Trocas de sons podem fazer parte do desenvolvimento, mas fala difícil de entender, ausência de evolução e frustração da criança exigem atenção
“Tatola”
no lugar de “sacola”, “pato” em vez de “prato” e outras trocas costumam
divertir a família nos primeiros anos de vida. Embora algumas dificuldades
sejam esperadas durante o desenvolvimento da fala, nem todo erro deve ser
tratado como algo que desaparecerá sozinho.
Segundo
Adriana Fiore fonoaudióloga infantil, o mais importante não é esperar que a criança
fale perfeitamente, mas observar se existe uma evolução contínua.
“Nos
primeiros anos, a criança está organizando os sons da língua e aprendendo a
coordenar movimentos dos lábios, da língua e da mandíbula. Algumas
simplificações são naturais, mas a fala precisa amadurecer, ganhar novos sons e
ficar cada vez mais clara”, explica.
Em
geral, por volta dos 4 anos, espera-se que a criança seja compreendida com
facilidade, inclusive por pessoas que não convivem com ela diariamente. Adriana
aponta cinco situações que merecem atenção dos pais.
1. Poucas pessoas entendem o que a criança fala
Se
apenas os familiares mais próximos conseguem compreender a criança ou precisam
traduzir constantemente o que ela diz, uma avaliação pode ser necessária.
“Quando
a criança precisa repetir muitas vezes e, mesmo assim, não é compreendida, ela
pode começar a sentir vergonha, irritação ou evitar situações nas quais precisa
falar”, alerta a fonoaudióloga.
2. As trocas são frequentes e não diminuem
Erros
de pronúncia podem acontecer durante a aquisição da fala. O sinal de atenção
surge quando as trocas continuam muito presentes e não apresentam melhora ao
longo dos meses.
“O
desenvolvimento deve ser progressivo. Mais importante do que comparar a criança
com outras da mesma idade é perceber se ela está ampliando seu repertório e se
tornando mais fácil de compreender”, orienta Adriana.
3. A criança fala poucas palavras ou não forma frases
Dificuldade
para pronunciar determinados sons não é a mesma coisa que atraso de linguagem.
A criança pode compreender tudo, ter um bom vocabulário e formar frases, mas
não conseguir produzir alguns sons corretamente. Nesse caso, a dificuldade está
mais relacionada à fala.
Já
o atraso de linguagem pode envolver poucas palavras para a idade, dificuldade
para construir frases, compreender orientações ou organizar aquilo que deseja
dizer.
“Fala
é a maneira como pronunciamos os sons. Linguagem envolve compreender e
comunicar ideias, sentimentos e desejos. Essa diferença é importante para
definir o tipo de acompanhamento necessário”, esclarece.
4. A dificuldade provoca sofrimento ou isolamento
Irritação,
recusa em falar, vergonha, necessidade constante de ajuda dos pais e
afastamento de brincadeiras ou conversas também devem ser observados.
Esperar
que a criança simplesmente cresça e melhore sozinha pode atrasar a
identificação de uma dificuldade que necessita de acompanhamento.
“Quando
o problema persiste, pode afetar a participação social, a aprendizagem, a
alfabetização e a autoestima. Procurar ajuda cedo não é antecipar um problema,
mas evitar que ele ocupe um espaço maior na vida da criança”, afirma Adriana.
5. A fala não apresenta evolução ao longo dos meses
Mais
do que focar em uma troca isolada, os pais devem acompanhar o desenvolvimento
como um todo. Se a criança permanece falando da mesma maneira por muito tempo,
sem adquirir novos sons e sem melhorar a clareza, é indicado buscar orientação
profissional.
A
avaliação fonoaudiológica não significa que a criança necessariamente precisará
iniciar uma terapia.
“Muitas
vezes, a avaliação serve para orientar a família, acompanhar o desenvolvimento
e trazer tranquilidade. Se houver necessidade de intervenção, começar cedo pode
fazer uma diferença importante”, explica.
Como os pais podem ajudar em casa?
Conversar
olhando para a criança, ler histórias, cantar, nomear objetos e dar tempo para
que ela tente se expressar são atitudes que estimulam a comunicação. Em vez de
corrigir de forma rígida, os adultos podem repetir a palavra corretamente
dentro da conversa.
Se
a criança disser “quero o pato” para pedir um prato, por exemplo, o responsável
pode responder: “Você quer o prato? Eu vou pegar o prato para você”.
Adriana
também recomenda atenção à alimentação e aos hábitos orais. De acordo com a
especialista, a mastigação de consistências adequadas para cada fase contribui
para o desenvolvimento dos movimentos usados na fala. O uso prolongado de
chupeta e mamadeira, a alimentação sempre muito pastosa e a pouca oportunidade
de mastigar diferentes texturas podem interferir nesse processo.
“A
fala começa a ser preparada muito antes da primeira palavra. Desde o
nascimento, a criança desenvolve as estruturas e a coordenação que serão usadas
para produzir sons cada vez mais complexos”, conclui.
Dra. Adriana Fiore - Fonoaudióloga – CRFa 2-12078. Mestre em Distúrbios da Comunicação (PUC-SP). Pós-graduada em Processamento Auditivo Central. Especialista em Voz pelo CEV – Centro de Estudos da Voz. Idealizadora e Diretora da AplusKids
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