É preciso Humildade Radical para
escutar as urnas... Escutar... Não ouvir! Enquanto ouvimos fisicamente,
escutamos com a razão, com a sensibilidade. E a verdade é que não houve
ambiguidade. As urnas falaram: foi uma vitória contundente, histórica, que
desautoriza todas as certezas dos que se diziam donos da verdade. Quem apostou
que o povo pensava como os editores dos jornais, como os formadores de opinião,
como os gabinetes, perdeu.
É exatamente porque o resultado foi
tão eloquente que ele exige de todos nós uma Humildade Radical. De todos! Não
dos vencidos apenas... De todos! Dos que venceram e dos que perderam. Dos de
direita e dos de esquerda. Dos mais conservadores e dos mais liberais. De todos
nós, que pretendemos enxergar a sociedade e construí-la mais Justa, mais Livre,
mais Inclusiva; de todos nós, que nos preocupamos com Direitos Humanos, com
Inclusão Social, com Justiça.
É que, no fim, a tentação dos
vencedores é entender a vitória como mandato para tudo, como cheque em branco,
como licença para governar só para os seus. E a tentação dos vencidos é a da
negação e do preconceito: explicar o resultado chamando o povo de desinformado,
de manipulado, de errado. As duas tentações nascem da mesma arrogância: a de
que o povo deve ser conduzido, ensinado... Na verdade, o povo possui uma voz a
ser escutada, e devemos estar atentos às lições dela.
Há um pensador americano, James
Surowiecki, que dedicou um livro inteiro a essa questão: "A sabedoria das
multidões". Sob certas condições — diversidade de perspectivas,
independência de opinião, conhecimento descentralizado e um modo de agregar os
julgamentos —, a multidão decide melhor do que qualquer especialista isolado.
Não é que o especialista não saiba nada; é que ele enxerga de um lugar só. A
multidão enxerga de todos os lugares ao mesmo tempo.
O resultado das urnas é exatamente
isso: o modo de agregar que transforma milhões de julgamentos particulares —
cada um enraizado na experiência concreta de uma vida — em decisão coletiva. E
quando a multidão decide com essa clareza, com essa contundência, desprezar o
resultado é arrogância. É acreditar que milhões de brasileiros não sabem o que
fazem.
Sabem, sim!
Estão tentando nos dizer o que
querem. Porque o que as urnas registraram foi um grito de socorro!
O brasileiro médio está pedindo
socorro. Quer liberdade para trabalhar e empreender, sem as amarras
burocráticas que transformam o sonho do próprio negócio em labirinto de
licenças, alvarás e exigências. O povo não quer ser afogado em tantos tributos.
Quer liberdade para produzir, para trabalhar, para se desenvolver com
autonomia.
Quer, também, que sua religiosidade
e seus valores sejam tratados com respeito — não com preconceito e desdém. Quer
liberdade religiosa, e não o uso eleitoreiro da fé: que ninguém use sua crença,
nem zombe dela. Quer serviços públicos de qualidade — escola que ensine, posto
que atenda, estrada sem buracos —, e não serviços carcomidos pela corrupção,
pelos desvios, pela ineficiência.
Quer, sobretudo, que todos sejam
igualmente responsáveis pelos seus atos e pelas suas palavras. Sem
favorecimentos, sem privilégios, sem aquela sensação antiga de que a lei é só
para os inimigos... Os amigos desfrutam dos favores estatais! E quer ser livre.
Não cativo. Não escravo. Não refém do crime organizado, que cobra pedágio pelo
direito de viver em paz. Quer trabalhar, consumir e viver em paz, sem
preconceitos, sem favorecimentos, sem arrogância.
Querem a liberdade.
LIBERDADE!
Ou seja, é necessário humildade para
escutar e aprender. E quem se recusa a escutar o que a multidão está clamando,
porque a multidão não pensa como ele, despreza justamente a diversidade que,
como ensina Surowiecki, torna a decisão coletiva mais inteligente do que
qualquer torre de marfim.
O povo está tentando nos ensinar.
Está tentando nos transmitir uma lição que a nossa política insiste em não
aprender: liberdade para trabalhar e proteção contra o crime; menos impostos
que algemam e mais eficiência no gasto que liberta; fé respeitada e direitos
protegidos; todos iguais perante a lei e ninguém refém de ninguém.
Precisamos de Humildade Radical —
todos nós — para aprender o que o povo quer, o que o povo está tentando nos
ensinar. Humildade para escutar e aprender; Coragem para corrigir e mudar; e
Esperança para transformar, para avançar sem excluir ninguém...
Para EVOLUIR!
André Naves - Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP. Especialista em Inclusão Social, Direitos Humanos e Economia Política. Membro dos Grupos de Trabalho da DPU: Pessoas Idosas, Pessoas com Deficiência e Pessoas em Situação de Rua. Comendador Cultural. Escritor. Professor. www.andrenaves.com | @andrenaves.def
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