Aquecer é obrigatório? Quanto mais tempo o produto ficar no cabelo, melhor? Todo mundo pode usar o mesmo óleo? Nina Habib, terapeuta ayurvédica e fundadora da Taila Veda, esclarece dúvidas sobre uma das práticas mais tradicionais do Ayurveda
A oleação ganhou espaço nos cuidados com a pele e,
principalmente, com os cabelos, mas está longe de ser uma prática nova. No
Ayurveda, os óleos fazem parte de uma tradição de cuidado que atravessa
milhares de anos. Snehana é o termo relacionado à oleação; Abhyanga é a oleação
acompanhada da massagem corporal; e Shiro Abhyanga é a prática direcionada à
cabeça.
A diferença em relação a muitas das práticas que se
popularizaram nas redes sociais está na lógica por trás do uso do óleo. Nessa
tradição, não se trata simplesmente de escolher qualquer óleo vegetal e
aplicá-lo sobre o corpo ou os cabelos. A escolha da base, as plantas presentes
na formulação, a região de aplicação, as características individuais e o
momento também são considerados.
“O óleo escolhido importa, as plantas presentes
naquela formulação importam, a região onde ele será aplicado importa e,
principalmente, a pessoa e o momento também importam”, explica Nina
Habib, terapeuta ayurvédica e fundadora da Taila Veda, marca brasileira de
cosméticos ayurvédicos criada em 2018.
Com estudos e imersões na Índia, Nina aprofundou
seus conhecimentos em áreas como Panchakarma, nutrição e culinária medicinal,
Rasayana, Dravyaguna, diagnóstico pela língua e saúde da mulher. Ao traduzir
essas práticas para a vida contemporânea, ela diferencia aquilo que pertence à
tradição ayurvédica das adaptações que utiliza para tornar os rituais possíveis
dentro da rotina atual.
A seguir, Nina esclarece alguns dos principais
mitos e verdades sobre a oleação:
1. É obrigatório aquecer o óleo antes da aplicação? MITO!
O óleo pode ser utilizado em temperatura ambiente
ou levemente aquecido. Tradicionalmente, o óleo morno aparece em diferentes
práticas ayurvédicas e pode tornar a aplicação mais confortável, principalmente
nos dias frios, mas o aquecimento não precisa se transformar em uma regra.
“Se a pessoa quiser aquecer, pode fazer isso suavemente
em banho-maria. Se não quiser, pode utilizar em temperatura ambiente. Para mim,
uma prática que realmente acontece na rotina é mais interessante do que um
ritual tão cheio de regras que acaba nunca sendo feito”, afirma
Nina.
2. Todo óleo funciona da mesma
maneira? MITO!
Na visão do Ayurveda, a escolha do óleo também faz
parte do cuidado. O óleo de gergelim, por exemplo, tem natureza mais
aquecedora, nutritiva e envolvente e pode fazer mais sentido diante de
características relacionadas a Vata, como ressecamento, frio, pele ou couro
cabeludo secos. Já o coco possui natureza mais refrescante e pode ser escolhido
quando se busca maior frescor ou em períodos mais quentes.
A escolha também pode mudar ao longo do tempo, já
que o Ayurveda observa o estado atual, o clima, a estação e aquilo que o corpo
apresenta naquele momento.
“A pergunta ‘qual é o melhor óleo?’ quase nunca está
completa. Precisamos perguntar: melhor para quem, em qual momento e para
equilibrar quais qualidades?”, explica.
3. Um óleo ayurvédico é
simplesmente qualquer óleo vegetal? MITO!
Existem diferentes preparações dentro do Ayurveda,
e as plantas presentes em cada formulação também são consideradas de acordo com
suas características. Por isso, a análise não se limita à escolha entre bases
como gergelim ou coco, mas envolve a preparação como um todo e a finalidade
para a qual foi desenvolvida.
4. Na oleação capilar, é
preciso encher o comprimento dos fios de óleo? MITO!
No Shiro Abhyanga, o foco está na cabeça e no couro
cabeludo. O óleo pode ser distribuído em pequenas quantidades em diferentes
regiões, seguido de massagem com as pontas dos dedos. A aplicação no
comprimento ou nas pontas pode ser feita, mas não constitui o centro dessa
prática.
“Gosto de dizer que o couro cabeludo é o solo dos
fios e, por isso, o cuidado começa nele. A oleação capilar que se popularizou
nas redes sociais muitas vezes colocou toda a atenção no fio; no Shiro
Abhyanga, estamos falando da cabeça e do couro cabeludo”, afirma
Nina.
5. O cabelo precisa estar
limpo para fazer a oleação? MITO!
A oleação pode ser realizada antes da lavagem,
inclusive com o couro cabeludo sujo. É dessa forma que Nina costuma adaptar a
prática à própria rotina: aplica o óleo diretamente no couro cabeludo,
massageia, deixa agir e depois realiza a lavagem normalmente.
6. O Ayurveda orienta a
oleação da cabeça apenas uma ou duas vezes por semana? MITO!
Aqui está uma das principais diferenças entre
tradição e adaptação. Na visão tradicional do Ayurveda seguida por Nina, a
aplicação de óleo na cabeça aparece como uma prática mais frequente e pode
fazer parte dos cuidados diários. Isso não significa, porém, que a mesma
frequência precise ser reproduzida na vida contemporânea.
