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Principal
forma de ataque são as piadas por características físicas, conforme 71% dos
entrevistados
No
home office, 45% dos entrevistados admite que a prática do bullying apenas se
modificou, passando a se apresentar de outras formas
O bullying já é um tema amplamente discutido,
especialmente quando se fala de ambiente escolar. No entanto, a prática do
bullying extrapola os limites das escolas, sendo os espaços de trabalho um dos
grandes exemplos de locais em que o comportamento é propagado.
Enquanto se caminha para um avanço da conscientização
sobre o assunto, no Brasil, desde o dia 15 de janeiro de 2024, o bullying e o
cyberbullying são considerados como crimes, previstos por lei e com diferentes
punições, de acordo com o devido julgamento dos casos. Em relação ao ambiente
de trabalho, a discussão sobre bullying segue em evolução, mas sem deixar de
ser encarada como um tabu e ou mesmo com negação por muitas instituições. No
entanto, pelo menos 44% dos brasileiros entrevistados afirmam já terem sofrido
bullying no trabalho e 71% disseram já terem presenciado ou saber de agressões
pelas quais os colegas passaram.
A pesquisa é da Onlinecurriculo, plataforma de
currículos online que investigou a presença do bullying nas empresas, buscando
entender se o comportamento está sendo praticado no ambiente de trabalho, o que
leva os membros de uma equipe a propagarem o comportamento e como as
instituições lidam com as situações internamente.
Vamos falar sobre bullying?
Para que a discussão sobre bullying se popularize, é
preciso que o tema chegue ao alcance de cada vez mais trabalhadores. Desta
forma, é possível que muitas pessoas que passam pela situação consigam entender
e classificar as agressões como o crime que são. Uma forma de tornar o assunto
acessível, é falar sobre os casos conhecidos e as próprias experiências.
Dentre os entrevistados que já sofreram bullying no trabalho,
33% disseram que as agressões aconteceram no passado, enquanto 10% relataram
que ainda passam pelos ataques atualmente. Reforçando a importância da
disseminação da informação, 15% dos respondentes ficam em dúvida se foram
vítimas, pois não sabem avaliar se as situações pelas quais passaram podem ser
classificadas como bullying.
Em relação aos outros membros da equipe, 34% já
presenciaram os colegas sofrendo bullying mais de uma vez; 20% testemunharam
uma vez; 17% não presenciaram, mas sabem de situações que aconteceram com os
colegas; 7% não sabem avaliar se as situações podem ser caracterizadas
como bullying, e 21% disseram nunca ter presenciado.
Quem é o agressor?
Quando se problematiza um assunto, especialmente aqueles
delicados que envolvem o ataque ao outro, e que podem trazer consequências
severas à saúde mental e ao bem-estar das vítimas, pode ser difícil reconhecer
as pessoas que estão no papel de agressor. No caso do bullying, em que os
ataques podem ser sutis, estando disfarçados de piadas ou brincadeiras, muitas
vezes é necessário que seja feita uma autocrítica para se entender se é apenas
o outro que está disseminando o comportamento.
Neste sentido, colocando o olhar sobre as próprias
atitudes, 27% dos entrevistados reconhecem que já praticaram bullying com
seus colegas de trabalho; 15% não sabem avaliar se seu comportamento poderia
ser avaliado como bullying, e 4% admitem que praticam a agressão atualmente. Em
contrapartida, trazendo um panorama mais positivo, 55% dos participantes do
estudo acreditam que nunca tenham praticado.
Em relação a quem reproduz o comportamento dentro das
empresas, os colaboradores aparecem em primeiro lugar, sendo indicados por
40% dos entrevistados como os que mais praticam bullying com os colegas. Na
sequência, aparecem os cargos superiores, como CEOs e diretores, com 24% das
respostas; os líderes aparecem na terceira colocação, apontados por 23%, e, em
última colocação, ficam os estagiários e trainees, apontados por 13% dos
respondentes.
