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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Perdas gestacionais recorrentes exigem investigação além dos exames de rotina

  Alterações genéticas, hormonais, anatômicas e imunológicas podem estar envolvidas; obstetra explica quando o histórico do casal precisa de uma avaliação aprofundada.

 

Perdas gestacionais recorrentes atingem cerca de 2,5% das mulheres que tentam engravidar, um número que, embora pareça pequeno, representa milhares de casais enfrentando o mesmo ciclo de esperança e luto a cada nova tentativa, segundo dados divulgados pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), considerando duas ou mais perdas antes de 20 a 24 semanas de gestação, sem contar casos de gestação ectópica ou molar. Ainda assim, boa parte dessas mulheres recebe apenas orientações genéricas após o segundo ou terceiro episódio, sem que uma investigação mais ampla seja proposta. 

Para o Dr. Michael Zarnowski, ginecologista com atuação voltada à endometriose e a questões de fertilidade, esse é um dos pontos mais delicados do acompanhamento clínico. "Quando uma mulher perde duas gestações seguidas, isso já é motivo suficiente para abrir uma investigação mais criteriosa. Esperar uma terceira perda para começar a procurar causas é perder tempo precioso", afirma.

Segundo o especialista, os exames de rotina do pré-natal costumam avaliar apenas uma fração do que pode estar por trás do problema. Fatores genéticos, como alterações cromossômicas em um dos parceiros, hormonais, anatômicos, a exemplo de malformações uterinas, e imunológicos entram na lista de possíveis causas, mas exigem exames específicos que não fazem parte da bateria padrão solicitada em uma gestação comum. "Existe uma diferença grande entre investigar uma gravidez e investigar por que ela não está indo adiante. São lógicas de exame diferentes", explica.

O médico chama atenção também para a síndrome antifosfolípide e outras condições autoimunes, que podem passar despercebidas justamente por não gerarem sintomas evidentes fora do contexto gestacional. "Muitas pacientes chegam ao consultório já com um histórico de exames normais, porque ninguém pediu o exame certo. A queixa da perda de repetição precisa direcionar o raciocínio para hipóteses específicas, não para uma repetição dos mesmos testes", pontua.

Além dos aspectos clínicos, o ginecologista reforça a importância de avaliar o casal como um todo, e não apenas a mulher. Alterações no espermograma, fatores relacionados à idade paterna e questões hormonais masculinas também podem contribuir para o quadro, mas raramente entram na primeira rodada de investigação. "A perda gestacional recorrente é tratada, na maioria das vezes, como um problema exclusivamente feminino. Isso atrasa diagnósticos e, muitas vezes, faz o casal carregar uma culpa que nem sempre tem fundamento", diz.

Para o Dr. Zarnowski, o recado principal é que o histórico de perdas não deve ser normalizado nem tratado como uma fatalidade. "Cada caso tem uma combinação própria de fatores, e é justamente por isso que a investigação precisa ser individualizada. Descobrir a causa muda completamente as chances de uma gestação chegar ao fim", conclui. 



Fonte: Dr. Michael Zarnowski — Ginecologista especialista em Endometriose
@drmichaelzarnowski


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