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terça-feira, 2 de junho de 2026

Uso de proteção contra risco político por multinacionais deve subir de 68% para 80% até 2030, aponta Howden

Levantamento mostra que 51% das multinacionais já sofreram perdas em investimentos internacionais e que seguro pode reduzir custos e prejuízos; 

Média de investimento internacional anual é de US$ 50 milhões entre setores 

 

A adoção de ferramentas de gestão de risco político por multinacionais deve crescer significativamente nesta década, passando de 68% no período de 2020 a 2025 para 80% entre 2025 e 2030, segundo levantamento da Howden, corretora global de seguros especializada em riscos de alta complexidade. A pesquisa ouviu cerca de 500 executivos responsáveis por gestão de riscos e tesouraria em multinacionais dos Estados Unidos, Reino Unido e França, todas com receita superior a US$1 bilhão e investimento médio de US$50 milhões na internacionalização de suas marcas.

 

Os dados fazem parte do estudo “Stepping up: Political risk insurance in a volatile world”, desdobramento do relatório global da Howden “Opportunity in Flux”, que analisa como a combinação de tensões geopolíticas, fragmentação do comércio, reconfiguração de cadeias globais e maior volatilidade econômica está redefinindo decisões de investimento e ampliando a exposição a riscos políticos. Entre os setores ouvidos estão Energia, Farmacêuticas e Saúde, Indústria e Exportação, Construção, Serviços, Agricultura e Telecomunicações. 

 

Nesse contexto, o relatório aponta que o mundo passa por uma transição para uma ordem mais fragmentada e multipolar, em que conflitos, políticas protecionistas e disputas por recursos estratégicos aumentam a incerteza e pressionam empresas a reforçar mecanismos de proteção para suas operações internacionais. “O ambiente global se tornou mais imprevisível, e isso está mudando a forma como as empresas tomam decisões. O risco político deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar um papel central na estratégia de investimento internacional”, afirma Andoni Hernández, CEO da Howden Brasil, filial da corretora global.


 

Perdas e impacto financeiro

 

O levantamento mostra que o risco já se materializou para uma parcela relevante das companhias: 51% das multinacionais relataram ter sofrido ao menos uma perda associada a risco político em investimentos internacionais entre 2020 e 2025.

 

Entre os principais impactos estão o atraso ou impossibilidade de converter moeda local ou repatriar recursos (40%), interferência de governos estrangeiros em direitos de propriedade (40%) e abandono forçado de ativos no exterior por causa de violência política (33%).

 

Como uma mesma empresa pode ter enfrentado mais de um tipo de evento, as categorias de perdas não são mutuamente exclusivas e, por isso, os percentuais não somam 100%.

 

Além da frequência dos eventos, o estudo aponta para o potencial de perdas relevantes. Em alguns casos, companhias reportaram prejuízos superiores a US$100 milhões em projetos internacionais, evidenciando a natureza de baixa frequência, mas alto impacto, típica desse tipo de risco.

 

Segundo a Howden, o uso de seguro de risco político tem contribuído para mitigar esses impactos. Empresas que contrataram proteção reportaram perdas médias de ao menos US$1,4 milhão menores do que aquelas sem cobertura no período analisado.

 

Além de reduzir perdas, o seguro também tem impacto direto na viabilidade financeira dos projetos. De acordo com o levantamento, a contratação pode reduzir o custo de capital em mercados emergentes de cerca de 15% para 11%, gerando uma economia média anual de aproximadamente US$2 milhões por investimento.

 

O relatório “Opportunity in Flux”, por sua vez, destaca ainda que, em um ambiente de maior restrição de crédito e aumento do custo de financiamento, instrumentos que reduzam risco e capital exigido tendem a ganhar relevância, ampliando o papel do seguro não apenas como proteção, mas como ferramenta financeira. “Não se trata apenas de proteção contra eventos extremos. O seguro de risco político também melhora a estrutura financeira dos projetos, ao reduzir o custo de capital e ampliar o acesso a investimento em mercados mais complexos”, diz o executivo da Howden Brasil.