Sobre o assunto, é importante perceber que, para muitos,
a ideia de bullying no ambiente de trabalho ainda é distante. Muitas vezes, as
agressões acontecem e não são percebidas como bullying, por isso a importância
de se trazer o tema para o conhecimento geral. Saber reconhecer um
comportamento contra si ou contra um colega de trabalho é essencial para que
atitudes sejam tomadas e que possam ser corrigidas.
Como se dá a agressão
Mais do que saber quem pratica o bullying, para
compreender todo o cenário é fundamental perceber aspectos como a motivação e o
caráter dos ataques. O ambiente profissional é, muitas vezes, fortemente
competitivo, o que pode despertar comportamentos de rivalidade entre os
colegas. O desejo de aceitação também pode ser motor para que algumas práticas
tóxicas sejam reproduzidas sem um posicionamento crítico e de denúncia.
Segundo os entrevistados, preconceitos pessoais
ainda é a maior motivação para a prática do bullying, com indicação de 63% dos
respondentes. Na sequência, aparecem o sentimento de superioridade (57%);
a reprodução de um comportamento (40%); aceitação por parte do grupo (38%), e
possibilidade de crescimento dentro da empresa (18%).
Já em relação ao teor das agressões, muitas são as formas
de ataque. Liderando as respostas significativamente, aparecem as piadas
sobre características físicas, com 71% das respostas; a criação de apelidos
aparece em segunda colocação, indicadas por 56% dos respondentes, e fofocas e
rumores está em terceiro lugar para 52% dos entrevistados.
Com números também relevantes, aparecem as importunações
em relação à orientação sexual (46%); piadas sobre gênero (46%); humilhações em
frente à equipe (43%); implicância por erros no trabalho (36%); excesso de
críticas em relação ao desempenho (33%); exclusão e isolamento pelos colegas
(33%), e piadas sobre a condição social (31%).
Posicionamento da empresa e da equipe
Se o ambiente de trabalho é espaço de perpetuação do
comportamento dos bullers, também é crucial que se saiba os locais ou
meios pelos quais a prática é reproduzida. Neste sentido, é relevante
considerar os diversos formatos de trabalho atuais, sejam eles presenciais,
híbridos ou remotos.
Espaços em comum da empresa, como escritório, refeitório
e locais de convívio, são onde o comportamento mais acontece, conforme 74% dos
entrevistados. Encontros fora da empresa, como eventos, almoços e
confraternizações, também apresentam dados expressivos, sendo citados por 47%
dos respondentes. Na sequência, aparecem reuniões presenciais em grupos
(31%); trocas de mensagens em grupos via plataforma de comunicação da empresa
(25%); reuniões presenciais individuais (16%), e reuniões remotas em
grupos (16%).
Quando uma situação de desconforto ou violência acontece,
independentemente do nível da agressão, existem diferentes formas de reação
para quem está presenciando a atitude. De forma geral, o que se percebe é
que os colegas não se posicionam, se calando frente a casos de bullying,
segundo 49% dos entrevistados. 21% recriminam, interferindo no momento em
que o bullying está sendo praticado. Outros 21% denunciam as ações
posteriormente de forma particular ou anônima, e 8% reforçam o comportamento,
contribuindo com a atitude do agressor.

Tão importante quanto a reação dos profissionais perante
situações de ataque entre os membros da equipe, é o posicionamento da empresa
em relação ao comportamento. A cultura das empresas têm influência direta na
atitude de seus colaboradores, desde o momento da candidatura em uma vaga até a
conduta do time do convívio diário. Segundo 37% dos entrevistados, as
empresas onde atuam condenam o bullying, mas não tomam atitudes reais para
diminuir a prática na instituição; de acordo com 35%, a empresa tem
realmente um local de escuta significativo e realiza ações que diminuem ou
acabam com o comportamento; conforme 20%, as empresas em que estão se omitem
para o comportamento, e para 8%, as instituições fomentam ou incentivam a
atitude.