Para tornar a prática viável atualmente, Nina
costuma orientar quem está começando a fazer a oleação uma vez por semana. Em
períodos de cuidado mais intensivo, trabalha com duas a três aplicações
semanais e, posteriormente, a frequência pode ser ajustada para manutenção.
“Essa frequência é uma adaptação que utilizo para
tornar uma prática tradicional possível dentro de uma rotina contemporânea, e
não uma regra clássica dizendo que o Ayurveda manda fazer duas vezes por semana”,
explica.
7. Existe um tempo perfeito
para deixar o óleo agir? MITO!
As duas horas não constituem uma regra universal
estabelecida pelo Ayurveda. Esse é o período que Nina costuma utilizar em seu
próprio ritual e orientar para os óleos capilares da Taila Veda.
“Eu gosto de deixar pelo menos duas horas, mas não
existe um tempo perfeito. Se a pessoa consegue permanecer mais tempo, ótimo. Se
naquele dia a rotina permite apenas trinta minutos antes da lavagem, também
está tudo bem. O cuidado não está apenas no número de horas. Está também na
massagem, na frequência e na continuidade”, explica.
8. Quanto mais tempo o óleo
ficar, necessariamente melhor? MITO!
Permanecer mais tempo com o óleo pode fazer parte
do ritual, mas não existe uma relação proporcional entre número de horas e
resultado.
“Não é porque alguém deixou quatro horas que
necessariamente fez uma prática duas vezes melhor do que quem deixou duas. O
tempo é apenas uma parte de um cuidado que também envolve escolha, toque e
constância”, afirma Nina.
9. Pode dormir com óleo no
cabelo? DEPENDE!
Na visão tradicional aprendida por Nina, a
preferência seria realizar a oleação durante o dia e retirar o óleo antes de
dormir. Na adaptação para a vida contemporânea, porém, ela considera que o
ritual pode ser flexibilizado quando a aplicação noturna é a maneira possível
de manter a prática.
“Adaptar não significa ignorar a tradição. Significa
saber de onde a prática veio, compreender como ela foi ensinada e, a partir
daí, encontrar uma forma consciente de trazê-la para a vida que temos hoje”,
diz.
10. Cabelo oleoso não pode
receber óleo? MITO!
Oleosidade e nutrição não são a mesma coisa. Um
couro cabeludo oleoso também pode receber a prática, desde que sejam
consideradas a escolha do óleo, a quantidade utilizada e a maneira de
aplicação.
11. Todo mundo deve usar o
mesmo óleo? MITO!
A escolha pode variar conforme aquilo que é
observado em determinado momento. No Força de Gaya, da Taila Veda, por exemplo,
existem versões com TCM de coco e óleo de gergelim. A base de TCM tem natureza
mais refrescante e pode ser escolhida quando se busca maior frescor ou durante
períodos mais quentes. Já o gergelim possui natureza mais aquecedora e
nutritiva e pode fazer mais sentido diante de ressecamento, frio, couro
cabeludo seco ou fios que pedem mais nutrição.
Isso não significa que uma pessoa precise utilizar
sempre a mesma base. As necessidades podem mudar de acordo com o momento, o
corpo e as estações do ano.
12. Oleação é apenas
hidratação? MITO!
Reduzir Snehana à hidratação deixa de fora parte da
lógica dessa prática dentro do Ayurveda. Sneha é uma palavra que estabelece uma
relação entre óleo e afeto, e a oleação envolve tanto a substância escolhida
quanto o toque.
“Quando massageamos o couro cabeludo ou o corpo,
existe um momento de percepção que não acontece quando simplesmente aplicamos
um cosmético e seguimos o dia”, afirma Nina.
Para Nina, adaptar práticas ayurvédicas à vida
contemporânea não significa reproduzir rigidamente uma rotina tradicional, nem retirar
sua lógica até transformá-la apenas em uma tendência de beleza. O ponto de
partida está em compreender a origem e o propósito da prática para, então,
encontrar maneiras possíveis de incorporá-la ao cotidiano.
“O Ayurveda não precisa se tornar mais uma cobrança.
Para mim, ele precisa ensinar observação. Saber o que estamos utilizando,
entender por que aquele óleo faz sentido naquele momento, observar como o corpo
responde e construir constância”, conclui.
Para colocar a oleação em
prática
Força de Gaya com óleo de
gergelim: óleo capilar formulado com Amla, babosa,
Bhringaraj e alecrim, tendo o óleo de gergelim como base. Segundo o catálogo da
Taila Veda, a versão de energia quente é indicada especialmente para períodos
frios ou cabelos muito ressecados.
Força de Gaya com TCM de coco:
traz as mesmas quatro plantas, mas utiliza óleo de
coco fracionado como base. De energia fria na classificação ayurvédica
apresentada pela marca, é a versão indicada para períodos mais quentes e couro
cabeludo sensível ou inflamado.
Óleo Shatavari: óleo corporal feminino formulado com raiz de Shatavari e óleo de
gergelim. A orientação é aquecer levemente entre as mãos e aplicar com
movimentos circulares no ventre ou em outras partes do corpo.
Taila Veda

Nenhum comentário:
Postar um comentário