 

Além do risco político

 

De acordo com o executivo, no contexto do mercado, o termo “risco político” não se limita a mudanças de governo ou instabilidade institucional. Essa categoria de seguro abrange uma série de eventos que podem impactar diretamente operações no país, como protestos, bloqueios logísticos, ocupações, episódios de violência política, interferências regulatórias e restrições à movimentação de recursos. Casos recentes no Brasil ilustram essa dinâmica: em fevereiro de 2026, a operação da Cargill em Santarém (PA) foi afetada por manifestações e bloqueios que interromperam o acesso ao terminal portuário, gerando paralisação das atividades e danos a ativos. “São situações que podem ser enquadradas em coberturas de violência política e interrupção de negócios”, ressalta.


 

Desconhecimento ainda limita adoção

 

Apesar dos benefícios, a adoção ainda enfrenta barreiras. O levantamento aponta que 73% das multinacionais que não contrataram seguro de risco político entre 2020 e 2025 citam a falta de entendimento sobre o produto como principal obstáculo.

 

Para a Howden, esse dado evidencia um descompasso entre a crescente exposição a riscos e o nível de maturidade das estratégias de proteção adotadas pelas empresas.

 

“A demanda está crescendo, mas ainda existe uma lacuna importante de entendimento. Parte relevante das empresas ainda não incorporou plenamente o risco político na sua estratégia, mesmo já tendo sido impactada por ele”, afirma Andoni Hernández.

 

Howden Brasil

 

Inclusão de pessoas com autismo nos ambientes de trabalho exige informação, empatia e mudanças práticas no dia a dia

 

Baixa inserção de pessoas com autismo e outros transtornos neurodivergentes no país evidencia o desafio de inclusão no mercado de trabalho formal e a necessidade de mudanças estruturais nas empresas

 

A inclusão de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no mercado de trabalho ainda enfrenta barreiras estruturais, como a falta de informação, o preconceito e a ausência de adaptações no ambiente corporativo. No Brasil, onde vivem cerca de 2,4 milhões de pessoas autistas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que apenas duas em cada dez tenham emprego formal. Esse dado evidencia a baixa inserção dessa população no mercado de trabalho e os desafios para sua inclusão produtiva.


Embora a legislação brasileira reconheça, desde 2012, autistas como pessoas com deficiência e garanta sua inclusão na Lei de Cotas, a efetividade dessa política ainda é limitada. Como o IBGE não dispõe de estatísticas completas sobre a empregabilidade dessa população, recorrem-se a estudos independentes, como o Mapa Autismo Brasil, que aponta dificuldades significativas de inserção social e baixa autonomia econômica entre adultos autistas. Esse cenário é parcialmente explicado por indicadores educacionais: apenas 15,7% das pessoas autistas com 25 anos ou mais concluíram o ensino superior, percentual inferior à média da população geral.


Para a Dra. Mariana Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, é essencial a necessidade de mudanças na forma como as empresas estruturam seus processos de recrutamento e gestão de pessoas. “As entrevistas de emprego tradicionais ainda são muito baseadas em habilidades sociais e na comunicação sob pressão, o que pode excluir candidatos autistas altamente qualificados. Precisamos de processos mais objetivos, com critérios claros e avaliações práticas que permitam uma análise real das competências”, afirma a especialista.


A psicóloga  também ressalta que a inclusão não se encerra na contratação, dependendo de adaptações contínuas no ambiente de trabalho. “A permanência desses profissionais depende de ajustes simples, mas fundamentais, como reduzir estímulos sensoriais excessivos, estabelecer rotinas previsíveis e adotar uma comunicação direta. Quando há sobrecarga sensorial, por exemplo, o mais importante é agir com calma, reduzir os estímulos e respeitar o tempo da pessoa”, explica Dra. Mariana. 


