Análise de documentos oficiais mostra que a aproximação entre pesquisa e indústria avançou, enquanto riscos, regulação e controle social ficaram em segundo plano
Em 2000, os Estados Unidos lançaram a Iniciativa Nacional de Nanotecnologia. No ano seguinte, o Brasil respondeu com a Iniciativa Brasileira de Nanociência e Nanotecnologia (IBNN). Mais de 20 anos depois, o que as políticas desse período realmente entregaram? É a pergunta que guia o estudo de Elio Carlos Ricardo, da Universidade de São Paulo.
De acordo com uma
investigação compartilhada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade
do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão
técnica da Editora Atena), o autor fez uma análise de conteúdo
qualitativa, pelo método de Bardin, de chamadas públicas, relatórios, planos
plurianuais e outros documentos produzidos sobretudo pelo então Ministério da
Ciência e Tecnologia (MCT). O estudo foi aceito em 1º de setembro de 2026 e
integra o volume 2, número 16.
Como tudo começou?
Em novembro de 2000, o MCT e o CNPq reuniram pesquisadores para discutir tendências da área. Daí saiu uma comissão que, em 2001, produziu o Programa Nacional de P&D em Nanociência e Nanotecnologia, com plano de implementação para 2001 a 2005. No mesmo ano vieram o Livro Verde de ciência, tecnologia e inovação e a própria IBNN, que, segundo um dos autores citados, apenas revisou o documento da comissão, inspirado na iniciativa americana.
A chamada CNPq Nano 01/2001,
que criou as Redes Cooperativas Integradas, é tratada como marco. Naquele ano,
quatro dos 17 projetos apoiados pelos Institutos do Milênio eram de
nanociência.
Por que o argumento econômico pesou tanto?
O estudo mostra que o investimento foi justificado sobretudo por seu potencial de competitividade e de bem estar social, e menos por razões científicas. O Livro Verde liga a nanotecnologia a um leque amplo de temas, algo que a literatura associa à tendência de pesquisadores rotularem seus trabalhos como nano para obter verba.
Para o autor, essa lógica
segue o modelo linear de inovação, proposto por Bush em 1945, segundo o
qual investir em ciência básica produziria automaticamente tecnologia, riqueza
e bem estar. O modelo, diz o texto, já se mostrou insuficiente. Há ainda uma
diferença de método em relação aos Estados Unidos: lá o debate ocorreu no
Congresso, aqui a iniciativa ficou sob gestão do MCT, sem controle externo.
O dinheiro acompanhou o discurso?
Nem sempre. O Plano
Plurianual de 2004 a 2007 destinou ao programa de nanotecnologia cerca de 20% do
que o grupo de trabalho do MCT havia sugerido. A chamada MCT/CNPq 013/2004,
voltada aos impactos sociais, ambientais, éticos e legais, teve apenas 10% do
orçamento da chamada 012/2004, dedicada a projetos aplicados com empresas. A
partir de 2013, a economia deixou de ajudar: o relatório do plano 2012 a 2015
admite que o crescimento previsto não veio e que houve cortes.
Do SisNANO à EMBRAPII: o que mudou na prática?
* 2008: Programa
dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia substitui os Institutos do
Milênio.
* 2011
e 2018: o Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano) é
criado e o acelerador Sirius, inaugurado, ambos ligados ao LNLS.
* 2012: criação
do SisNANO, sistema de laboratórios multiusuário aberto a pesquisadores
públicos e privados.
* 2013: nasce
a EMBRAPII, que pode cobrir um terço do custo de projetos com empresas,
com recursos não reembolsáveis. Em 2020, eram 61 unidades e 224 projetos
contratados por 219 empresas.
* 2019: portaria
torna obrigatória a parceria com empresas nos projetos do SisNANO, e o plano
PACTI 2019 afirma que a pesquisa deve ser guiada pela demanda da indústria.
O que ficou de fora?
Riscos e regulação demoraram
a entrar na pauta. Só em 2011 uma chamada tratou de nanotoxicologia e
nanoinstrumentação, e até então o Brasil usava um manual de segurança com
nanomateriais de um instituto americano. O Programa Nacional de Nanossegurança
passou a integrar a IBN em 2019. Em 2016, uma portaria incluiu, pela primeira
vez, uma vaga para representante das ciências humanas e sociais no comitê do
programa dos Institutos Nacionais.
Qual é o balanço do autor?
Segundo Ricardo, os chamados planos estratégicos foram, em geral, planos de metas, sem cenários de futuro nem ações claras para chegar a elas, e os próprios relatórios oficiais reconhecem que as metas não foram cumpridas. Prevaleceram, nas palavras do estudo, políticas espontâneas e situacionais, em vez de visão estratégica. Também a ideia de inovação ficou imprecisa nos documentos.
O tema segue na agenda, como
mostram a chamada para soluções em grafeno, em 2020, e a exigência de parceria
com empresas no SisNANO. O estudo sugere que, sem ir além do modelo linear, a
distância entre laboratório e mercado tende a persistir.
Fonte: Open Minds International Journal, vol. 2, n. 16,
2026, artigo 7.
Autor: Elio Carlos Ricardo, Universidade de São Paulo.
DOI https://doi.org/10.22533/at.ed.51572162617087
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