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O aparelho psíquico - o emocional - sente-se muito
mais confortável com aqueles que são semelhantes. Pense em como é fácil
conversar com quem é do mesmo time de futebol, quem gosta dos mesmos assuntos,
tem os mesmos valores, tem filhos ou estudou no mesmo colégio que você.
Em toda empresa, os profissionais sentem como é
fácil trabalhar com quem, de alguma forma, fala a mesma língua. Ou seja, quando
os profissionais têm uma certa identificação - flui. Mas todos falam que sempre
há um ou outro profissional com quem tudo é travado e com quem o trabalho não
flui.
Existem recursos emocionais para que as pessoas
consigam se conectar e trabalhar juntas. O pai da psicanálise Sigmund Freud
(1856-1939) publicou "Psicologia das massas e análise do eu" em 1921
e deu diversas dicas partindo da ideia de que, para alguém ouvir e enxergar o
outro, não adianta existir apenas biologicamente um na frente do outro. É
preciso um laço emocional que faça a ligação afetiva e coloque a roda para
girar.
Neste artigo, Freud diz que "a identificação é
a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa" e que, sem
esse laço, o ser humano não vê o outro de fato, não o reconhece. A pessoa olha,
mas não vê; escuta, mas não ouve. Muitos do mundo corporativo, na análise,
dizem que falam várias vezes, e o funcionário não obedece e não entrega no
prazo. Por isso, sente como se falasse ao vento.
Isso acontece por não haver nem o menor laço de
ligação. O funcionário nem o considera para ouvi-lo. O que fazer, então?
É necessário criar esse laço para a roda girar no
trabalho. Sem identificação por um personagem ou um assunto de um filme, uma
série ou um livro, a pessoa para de acompanhar aquele conteúdo. Ela não cria
vínculo. Não tem empolgação para continuar.
Freud explica que, a partir da identificação, é
possível construir um ideal. Um vir-a-ser. É o que as pessoas comumente chamam
de admiração e respeito. É assim também que se criam laços afetivos mais
profundos, que avançam para parcerias e amizades.
Desta forma, caso haja alguém em seu meio de
trabalho que pareça totalmente desconectado das relações políticas
empresariais, das entregas e dos diálogos, tente pensar sobre o que essa pessoa
gosta. Questões simples como comida, hábitos, roupas, pets ou algum jogo
específico. Puxe assunto, fale, ria. Mostre que entende. Troque fotos.
Coloque-se como igual a ele, crie a identificação.
Não adianta apenas discutir trabalho sem que o
menor laço emocional exista, porque tudo fica muito mais difícil, gerando
sintomas e dificuldades no trabalho. O aparelho psíquico é simples. Mas, para
tudo funcionar, ele precisa se sentir visto e incluso.
Fabiana
Ratti - Com mais de 25 anos de experiência na Psicanálise, Fabiana Ratti é
psicóloga, mestra em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica
(PUC-SP) e autora do livro " Café com Freud e Lacan - Liderança e laços
afetivos e políticos no cotidiano e no mercado.

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