"A adoção dessas práticas, além de promover um ambiente mais acolhedor, também traz ganhos concretos para as empresas, já que pessoas com TEA frequentemente apresentam alta capacidade de concentração, atenção aos detalhes e pensamento lógico, competências valorizadas em diversas áreas ", enfatiza.


A profissional acrescenta, ainda, que a falta de preparo de equipes e lideranças ainda é um dos principais obstáculos, reforçando a importância de treinamentos e de uma cultura organizacional mais aberta à neurodiversidade.


Para a professora da Afya, um dos erros mais recorrentes é tratar todos os colaboradores de forma uniforme, ignorando necessidades específicas. De acordo com ela, o caminho para uma inclusão real está na oferta de condições adequadas para que cada profissional possa desenvolver seu potencial. Ela explica que a construção de ambientes mais inclusivos depende de uma mudança cultural contínua. “A inclusão não acontece em um único gesto. Ela é construída todos os dias, em cada interação, cada decisão e cada escolha de como tratamos o outro”, conclui a especialista. 



Afya
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77 milhões de pessoas seriam abastecidas com água perdida no Brasil, enquanto o país segue longe da meta de eficiência

 

  • Esse volume perdido corresponde a mais de duas vezes o total de brasileiros sem acesso ao abastecimento de água (cerca de 33 milhões de pessoas) e a mais de um quarto da população do país em 2024;
  • Reduzir as perdas totais dos atuais 39,53% para 25% economizaria 2,8 bilhões de m³ de água por ano, volume capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos;
  • O volume total de água referente às perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) é equivalente a 4,8 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente ou ao conteúdo de 16,2 milhões de caixas d'água para uma família de cinco pessoas desperdiçadas por dia;
  • 12 dos 100 municípios mais populosos do Brasil atendem às metas de 25% em perdas na distribuição e 216 L/ligação/dia em perdas por ligação, entre eles as capitais Goiânia (GO), Teresina (PI) e Campo Grande (MS);
Redução de perdas de água de 39,53% para 25% resultaria em ganhos de R$ 47,3 bilhões até 2033;
  • A eficiência no controle é uma medida de adaptação climática que aumenta a disponibilidade hídrica e reduz a pressão sobre os mananciais;

 

O Instituto Trata Brasil (ITB), em parceria com a consultoria GO Associados, publica o “Estudo de Perdas de Água 2026 (SINISA, 2024): Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil”, que traz o panorama do problema ambiental, econômico e social da ineficiência no controle de perdas de água em nosso país. 

Em meio ao agravamento das mudanças climáticas e cerca de 33 milhões de habitantes sem acesso à água potável, o país desperdiça 39,53% da água tratada antes mesmo que ela chegue às torneiras das famílias. O estudo aponta que o volume de perdas físicas em 2024 (cerca de 4,4 bilhões de m³) equivale a 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia. Para ter uma ideia do que isso representa, esse mesmo volume corresponde a 16,2 milhões de caixas d'água para uma família de cinco pessoas por dia ou a 4,5 vezes o volume do Sistema Cantareira ao longo de um ano. 

O levantamento foi elaborado a partir de dados públicos do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA, ano-base 2024) e compreende uma análise do Brasil, de suas cinco macrorregiões, das 27 Unidades da Federação e dos 100 municípios mais populosos do país (incluindo as capitais dos estados), que figuraram no Ranking do Saneamento de 2026.

 

O QUE É PERDA DE ÁGUA?

No processo de abastecimento de água, podem ocorrer perdas por vários motivos, como vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados. Esses desperdícios trazem impactos negativos ao meio ambiente, à receita e aos custos de produção das empresas, o que deixa mais caro o sistema como um todo, prejudicando, em última instância, todos os usuários.

