Estudo com ratos feito na USP revela
modificações químicas e microscópicas nos dentes dos animais expostos à fumaça
nos primeiros dias de vida, mesmo sem apresentar defeitos visíveis a olho nu
Pesquisa também confirmou que mesmo uma exposição muito
pequena ao cigarro impactou o crescimento dos filhotes em laboratório
(imagem: Andres Siimon/Unsplash)
A exposição passiva à fumaça do cigarro nos primeiros dias de vida pode
provocar alterações na mineralização do esmalte dentário, mesmo sem causar
mudanças visíveis nos dentes. É o que mostra um estudo em modelo animal
realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Os resultados
foram publicados em maio na revista Calcified
Tissue International.
A pesquisa foi conduzida com apoio da FAPESP na Faculdade de
Odontologia de Ribeirão Preto (Forp-USP) e faz parte de uma linha de estudos
maior, coordenada pelo professor Francisco Wanderley Garcia de Paula-Silva. O grupo investiga como adversidades no início da vida – incluindo
exposição ao álcool, tabaco e estresse – podem afetar o desenvolvimento do
organismo. O trabalho mais recente foi conduzido durante o doutorado de Juliana
de Lima Gonçalves, primeira autora do artigo.
A linha de pesquisa está inserida em
uma teoria conhecida como DOHaD, sigla em inglês para “Origens
Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença”. A hipótese defende que muitos
problemas de saúde que aparecem na vida adulta têm origem ainda no período
embrionário ou nos primeiros anos de vida. Nesse contexto, o esmalte dentário
funcionaria como uma espécie de registro biológico.
“O esmalte é uma estrutura muito
interessante porque pode funcionar como um biomarcador. Ele se forma naquele
momento da vida e depois não sofre remodelação, diferente do osso que segue
remodelando durante a vida toda”, afirma Paula-Silva. “Então, detectar
alterações no esmalte pode trazer informações importantes sobre exposições
muito precoces, que às vezes a pessoa nem consegue recordar”, explica.
Ele explica que a formação do esmalte
começa ainda durante a gestação, principalmente nos dentes de leite, mas grande
parte da mineralização dos dentes permanentes ocorre na infância. Segundo o
pesquisador, embora existam diferentes “janelas” de desenvolvimento dependendo
do grupo dentário, a infância é um momento crítico para a formação e maturação
do esmalte dentário.
Como foi o estudo
Para investigar os possíveis efeitos
da fumaça passiva nesse processo de formação do esmalte, os pesquisadores
dividiram filhotes de ratos em dois grupos. Um deles foi exposto à fumaça de
cigarro duas vezes por dia, durante cinco minutos, desde o segundo até o 28º
dia de vida. O grupo-controle permaneceu sem exposição. Os animais foram
colocados dentro de uma caixa de acrílico onde a fumaça era liberada de forma
controlada. “O roedor é um modelo muito interessante porque conseguimos
controlar a exposição. O animal fica exposto só à fumaça do cigarro e a nada
mais, diferentemente do humano, que está exposto a outras coisas do ambiente”,
diz.
Paula-Silva conta ainda que os dentes
incisivos dos roedores crescem continuamente, permitindo acompanhar a formação
do esmalte de forma mais dinâmica. “Nós conseguimos olhar para a célula que
está formando o esmalte e para o esmalte em si.”
Os pesquisadores também monitoraram
peso, crescimento corporal e desenvolvimento dentário dos animais. O primeiro
achado foi que os filhotes expostos à fumaça apresentaram menor ganho de peso
em comparação ao grupo-controle, seguindo o que a literatura já aponta sobre os
efeitos do fumo passivo no ganho de peso. “Mesmo uma exposição muito pequena ao
cigarro impactou o crescimento desses animais”, relata Paula-Silva.
Quando os dentes foram analisados a
olho nu, no entanto, não apareceram diferenças importantes entre os grupos. Por
isso, os pesquisadores decidiram fazer análises microscópicas e químicas nos
dentes dos roedores. Assim, identificaram aumento do espaço entre os prismas do
esmalte, estruturas microscópicas que organizam a composição mineral do dente.
Também observaram redução nos níveis de fósforo no esmalte dentário dos animais
expostos à fumaça.
