Estudo do Projeto Brief ouviu 3.594
mulheres e aponta que o caminho para as mobilizar passa por mostrar que o voto
muda a vida real
As mulheres são maioria do eleitorado brasileiro, com 83,8 milhões de eleitoras aptas a votar em 2026, ou 52,8% do total, e têm peso para definir o resultado das eleições. O potencial de mobilização é grande, já que, em 2022, 16 milhões de mulheres não foram às urnas, um número quase oito vezes maior que os 2,1 milhões de votos que separaram os dois candidatos no segundo turno. Entender o que afasta essas eleitoras e o que pode trazê-las de volta é uma das chaves desta eleição.
Para responder a essa pergunta, o Projeto Brief ouviu 3.594 mulheres na pesquisa "Voto Feminino", com uma amostra ponderada para o eleitorado feminino. O estudo mostra que o que afasta as eleitoras não é a falta de confiança na própria escolha, mas a dúvida sobre se votar muda alguma coisa, e aponta quais mensagens funcionam para reverter esse quadro. Entre as entrevistadas, 22% ficaram fora do voto válido em 2022, 13,8% se declaram nada interessadas em política e um terço se posiciona no centro.
Os dados mostram ainda que a distância da política cresce à medida que a renda cai. Entre as mulheres com renda domiciliar de até dois salários mínimos, 23,2% se declaram nada interessadas em política, contra 10,9% na faixa de dois a cinco salários mínimos e 6,5% entre as de renda mais alta. No grupo de menor renda, 29,1% ficaram fora do voto válido em 2022, somando brancos, nulos e ausências, mais que o dobro dos 13,1% observados entre as mulheres com renda acima de cinco salários mínimos. Esse grupo é mais jovem, com média de 35,5 anos contra 38,4 no total da amostra, e tem mais mulheres desempregadas, solteiras e sem ensino superior – e é justamente esse público que pode definir o resultado das eleições.
Nos últimos meses, uma discussão que parecia restrita a nichos extremistas da internet ganhou espaço no debate público. Em junho, o influenciador Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, criticou publicamente a “qualidade” do voto das mulheres. Uma investigação da BBC News Brasil, publicada em 14 de setembro, mapeou uma rede de influenciadores, podcasts e perfis que dizem que mulheres "votam mal", responsabilizam o voto feminino por problemas sociais e, em alguns casos, defendem que elas nem deveriam votar.
"Existe uma diferença real no comportamento político de
homens e mulheres, e hoje elas tendem a se posicionar mais à esquerda. E quando
esse voto passa a ser visto como um problema político, parte da reação deixa de
ser tentar convencer essas eleitoras e passa a colocar em dúvida a própria capacidade
delas de escolher. Dizer que mulheres ‘votam mal’ é uma forma de deslegitimar
uma participação política que produz resultados com os quais esses grupos não
concordam.", afirma Carol Luck,
coordenadora do Projeto Brief.
A pesquisa indica que o problema não é a desconfiança na própria capacidade de decidir. A confiança de que "meu voto é meu e ninguém decide por mim" permanece alta em todos os grupos e cai pouco entre as mulheres nada interessadas em política, de 9,1 para 8,7.. Mas enquanto 92,9% do total pretende votar em 2026, entre as nada interessadas em política esse índice cai para 72,3%.
Nas respostas abertas, essa descrença aparece antes de qualquer posição partidária. As entrevistadas falam do cansaço com a política, do custo de ir votar, com uma delas relatando precisar gastar mais de 200 reais para chegar ao domicílio eleitoral, e da sensação de que nada muda de uma eleição para outra. O estudo também identifica um incômodo com a polarização, já que, entre as mulheres que não sabem se posicionam no centro, 55,9% se posicionam afirmam não saber se irão votar, e uma linguagem muito partidária tende a afastar quem não se reconhece em nenhum campo.
A pesquisa mostra também onde essas mulheres estão. Quase todas usam WhatsApp e Instagram toda semana, mas o consumo de matérias jornalísticas cai pela metade com a renda, com 47% das mulheres de dois a cinco salários mínimos lendo jornais e revistas online, contra 27% entre as de até dois salários mínimos. Para quem está mais longe da política, a mensagem precisa chegar em vídeo curto nas redes sociais, WhatsApp e TV.
Para o Projeto Brief, são dois desafios de comunicação diferentes. Entre as mulheres de até dois salários mínimos, a tarefa é mostrar que a política impacta diretamente suas vidas, começando pelo cotidiano. Já entre as de dois a cinco salários mínimos, que quase em sua totalidade (95%) pretendem votar, a tarefa passa a ser ajudar a escolher, com informação clara e critérios para avaliar propostas.
"O objetivo da pesquisa é ajudar as pessoas a entender quem são essas mulheres que estão indecisas, o que pode mobilizá-las a votar e como a política impacta diretamente a vida delas, a educação dos filhos, a segurança, tudo. Queremos que os dados não fiquem só no diagnóstico e ajudem, de fato, na produção de uma comunicação que dialogue com esse público", finaliza Carol.
O estudo integra a Decisivas, plataforma pública e gratuita do Projeto Brief que reúne pesquisa, escuta digital e testes de mensagem sobre os públicos considerados decisivos para as eleições de 2026, voltada a organizações da sociedade civil, comunicadores e campanhas. Os dados da pesquisa podem ser recortados por renda, estado e faixa etária, entre outros filtros, mediante solicitação.
Projeto Brief - plataforma de comunicação política com
foco em dados e campanhas mobilizadoras.
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