Quadro 1 - Características dos Indicadores Analisados

Elaboração: GO Associados


Então o ideal seria termos zero de perdas de água? Apesar da resposta ser sim, de acordo com a literatura sobre o tema, não ter perdas no sistema é algo inviável por limites econômicos (em determinado ponto, o custo fica superior ao do volume recuperado) e limites técnicos (existe um volume mínimo de perdas dadas as tecnologias atuais de materiais, ferramentas e logística). 

No Brasil, o Ministério das Cidades editou a Portaria MCID nº 788, de 1º de agosto de 2024 (Portaria 788/2024), revogando e substituindo a Portaria nº 490, de 22 de março de 2021 (Portaria 490/2021), anteriormente editada pelo então Ministério do Desenvolvimento Regional. A Portaria 788/2024 passou a estabelecer metas para os indicadores de perdas na distribuição e perdas por ligação. Segundo o normativo, os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou financiamentos com recursos da União deverão apresentar indicadores iguais ou inferiores a:

  1. 35% e 303,0 L/ligação/dia até 2025;
  2. 30% e 263,0 L/ligação/dia entre 2026 e 2032;
  3. 25% e 216,0 L/ligação/dia a partir de 2033.

 

IMPACTO DAS PERDAS DE ÁGUA NO BRASIL

Para entender o impacto do controle de perdas, considerando-se somente as perdas físicas (como, por exemplo, os vazamentos), o volume (cerca de 4,4 bilhões de m³) seria suficiente para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros em um ano. Esta quantidade não somente equivale a mais de um quarto da população do país em 2024, como também corresponde a mais de duas vezes o número de habitantes sem acesso ao abastecimento de água nesse ano, cuja grandeza situa-se em torno de 33 milhões. 

Além disso, com esse mesmo volume, seria possível abastecer os 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos. Ao meio ambiente, a redução dessas perdas implicaria a disponibilidade de mais recurso hídrico para a população sem a necessidade de captação de água em novos mananciais. 

Com o cenário de mudanças climáticas, os desafios para a disponibilidade hídrica nos mananciais se tornam cada vez mais evidentes. As perdas reais afetam diretamente os custos de produção e a demanda por água. Neste sentido, um elevado nível destas perdas equivale a uma captação e a uma produção superiores ao volume efetivamente demandado, gerando as seguintes ineficiências:

 

Quadro 2 – Impactos na produção de água e no meio ambiente das perdas de água

Desequilíbrios na produção de água

Desequilíbrios ambientais

  • Maior custo dos insumos químicos, energia para bombeamento, entre outros fatores de produção
  • Maior custo de manutenção da rede e de equipamentos
  • Uso excessivo da capacidade de produção e de distribuição existente
  • Maior custo oriundo da possível utilização de fontes de abastecimento alternativas de menor qualidade ou de difícil acesso
  • Pressão excessiva sobre as fontes de abastecimento do recurso hídrico, uma vez que se capta mais água do que efetivamente chega à população
  • Maior custo posterior para mitigação dos impactos negativos dessa atividade (externalidades)
Fonte: Instituto Trata Brasil

 

BENEFÍCIOS SOCIAIS COM A REDUÇÃO DE PERDAS

O Quadro 3 a seguir aponta as principais estatísticas descritivas a partir da redução de perdas, desagregadas por estado. Ao se admitir não uma eliminação total das perdas, mas uma redução dos atuais 39,5% aos 25% previstos pela Portaria 788/2024, o volume economizado seria da ordem de 2,8 bilhão de m3. Isso equivale ao consumo médio de aproximadamente 48 milhões de brasileiros em um ano.

 

Quadro 3 - Benefícios sociais da redução de perdas por estado em 2024

Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados. Nota: a população potencialmente atendida é calculada considerando-se somente as perdas físicas, e uma redução das perdas totais de água na distribuição (IAG2013) até a meta de 25% definida na Portaria 788/2024.

