nossos estudantes
precisam aplicar o que aprenderam e ser avaliados nas mais diversas habilidades
e disciplinas, chega o tão esperado período das férias. Há certa polêmica, no
entanto, sobre como devemos manter ou não nosso cérebro aquecido nesse período,
fazendo leituras ou simplesmente descansando por completo.
Para pensarmos sobre essa questão, é interessante olharmos para
duas formas de compreender o mundo que têm impactado o modo como aprendemos: a
neurociência e a psicanálise bioenergética.
A grosso modo, podemos dizer que os neurocientistas têm
investigado, no último século, a maneira como o processo de estudo e
aprendizagem pode afetar o funcionamento do nosso cérebro.
Algumas contribuições já comprovadas desses estudos incluem as
descobertas de que precisamos estabelecer vínculo emocional com o que estamos
aprendendo para aprendermos melhor e que, como afirma o Prof. Dr. Fernando
Mazzili Louzada, do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal do
Paraná, conhecer a realidade e construir conhecimento sólido sobre ela é como
abrir uma trilha numa floresta. Isso quer dizer que quanto mais atravessamos
uma picada na mata, mais fácil fica passar por ela ao longo do tempo. Ou seja,
quanto mais formas diferentes usamos para acessar uma informação, maiores as
chances de nos apropriarmos dela como conhecimento.
Da mesma maneira, os caminhos que não utilizamos vão se fechando,
gradualmente dificultando o acesso a certas regiões. Essa metáfora nos ajuda a
compreender como nosso sistema neuronal lida com o que aprendemos. E essa
aprendizagem obviamente está relacionada à qualidade das interações que são
oferecidas em aula em ambiente escolar, mas não somente isso.
Há outras formas de nos aventurarmos por esses caminhos, mesmo
quando estamos sozinhos. Quando estou, por exemplo, em contato com um livro,
filme, ou mesmo diante de um jogo de videogame que tenha uma estrutura
narrativa ou mecânica complexa, podemos realizar as mesmas ligações e conexões
sinápticas para aprender coisas novas. E a neurociência também nos diz que,
quanto mais fizermos isso juntos, em comunidade, e conversamos a respeito do
que vimos, mais sofisticadas ficarão essas ligações.
Um contraponto a esse olhar sobre como adquirimos informações,
porém, é o pensamento bioenergético. Já é muito popular dentro do mundo do
trabalho na contemporaneidade esse discurso sobre a maneira como nossas crenças
e valores podem afetar a qualidade do que produzimos, o que a professora de
psicologia de Lewis e Virginia Eaton, na Universidade de Stanford, Carol Dweck,
chamou de mindset.
No entanto, a bioenergética, uma técnica desenvolvida pelo
psicanalista estadunidense Alexander Lowen, se propõe como uma dissidência
desse olhar ao considerar o corpo e nossa bioeletricidade na maneira como
encaramos as situações que vivemos, relembrando a importância de nossa
estrutura corporal nesse fenômeno.
Isso quer dizer que estimular apenas a mente não basta e, para
aprendermos melhor, necessariamente precisamos mudar esquemas e concepções
mentais. Mas estas também se manifestam pelas emoções e experiências que
tivemos com nosso corpo, o que temos chamado de bodyset. Não há como
lidar com um sem alterar o outro, como se os dois fossem duas faces de uma
mesma moeda.
E de que maneira esse confronto entre esses dois olhares pode
direcionar o modo como pensamos sobre leitura nas férias?
Se seguirmos as abordagens mais tradicionais de leitura, centradas
nos materiais impressos e livros de papel, tomando essa visão essencialista de
que “aluno bom é aquele que lê livros grandes durante as férias”, podemos estar
reproduzindo estereótipos ultrapassados do que é ler e de como se realiza a
experiência de leitura que não são mais condizentes com o modo como as atuais
gerações de jovens leem. Não se trata de descartar completamente os livros, nem
de glamourizá-los como alta cultura, mas sim de incluir no debate sobre o que
pode ser lido em outros formatos e novas experiências coletivamente.
Nesse sentido, descansar e dormir um pouco mais pode ser sim um
meio muito produtivo para o restabelecimento do corpo durante o período de
férias, se considerarmos que o funcionamento saudável da mente está associado a
ele. Porém a provocação que fica é: por que não incluir experiências e
vivências de leitura de livros e de outros formatos que também possam nos
estimular a saber mais sobre realidades desconhecidas e nos conectarmos a elas?
Por essa perspectiva, visitar museus com a mediação de educadores ou mesmo
viajar para lugares próximos, mas desconhecidos, podem ser experiências ricas
de leitura.
Até mesmo jogar um game mais complexo ou assistir a uma série num canal de streaming e depois conversar sobre o assunto podem ser modos significativos de estimular nossa atividade cerebral e aproveitar as férias como um momento importante de pausa sem, no entanto, deixar se apagar uma certa curiosidade e um desejo de saber sobre o mundo que podem ser muito proveitosos para o modo como aprendemos.
João Reynaldo Pires Junior
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