Dados inéditos da PeNSE 2024, divulgados pelo IBGE em 2026, revelam um cenário preocupante de saúde mental entre jovens e reforçam a importância de reconhecer o sofrimento antes que ele se transforme em uma situação de crise
Os dados mais recentes sobre a saúde mental de adolescentes brasileiros acendem um sinal de alerta. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024/IBGE), divulgada em março deste ano, 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos afirmaram ter sentido, na maioria das vezes ou sempre, que "a vida não vale a pena ser vivida" nos 30 dias anteriores à pesquisa. Entre as meninas, o percentual chegou a 25%, mais que o dobro do observado entre os meninos, de 12%. O levantamento ouviu 118.099 estudantes de 4.167 escolas públicas e privadas de todo o país (PeNSE 2024/IBGE).
Outro indicador chama atenção: 32% dos adolescentes disseram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores à pesquisa. O levantamento também mostrou que 28,9% dos escolares disseram se sentir tristes, enquanto 42,9% relataram sentir-se irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa (PeNSE 2024/IBGE).
Os números ajudam a dimensionar um problema que, para a psicóloga Aline Rezende Graffiette, especialista em saúde mental e comportamento e fundadora da Mental One, precisa ser discutido para além dos momentos de crise. Para ela, o principal desafio é reconhecer que mudanças emocionais importantes podem aparecer no cotidiano muito antes de alguém verbalizar que precisa de ajuda.
"Os dados mostram que existe uma
parcela expressiva de adolescentes convivendo com sentimentos que não deveriam
ser tratados simplesmente como uma fase. Não significa que todo adolescente que
apresenta tristeza ou irritabilidade esteja com um transtorno ou em risco de
suicídio, mas significa que esses sinais precisam ser escutados e
contextualizados. O erro é esperar que o sofrimento fique evidente demais para
só então agir", explica Aline.
Meninas
apresentam indicadores mais preocupantes
A diferença entre meninos e meninas é
um dos pontos que mais chama atenção na pesquisa — e o mesmo padrão se repete
em outros indicadores de sofrimento emocional levantados pela PeNSE 2024/IBGE.
Para Aline, esses dados mostram que
falar sobre saúde mental na adolescência também exige considerar experiências
diferentes entre os gêneros.
"A adolescência já é um período
de intensas transformações, de construção da identidade e de busca por
pertencimento. Quando acrescentamos pressão estética, comparação social, medo
de rejeição e necessidade de aprovação, podemos criar uma combinação muito
difícil de administrar. Precisamos olhar para esses contextos sem transformar
um único fator em explicação para tudo", afirma.
Redes sociais: o
problema não é apenas o tempo de tela
A discussão sobre saúde mental dos
adolescentes inevitavelmente passa pelo ambiente digital. Para a psicóloga,
porém, reduzir a questão ao número de horas diante de uma tela é insuficiente.
"Mais importante do que
perguntar apenas quanto tempo um adolescente passa no celular é entender o que
ele está vivendo nesse ambiente. Ele está se comparando constantemente? Sente
que precisa ser aceito? Está sofrendo com comentários, exclusão ou
cyberbullying? Está deixando de dormir para permanecer conectado? Está
acompanhando conteúdos que aumentam sua ansiedade?", questiona.
A especialista explica que as redes
podem funcionar como espaço de conexão e pertencimento, mas também podem
ampliar experiências de comparação e exposição. Por isso, o papel dos adultos
não deveria ser apenas controlar o acesso, mas acompanhar como o adolescente
está se relacionando com esse ambiente.
"Proibir o celular não resolve necessariamente
o problema. Precisamos ensinar o adolescente a reconhecer como determinados
conteúdos e interações afetam seu estado emocional e, principalmente, criar
espaço para que ele possa contar o que está acontecendo sem medo de julgamento
ou punição", afirma.
Quando a
irritabilidade pode ser um pedido de ajuda?
O dado sobre irritabilidade citado
anteriormente, segundo Aline, pode ser especialmente difícil de identificar
porque costuma ser interpretado pelos adultos como "rebeldia",
"drama" ou simplesmente uma característica da adolescência.
"Nem toda irritabilidade é sinal
de sofrimento psíquico. Adolescência envolve mudanças emocionais e
comportamentais. O que precisamos observar é quando existe uma mudança
significativa em relação ao padrão daquele adolescente, quando o comportamento
se torna persistente ou quando começa a prejudicar relações, estudos, sono,
alimentação ou atividades que antes faziam parte da rotina", explica.
Para a psicóloga, o mesmo vale para o
isolamento. Querer ficar sozinho eventualmente é diferente de perder o
interesse por pessoas e atividades que antes eram importantes.
O que os adultos
podem observar
Mais do que procurar um "sinal
de suicídio", pais, responsáveis, professores e outros adultos próximos
podem prestar atenção a mudanças persistentes no comportamento. Entre os pontos
que merecem atenção estão:
· isolamento
repentino ou aumento significativo do afastamento social
· mudanças
importantes no sono
· perda
de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer
· irritabilidade
ou tristeza persistentes
· queda
significativa no rendimento escolar
· alterações
marcantes na alimentação
· sensação
frequente de desesperança ou inutilidade
· mudanças
bruscas na forma de se relacionar com amigos e familiares
· falas recorrentes sobre não fazer sentido estar vivo ou sobre não enxergar perspectivas
"Nenhum desses sinais,
isoladamente, permite concluir que existe risco de suicídio. O mais importante
é observar mudanças, frequência e intensidade e, diante de uma preocupação
real, não tentar resolver tudo sozinho. Buscar orientação profissional é uma
forma de cuidado", ressalta Aline.
A prevenção
começa antes da crise
A pesquisa também mostrou que apenas 47,7% dos estudantes estavam em escolas que contavam com algum tipo de suporte psicológico para alunos, professores e funcionários em situações relacionadas a bullying e violência. Na rede pública, o percentual era de 45,8%, enquanto na rede privada chegava a 58,2% (PeNSE 2024/IBGE).
Para Aline, o dado reforça que a prevenção depende de uma rede de cuidado que não pode ficar restrita à família ou ao indivíduo. "Quando falamos de prevenção, precisamos pensar em família, escola, serviços de saúde e comunidade. O adolescente precisa ter para quem recorrer e precisa saber que pedir ajuda não significa que ele está fraco ou que fez algo errado", afirma.
A especialista também reforça que o
Setembro Amarelo não deve ser encarado apenas como um período para falar sobre
suicídio, mas como uma oportunidade para discutir saúde mental de maneira mais
ampla. "Prevenção não começa quando alguém está em uma situação extrema.
Ela começa quando conseguimos falar sobre sentimentos, quando um adolescente
sabe que pode dizer que não está bem, quando os adultos aprendem a ouvir sem
minimizar e quando existe acesso a profissionais que possam avaliar cada
situação. Quanto antes reconhecemos o sofrimento, maior é a possibilidade de
construir uma rede de cuidado", finaliza Aline.
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