Especialistas dão dicas de como pais e educadores
podem equilibrar o uso da tecnologia sem transformá-la em inimiga
A
chegada de ‘Toy Story 5’ aos cinemas reacende uma discussão cada vez mais
presente entre famílias e educadores: qual deve ser o lugar da tecnologia na
infância? No filme da Pixar, os brinquedos se veem diante de um novo desafio
com a chegada de uma personagem tecnológica, colocando novamente em pauta a
relação das crianças com dispositivos digitais.
O
debate, no entanto, vai além de estabelecer quanto tempo uma criança pode
passar diante de uma tela. O desafio está em construir uma relação equilibrada
com a tecnologia, sem tratá-la como vilã, mas também sem permitir que ela ocupe
o espaço de experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil.
“Estamos oferecendo às crianças uma quantidade enorme de
informação, mas precisamos nos perguntar se estamos criando oportunidades
suficientes para que elas aprendam a interpretar o que recebem, conversar sobre o conteúdo que assistem e
construir o próprio pensamento”, diz Barbara Stock, bacharel em ciências
sociais, comunicadora e cofundadora do projeto Café com Leite na Escola. Criado
em parceria com o escritor e comunicador Luciano Pires, o programa educacional
complementar nasceu a partir do podcast Café Com
Leite e utiliza histórias em áudio como ponto de partida para conversas
mediadas, atividades pedagógicas e experiências de reflexão compartilhada para
alunos do Ensino Fundamental I.
Para ajudar pais e
responsáveis a construir uma relação mais saudável entre crianças e tecnologia,
Bárbara destaca três caminhos:
1. Em vez de apenas controlar o tempo de tela, observe o que ela está
substituindo
Estabelecer
limites para o uso de telas é importante. Porém, a discussão não deve se
resumir ao número de minutos diante dos dispositivos eletrônicos. Também é
necessário observar o que acontece durante esse período e, principalmente, o
que deixa de acontecer por causa dele.
Brincadeiras,
leitura, conversas em família e atividades físicas também são fundamentais para
o desenvolvimento infantil. “Mais importante do que
transformar a tecnologia em inimiga é garantir que ela não ocupe o lugar
das experiências que ajudam a criança a compreender o mundo e a construir o
próprio pensamento”, afirma Bárbara.
2. Transforme o consumo de conteúdo em oportunidade para conversar
Uma
criança pode assistir a um filme, jogar ou acompanhar um vídeo e simplesmente
passar para o próximo conteúdo. Esse momento precisa ser transformado em uma
oportunidade para conversar e fazê-la refletir sobre a experiência. “Estimular
a criança a contar o que assistiu, conversar sobre o que ela achou e como ela
teria agido em determinada situação são formas de estimular a interpretação, a
solução de problemas, a expressão de ideias e a capacidade de participar de
diálogos construtivos”, destaca.
3. Crie momentos de escuta sem a interferência das telas
Em
uma rotina marcada por estímulos constantes, criar momentos em que a criança
simplesmente possa ouvir e conversar pode ser mais importante do que oferecer mais um conteúdo a partir de uma tela.
“Quando uma criança escuta uma história e depois conversa sobre ela, aprende a organizar
ideias, interpretar, ouvir o outro, argumentar e construir uma compreensão
própria sobre o que foi apresentado”, diz a socióloga.
Tecnologia não precisa ser vilã
As
crianças continuarão crescendo em um ambiente digital e a escola e a família
têm o papel de ajudá-las a desenvolver repertório para lidar com esse universo
de maneira mais consciente.
“Nosso
projeto partiu de uma constatação incômoda: nunca houve tanto acesso à
informação, mas a capacidade de interpretar parece cada vez mais frágil. O
desafio é contribuir para que as crianças sejam capazes de escutar, confrontar
diferentes pontos de vista, fazer perguntas e pensar antes de responder”,
conclui Luciano Pires.
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