Fica claro que a reação mais comum em relação ao bullying
é o silêncio. E, quando a denúncia acontece, em grande parte dos casos, ela é
feita de forma anônima. A situação fica ainda mais delicada quando se leva em
consideração que muitos dos agressores são líderes ou superiores. Se por um
lado, há o desejo de justiça, por outro, existe o risco das consequências de se
expor alguém que esteja em cargos superiores, o que traz receios como não ser
levado a sério, ser vítima de exclusão ou punição, ou mesmo, em casos extremos,
a demissão. Por isso, é extremamente necessário que as empresas possuam canais
de escuta que realmente funcionem e que preservem o espaço dos membros da
equipe.
As consequências
Para situações que envolvam bullying nos mais diversos
espaços, a partir de agora os brasileiros podem contar com ações legais junto à
justiça. De qualquer forma, a denúncia nem sempre é fácil ou chega a se
concretizar, e existem outras reações que as vítimas podem tomar para se
defender. Dentro do ambiente de trabalho, uma delas é a demissão.
Neste contexto, mesmo que a grande maioria dos
entrevistados afirme que o tema nunca foi motivação para a saída de uma empresa
(71%), pelo menos 29% já pediram ou gostariam de pedir demissão em função
do comportamento dentro das empresas. Entre os respondentes, 15%
afirmam que já saíram de instituições por sofrer bullying; 7% já saíram de
empresas por ver os colegas sofrendo bullying; 8% gostariam de sair da empresa
em que se encontram atualmente por serem alvo de bullying, e 7% gostariam de
sair do emprego em que se encontram por verem os colegas serem vítimas de
bullying.
É relevante observar que quase um terço dos respondentes
já saiu ou considera sair de seus empregos em função do bullying, trazendo uma
dimensão do problema. Neste contexto, pode-se entender que o trabalhador se viu
ou se vê em um ambiente tão tóxico, que precisa abrir mão da estabilidade do
seu trabalho em prol da de seu bem-estar e de sua saúde mental e psicológica.
E no home office?
Com a popularização do home office nos últimos anos, não
se pode deixar de analisar a reprodução do bullying nesse formato de trabalho,
uma vez que a prática também pode ser propagada através de meios digitais. Com
uma comunicação feita quase totalmente de forma online, as interações, e
consequentemente os possíveis ataques entre os colegas, acontecem via
plataformas digitais. Neste contexto, algumas das principais formas de
reprodução do bullying acontecem em trocas de mensagens em grupos da empresa em
que todo o time está inserido (25%); reuniões remotas em grupos (16%); trocas
de mensagens individuais (15%); trocas de e-mails em grupos (14%), e reuniões
remotas individuais (11%).
Em relação ao bullying em trabalhos remotos, 45% dos
entrevistados entende que a prática apenas se modificou, passando a se
apresentar de outras formas; 40% entende que o bullying nas empresas diminuiu;
20% acredita que as agressões se mantiveram as mesmas, e 14% entende que a
prática aumentou.
Em relação ao home office, é importante evidenciar que as
empresas também precisam oferecer o suporte e apoio para esses colaboradores. O
fato do trabalhador remoto não estar diariamente no espaço físico da
instituição, não impede que ele sofra as agressões. Nesses casos, as empresas
precisam criar estratégias específicas para esse formato de trabalho e estarem
muito próximas de sua equipe mostrando todo o apoio e suporte. O home officer
pode trabalhar se sua casa, mas não pode estar isolado da empresa.
Metodologia
Entre os dias 25 e 27 de março de 2024, a Onlinecurriculo
ouviu 500 pessoas de diversos segmentos produtivos, faixas etárias, classes
sociais e regiões do país. Mulheres e homens foram entrevistados
individualmente, respondendo as perguntas através de questionário estruturado
em formato online.
https://onlinecurriculo.com.br/