CENÁRIO NACIONAL DE PERDAS NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS

O indicador mais comumente utilizado para a análise geral de perdas no país é o Índice de Perdas na Distribuição, que busca estabelecer uma relação entre a água produzida e a água efetivamente consumida nas residências. Considerando os últimos cinco anos, o valor de 2024, de 39,53%, é ligeiramente menor que o de 2020, de 40,14%, ambos significativamente superior à meta de 25%.

 

Quadro 4 – Evolução das Perdas na Distribuição no Brasil, 2020–2024

Fontes: SNIS (2020-2022); SINISA (2023-2024). Elaboração: GO Associados.

RECORTE POR REGIÃO

A situação de perdas no Brasil apresenta significativas diferenças quando se comparam suas diversas macrorregiões. É possível concluir que Norte e Nordeste são as mais carentes e que devem enfrentar os maiores desafios para reduzirem seus índices de perdas. Além disso, essas regiões também são aquelas que possuem os piores indicadores de atendimento de água, de coleta e de tratamento de esgotos.

 

Quadro 5 – Perdas na Distribuição por Macrorregião Brasileira, 2024


Fontes: SINISA 2024. Elaboração: GO Associados.

De 2020 a 2024, a macrorregião que mais apresentou piora foi a Nordeste, com aumento de 0,46 ponto percentual. Por outro lado, observa-se melhora na macrorregião Norte, com redução de 1,79 pontos percentuais no mesmo período.

 

Quadro 6 – Evolução das Perdas na Distribuição por Macrorregião

Fontes: SNIS (2020-2022); SINISA (2023-2024). Elaboração: GO Associados.


RECORTE DE INDICADORES POR ESTADO

A análise comparativa dos indicadores estaduais de perdas na distribuição evidencia a variação do desempenho entre as unidades federativas, identificando padrões regionais, diferenças estruturais entre os sistemas de abastecimento e potenciais implicações para a eficiência operacional dos prestadores. A leitura do indicador permite uma compreensão mais abrangente do estágio de controle de perdas no país. 


Quadro 7 – Perdas na Distribuição por estado, 2024


Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados.


A análise evidencia um padrão de maior ineficiência concentrado principalmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%), Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%), apresentam níveis de perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da média nacional (39,53%). 

Por outro lado, estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país, como Goiás (27,61%), Mato Grosso do Sul (30,60%), Distrito Federal (31,55%), São Paulo (32,15%), e Paraná (33,11%) registram indicadores inferiores a 35%. Neste indicador, merece destaque o estado do Piauí, que possui a menor média entre os estados (24,61%), e Tocantins, com a quinta menor média entre as unidades da federação para este indicador (31,58%).

 

RECORTE PARA OS 100 MAIORES MUNICÍPIOS BRASILEIROS

O indicador médio computado na amostra foi de 35,56% em 2024, o que representa uma piora em relação aos 31,09% computados em 2023. Dos 99 municípios considerados, apenas 20 possuem níveis de perdas na distribuição menores que 25%. Os dados mostram ainda que 14 municípios têm perdas na distribuição superiores a 50%. 

É possível observar uma forte concentração dos melhores desempenhos nos estados do Sudeste, que concentram 12 dos 20 municípios com menores índices de perdas na distribuição. Municípios como Suzano (1,27%) e Santos (5,35%), apresentam níveis significativamente inferiores à média nacional.

 

Quadro 8 – Melhores municipios em perdas de água

Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados.


Por outro lado, os municípios com piores resultados estão majoritariamente localizados nas regiões Norte e Nordeste, com destaque para Parauapebas (PA), com 70,68%, e Maceió, com 64,05%. Além disso, outras cidades de diferentes regiões também apresentam perdas significativas, com destaque para Belo Horizonte, com 68,29% e Várzea Grande (MT), com 59,03%.

 

Quadro 9 – Destaques negativos no Índice de Perdas na Distribuição

Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados.

 

MUNICÍPIOS NOS PADRÕES DE EXCELÊNCIA

Conforme a já mencionada Portaria 788/2024, são considerados excelentes os municípios que contam com até 25% em perdas na distribuição e de 216 L/ligação/dia em perdas por ligação.