Segundo o professor, o fósforo é um
dos componentes da hidroxiapatita, molécula responsável pela dureza do esmalte.
Alterações nessa composição podem afetar propriedades mecânicas do dente, como
resistência ao desgaste e a fraturas. O estudo também identificou aumento da
quantidade de carbono no esmalte dos animais expostos à fumaça. Segundo
Paula-Silva, esse achado chama atenção porque o esmalte dentário é uma estrutura
essencialmente mineral e praticamente sem matéria orgânica.
“O esmalte é a estrutura mais dura do
corpo humano justamente porque ele é altamente mineralizado. O aumento de
carbono sugere maior presença de material orgânico no esmalte, o que não é
considerado normal”, explica Paula-Silva ao ressaltar que, associada à redução
de fósforo observada no estudo, essa alteração pode modificar características
importantes do esmalte, como resistência e dureza.
Apesar disso, os testes não mostraram
redução na dureza inicial do esmalte. Para o professor, uma das hipóteses para
explicar esse resultado é que os animais ainda eram muito jovens e não haviam
utilizado os dentes de forma intensa, já que foram desmamados aos 21 dias e o
experimento terminou uma semana depois. “Eles praticamente não usaram esses
dentes. O que a gente precisa entender agora é como esse esmalte vai se
comportar com o uso ao longo do tempo. Será que essa alteração na composição
química vai impactar a resistência do dente no futuro? Essa ainda é uma
pergunta em aberto”, comenta.
Para responder a essa questão, o
grupo já deu início a uma nova etapa da pesquisa. Desta vez, os animais estão
sendo submetidos a uma exposição maior à fumaça do cigarro, de cerca de uma
hora, duas vezes ao dia. A expectativa é verificar se uma carga mais intensa de
exposição é capaz de produzir alterações mais evidentes na estrutura do esmalte
e reproduzir defeitos que se aproximem daqueles observados em humanos. “Talvez,
o que estamos vendo agora seja uma manifestação mais leve desse problema. Com
uma exposição maior, poderemos entender melhor até onde essas alterações podem
chegar”, avalia o pesquisador.
Os cientistas também buscam
compreender em que momento da formação do esmalte a fumaça exerce maior
influência. A estrutura passa por diferentes etapas de desenvolvimento:
primeiro ocorre a deposição de uma matriz orgânica e, posteriormente, a
incorporação dos minerais que conferem dureza ao tecido. Segundo Paula-Silva,
os resultados sugerem que a exposição ao cigarro interfere principalmente nessa
fase de maturação. “Nós não observamos alterações na espessura do esmalte, o
que indica que sua formação ocorreu normalmente. O que encontramos foi uma
mudança na composição química, sugerindo um efeito sobre a etapa de mineralização
e maturação”, explica.
Embora os resultados não possam ser
diretamente transferidos para humanos, Paula-Silva acredita que o estudo pode
ajudar a compreender possíveis causas de defeitos de formação do esmalte
observados em crianças. Um exemplo é a hipomineralização molar-incisivo,
condição que afeta cerca de uma em cada cinco crianças e deixa o esmalte mais
frágil e suscetível a fraturas e cáries. “Hoje ainda não sabemos exatamente por
que esses defeitos acontecem. Quando observamos que a exposição precoce à
fumaça altera a composição e a estrutura do esmalte, isso sugere que o
tabagismo passivo pode ser uma das causas envolvidas nesse processo.”
O professor ressalta, no entanto, que
essa é apenas uma hipótese, pois o estudo não estabelece uma relação direta
entre fumo passivo e hipomineralização dentária em humanos. Ainda assim, ele
diz que os achados reforçam a preocupação com os efeitos da exposição ao cigarro
na infância. “O fumo já é reconhecido como um problema importante para doenças
respiratórias e para o desenvolvimento infantil. O que esse trabalho mostra é
que talvez os dentes também possam guardar marcas dessas exposições precoces.”
O artigo Impact of secondhand smoke on the biomineralization of
dental enamel in rats pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s00223-026-01542-6.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/exposicao-precoce-ao-fumo-passivo-altera-composicao-do-esmalte-dentario/59319
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