Do congelamento de óvulos à prevenção de complicações no pré-natal, conheça as medidas necessárias para realizar o sonho de ser mãe no próprio tempo
Cada vez mais brasileiras vivenciam a maternidade após os 40 anos.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de
nascidos vivos de mulheres a partir desta idade aumentou 71,8% em duas décadas,
passando de 59,9 mil em 2004 para 102,8 mil em 2024. As transformações
socioeconômicas, marcadas pela priorização do desenvolvimento e estabilidade
profissional, bem como de outras conquistas pessoais, levam a gestações
tardias, possíveis graças à evolução da medicina reprodutiva.
Para realizar o sonho de ser mãe nessa faixa etária,
o planejamento pré-concepcional e o acompanhamento rigoroso com um obstetra especializado
em pré-natal de alto risco são os pilares para uma jornada tranquila. Quando
necessário, deve haver o suporte de uma equipe multidisciplinar (nutricionista,
endocrinologista e cardiologista). “Quanto maior a idade materna, maior a
probabilidade de complicações obstétricas, como síndromes hipertensivas,
diabetes mellitus gestacional e prematuridade. Por isso, acima dos 40 anos, a
gestação é considerada de risco”, explica Dr. Paulo Gallo, especialista em
reprodução humana da Clínica Vida/Fertgroup. “Isso não significa que toda
mulher terá problemas, mas, sim, que é preciso um olhar mais atento e
individualizado. Com o monitoramento diagnóstico e preventivo que temos hoje, é
possível uma gestação com saúde e segurança, tanto para a mãe quanto para o
bebê”, completa.
Desafios do tempo e preservação da fertilidade
Em relação à fertilidade, a biologia impõe desafios às mulheres
maduras. O principal gargalo é o declínio natural da reserva ovariana, que se
acelera a partir dos 35 anos. Além da redução na quantidade de óvulos
disponíveis, ocorre uma queda acentuada na sua qualidade genética, tornando o
caminho até uma gestação saudável mais complexo. Isso impacta diretamente os
resultados dos tratamentos reprodutivos em idades mais avançadas. “Há uma queda
drástica nas taxas de sucesso da fertilização in vitro em mulheres de 45 anos
que utilizam óvulos próprios, devido ao aumento de alterações cromossômicas
nessas células reprodutivas. Por isso, para quem deseja adiar a maternidade,
recomendamos a preservação da fertilidade por meio do congelamento de óvulos em
idades mais jovens, idealmente antes dos 35 anos, garantindo sua qualidade
genética”, destaca Gallo. “Se a mulher madura quiser engravidar e não tiver
óvulos congelados, o uso de óvulos doados por mulheres mais jovens é a
alternativa com maior taxa de êxito”, orienta o médico.
Por outro lado, a relação entre o envelhecimento uterino e as
chances de concepção é um campo de estudo recente na medicina reprodutiva.
Pesquisas investigam como as alterações celulares, teciduais e genéticas que
acontecem no útero com o decorrer do tempo influem na implantação do embrião,
mas com resultados ainda iniciais. "Atualmente, não existem evidências
científicas definitivas sobre esse impacto, tanto que as mulheres de 50 anos
que fazem fertilização in vitro com óvulos doados mantêm taxas de sucesso
semelhantes às das mais jovens. Com o passar dos anos, o principal obstáculo
para o útero é o surgimento de doenças ginecológicas como miomas, pólipos e
adenomiose. Além de reduzirem as chances de engravidar, essas condições, muitas
vezes, exigem intervenções cirúrgicas que também podem afetar a capacidade
reprodutiva da mulher”, informa Gallo.
Passo a passo para uma gravidez saudável
Não existe uma idade limite para engravidar. O Conselho Federal de
Medicina (CFM) aconselha que os tratamentos de reprodução assistida sejam
realizados até os 50 anos. Trata-se, contudo, de uma recomendação, e não de uma
proibição absoluta: a idade para o procedimento pode ser estendida desde que a
avaliação médica confirme que a mulher está plenamente saudável. Dr. Paulo
Gallo destaca cuidados essenciais para quem deseja realizar o sonho da
maternidade após os 40 anos:
- Avaliação ginecológica e da reserva ovariana: Além do mapeamento da cavidade uterina por meio de exames
como ultrassonografia transvaginal, ressonância magnética da pelve e
video-histeroscopia, é indispensável avaliar a reserva ovariana, que é a
quantidade remanescente de folículos - pequenas estruturas localizadas nos
ovários que podem dar origem a óvulos. Essa medição é feita pela dosagem
do hormônio anti-mülleriano em exame de sangue e pela contagem de
folículos no ultrassom. A partir dos resultados, o ginecologista poderá
indicar a melhor estratégia, seja tentativa de concepção natural ou a
procura de um especialista em reprodução assistida.
- Check-up geral e controle de comorbidades: são necessários exames laboratoriais completos, com
verificação de glicemia e perfil lipídico, e parecer cardiológico
minucioso para avaliar a saúde dos vasos sanguíneos e do coração. Caso
sejam constatadas alterações como hipertensão, diabetes ou problemas
cardiovasculares, a mulher deverá passar por um tratamento de
estabilização antes de receber o aval para engravidar. Nesses casos, o acompanhamento
conjunto com cardiologista ou endocrinologista estende-se por toda a
gestação.
- Adoção de hábitos saudáveis: alimentação equilibrada, higiene do sono, prática regular de
atividade física e a eliminação do tabagismo, do álcool e do estresse crônico
ajudam a manter a fisiologia saudável de todos os tecidos do corpo,
inclusive o uterino, que se beneficia com melhor irrigação sanguínea e
oxigenação. Isso melhora o fluxo de nutrientes até a cavidade uterina,
favorecendo o desenvolvimento embrionário.
Monitoramento no pré-natal: com a confirmação da gravidez, podem ser iniciadas medidas
preventivas como o uso de medicações para reduzir o risco de pré-eclâmpsia,
complicação vascular grave caracterizada por pressão alta e lesão renal que
pode colocar em risco a vida da mãe e do feto. Para avaliar o risco de diabetes
gestacional, são feitos exames laboratoriais periódicos de glicemia e da curva
glicêmica, além da vigilância constante do ganho de peso e do crescimento
fetal. Ao longo de toda a gestação, também se realiza o acompanhamento
frequente do fluxo placentário por ultrassom Doppler para garantir que a
placenta esteja fornecendo oxigênio e nutrientes suficientes, prevenindo
complicações como a restrição de crescimento intrauterino.

Nenhum comentário:
Postar um comentário