 

Quadro 10 – Municípios com Padrões de Excelência em Perdas de Água

Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados.

 Somente doze dentre os 100 municípios mais populosos do Brasil atendiam às metas da Portaria 788/2024 simultaneamente em 2024, indicando haver um longo caminho a ser percorrido na busca pela redução das perdas de água.

 

RECORTE PARA AS CAPITAIS BRASILEIRAS

Apenas quatro das 27 capitais, Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina, apresentaram valores inferiores à meta de 25% estabelecida pela Portaria 788/2024. A média das capitais foi de 39,30%.

 

Quadro 11: Principais Indicadores de Perdas de Água das Capitais Brasileiras

 

Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados. Nota: a população potencialmente atendida é calculada considerando-se somente as perdas físicas, e uma redução das perdas totais de água na distribuição (IAG2013) até a meta de 25% definida na Portaria 788/2024.

Estima-se que as capitais brasileiras percam anualmente cerca de 2,3 bilhões de m³ de água, dos quais aproximadamente 0,9 bilhão de m³ (40%) correspondam a perdas aparentes (comerciais), enquanto 1,4 bilhão de m³ (60%) refiram-se a perdas reais (físicas). Considerando-se apenas estas últimas, o volume desperdiçado equivale a cerca de 1.517 piscinas olímpicas por dia, ou a mais de cinco milhões de caixas d’água de 750 litros.

 

GANHOS ECONÔMICOS COM A REDUÇÃO DAS PERDAS DE ÁGUA POTÁVEL

Para calcular os ganhos econômicos ao país pela redução de perdas, o estudo apresentou uma análise de três cenários: o otimista, o realista e o pessimista. Cada um deles responde à média nacional do nível de perdas a ser alcançada em 2033: 15% (cenário otimista), 25% (cenário realista) e 35% (cenário pessimista).

 

Quadro 12 – Sumário dos Impactos de Redução das Perdas

Fonte: SINISA (2024). Elaboração: GO Associados


Tomando como referência o Cenário Realista, é possível constatar que existe um potencial de ganhos brutos com a redução de perdas de água de R$ 47,3 bilhões até 2033. Caso sejam considerados os investimentos necessários para a redução de perdas, o benefício líquido gerado pela redução de perdas é da ordem de R$ 23,6 bilhões em 10 anos.

 

CONCLUSÃO

A melhor gestão e eficiência nos sistemas de distribuição estão diretamente ligadas à universalização do saneamento básico. Combater as perdas é, antes de tudo, garantir o acesso pleno à água para todos os brasileiros, proteger os mananciais e responder aos efeitos das mudanças climáticas com a infraestrutura que o país já tem, mas ainda desperdiça. 

O estudo evidencia que as perdas de água permanecem em níveis elevados no país. Em 2024, as perdas na distribuição foram de 39,53%, enquanto as perdas por ligação foram de 349,09 L/dia/ligação, valores significativamente superiores aos parâmetros de eficiência estabelecidos pela Portaria 788/2024, de 25% e 216 L/ligação/dia, respectivamente. As desigualdades regionais permanecem como um dos principais desafios para a universalização dos serviços de saneamento básico no Brasil, e as regiões Norte e Nordeste seguem concentrando os indicadores mais elevados de perdas de água. 

Em uma realidade que já se faz presente, os efeitos das mudanças climáticas refletem em impactos diretos no acesso à água potável. A redução das perdas contribui para mitigar a necessidade de expansão de mananciais e aumenta a resiliência dos sistemas de abastecimento em um contexto de crescente pressão sobre os recursos hídricos. Além disso, menores níveis de perdas tendem a ampliar a sustentabilidade econômico-financeira dos prestadores, reduzindo pressões sobre tarifas futuras e liberando recursos para investimentos em expansão, manutenção e melhoria dos serviços. 

