Perdas gestacionais recorrentes atingem
cerca de 2,5% das mulheres que tentam engravidar, um número que, embora pareça
pequeno, representa milhares de casais enfrentando o mesmo ciclo de esperança e
luto a cada nova tentativa, segundo dados divulgados pela Federação Brasileira
das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), considerando duas ou
mais perdas antes de 20 a 24 semanas de gestação, sem contar casos de gestação
ectópica ou molar. Ainda assim, boa parte dessas mulheres recebe apenas
orientações genéricas após o segundo ou terceiro episódio, sem que uma
investigação mais ampla seja proposta.
Para o Dr. Michael Zarnowski,
ginecologista com atuação voltada à endometriose e a questões de fertilidade,
esse é um dos pontos mais delicados do acompanhamento clínico. "Quando uma
mulher perde duas gestações seguidas, isso já é motivo suficiente para abrir
uma investigação mais criteriosa. Esperar uma terceira perda para começar a
procurar causas é perder tempo precioso", afirma.
Segundo o especialista, os exames de rotina
do pré-natal costumam avaliar apenas uma fração do que pode estar por trás do
problema. Fatores genéticos, como alterações cromossômicas em um dos parceiros,
hormonais, anatômicos, a exemplo de malformações uterinas, e imunológicos
entram na lista de possíveis causas, mas exigem exames específicos que não
fazem parte da bateria padrão solicitada em uma gestação comum. "Existe
uma diferença grande entre investigar uma gravidez e investigar por que ela não
está indo adiante. São lógicas de exame diferentes", explica.
O médico chama atenção também para a
síndrome antifosfolípide e outras condições autoimunes, que podem passar
despercebidas justamente por não gerarem sintomas evidentes fora do contexto
gestacional. "Muitas pacientes chegam ao consultório já com um histórico
de exames normais, porque ninguém pediu o exame certo. A queixa da perda de
repetição precisa direcionar o raciocínio para hipóteses específicas, não para
uma repetição dos mesmos testes", pontua.
Além dos aspectos clínicos, o ginecologista
reforça a importância de avaliar o casal como um todo, e não apenas a mulher.
Alterações no espermograma, fatores relacionados à idade paterna e questões
hormonais masculinas também podem contribuir para o quadro, mas raramente
entram na primeira rodada de investigação. "A perda gestacional recorrente
é tratada, na maioria das vezes, como um problema exclusivamente feminino. Isso
atrasa diagnósticos e, muitas vezes, faz o casal carregar uma culpa que nem
sempre tem fundamento", diz.
Para o Dr. Zarnowski, o recado principal é que o histórico de perdas não deve ser normalizado nem tratado como uma fatalidade. "Cada caso tem uma combinação própria de fatores, e é justamente por isso que a investigação precisa ser individualizada. Descobrir a causa muda completamente as chances de uma gestação chegar ao fim", conclui.
Fonte: Dr. Michael Zarnowski — Ginecologista especialista em Endometriose
@drmichaelzarnowski
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