Para tanto, é necessário priorizar essa agenda com a implementação de programas que unam eficiência e inovação e, consequentemente, acelerar o ritmo dos investimentos para que o Brasil atinja a meta de 25% em perdas na distribuição até 2033, conforme previsto pela Portaria 788/2024. 

"Seguimos perdendo, a cada ano, água suficiente para abastecer populações inteiras, enquanto milhões de brasileiros ainda não têm acesso a esse recurso básico e essencial para a vida. Estamos falando de um volume capaz de atender 77 milhões de habitantes, número que representa mais de duas vezes a quantidade de pessoas sem acesso ao abastecimento de água no país. São casas que ficam sem abastecimento, rios que secam uma sobrecarga em todo o sistema de distribuição que recai, inevitavelmente, sobre os habitantes. Reduzir perdas de água é uma escolha de gestão que impacta diretamente a qualidade de vida da população e a saúde dos nossos mananciais, especialmente em um cenário em que as mudanças climáticas já pressionam a disponibilidade hídrica e tornam a eficiência no uso da água ainda mais urgente. Em um ano eleitoral, esse debate precisa chegar às propostas de saneamento integrado, porque não há universalização possível sem eficiência na distribuição da água que já produzimos." – analisa Luana Pretto, Presidente-Executiva do Trata Brasil. 

“A redução das perdas de água deixou de ser apenas uma agenda de eficiência operacional no setor de saneamento básico e passou a ocupar um papel estratégico na adaptação climática dos municípios. Em um contexto internacional em que parte do setor privado e de governos tem abandonado compromissos ambientais, torna-se ainda mais importante fortalecer políticas públicas capazes de conciliar a expansão do atendimento às populações ainda sem acesso ao abastecimento de água e aos serviços de coleta e tratamento de esgotos com segurança hídrica e preservação ambiental. Nesse sentido, reduzir perdas significa utilizar de forma mais racional a água já captada e tratada, diminuindo a pressão sobre os mananciais, reduzindo custos operacionais e aumentando a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a eventos climáticos extremos.” – declara Gesner Oliveira, Sócio Executivo da GO Associados.

 

Instituto Trata Brasil - ITB





O Enem virou prova de leitura de mundo. E isso escancara uma desigualdade silenciosa


No primeiro lote de redações que corrigi neste ano, uma aluna de uma cidade pequena do interior escreveu sobre soberania alimentar citando a guerra na Ucrânia, o bloqueio dos portos do Mar Negro, a alta do trigo em 2022 e os efeitos no preço do pão no Brasil. Tirou nota acima de 950. No mesmo lote, um aluno de uma escola pública escreveu sobre fome sem mencionar nenhum conflito internacional, sem nenhum dado, sem nenhuma referência ao mundo dos últimos cinco anos. Ficou na faixa dos 700. As exceções existem e elas confirmam a regra que ninguém quer enunciar em voz alta: o Enem deixou de ser prova de conteúdo. Virou prova de repertório de mundo. E repertório, diferente de conteúdo, não está distribuído de forma igualitária. 

A última década de provas explicita essa virada. Em ciências humanas, atualidades como Oriente Médio, transição energética e crise migratória apareceram em todas as edições recentes. Os temas de redação migraram de questões sociais amplas para recortes cada vez mais específicos e conjunturais — invisibilidade do trabalho de cuidado, herança africana, valorização de povos tradicionais — que recompensam quem acompanha o debate público com regularidade. Mesmo o Enem 2025, criticado por reduzir a presença direta da geopolítica e ignorar a COP-30 que acontecia em Belém durante a aplicação da prova, manteve o exame organizado em torno de leitura de mundo: do clima à democracia, das migrações ao espaço urbano. Em 2026, com a escalada Israel-Irã, o terceiro ano da guerra na Ucrânia e a recomposição da política externa americana redesenhando alianças, é improvável que a tendência mude. 

O problema é o que essa virada exige do estudante antes da prova começar. Acompanhar o mundo de forma que ele vire repertório utilizável em redação não é assistir ao noticiário. É ter mediação adulta que explique contexto. É ter tempo livre para ler uma análise longa. É ter acesso a fontes confiáveis e a alguém que diga qual fonte é confiável. É ter conversado sobre Israel e Palestina, sobre eleição americana — no jantar, antes do tema cair na prova. Tudo isso é capital cultural — e capital cultural, sociólogos sabem há cinquenta anos, se herda. O aluno cuja família lê jornal chega na sala de aula com um repertório que a escola, sozinha, não constrói em três anos de ensino médio. 

Os números do último ENEM (2024) deixam claro que essa desigualdade não é pontual, é estrutural. Uma análise inédita feita pela Descomplica a partir dos microdados do Inep, considerando 1,19 milhão de concluintes com escola identificada, mostra que a rede privada supera a pública em 85,5 pontos na média das provas objetivas — vantagem de 17,5%. 

O abismo cresce justamente onde o repertório pesa mais: são 175 pontos a mais em Redação (+29,4%) e 120 em Matemática (+24,3%). Em Linguagens e Códigos, área que ainda se sustenta no que se aprende dentro da sala, o gap cai para 59 pontos (+11,6%). No topo, a desigualdade explode: 86,5% do 1% melhor colocado do país vem da rede privada — que responde por apenas 20,5% do universo de candidatos. 

As escolas federais aparecem acima das estaduais em todas as áreas, mas seguem abaixo da privada. A geografia do gap também tem um padrão claro: Tocantins, Piauí, Ceará e Amazonas registram diferenças acima de 97 pontos entre as redes; Rondônia, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio Grande do Norte ficam abaixo de 70. Não é uma diferença de inteligência. É uma diferença de quanto mundo entrou na casa do estudante antes dele sentar para fazer a prova. 

Essa é uma conta que ainda aparece pouco de forma explícita na política educacional, mas que cursinhos, escolas, professores e plataformas de ensino precisam encarar de frente. Se o exame mais democrático do país — porque é o passaporte para a universidade pública — passou a medir justamente o que mais correlaciona com origem social, então a função de quem ensina mudou: não basta mais cobrir o conteúdo curricular, é preciso entregar o mundo. 

Quem corrige redação em escala vê esse padrão se repetir todos os dias. Os alunos que pontuam alto não são, na média, os que sabem mais matérias, e sim os que sabem mais do mundo. E, nas regiões e classes onde o mundo não chega via família, ele precisa chegar via ensino. Essa é a única forma de impedir que o Enem, criado para abrir portas, acabe funcionando como um filtro silencioso de origem. 

A distância existe, está aumentando e é, sim, transponível. Mas só se pararmos de fingir que o Enem está medindo apenas conteúdo escolar e começarmos a ensinar leitura de mundo como o que ela é hoje no exame: matéria obrigatória.




Rafael Cunha -professor de redação da Descomplica e um dos nomes mais reconhecidos da educação digital no Brasil, com mais de 25 anos de experiência em ensino e tecnologia educacional. Formado em Direito pela UERJ, também atuou como Chief Learning Officer da edtech e liderou iniciativas de inovação em educação pública e privada. Em 2021, ganhou destaque nacional ao se tornar o primeiro participante a chegar à pergunta final do quadro “Quem Quer Ser um Milionário”, no Domingão com Huck.


Cláudio Hansen - professor e gerente pedagógico da Descomplica, com atuação voltada ao desenvolvimento de metodologias de ensino e estratégias de aprendizagem para vestibulares e Enem. Com experiência em educação e gestão acadêmica, trabalha diretamente na construção de conteúdos e no acompanhamento pedagógico de alunos em todo o Brasil. Ao longo da trajetória na edtech, consolidou-se como uma das vozes da Descomplica em temas ligados à educação, preparação para provas e comportamento dos estudantes.

 

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