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sábado, 12 de setembro de 2026

Setembro Amarelo: suicídio de jovens cresce 38% e bullying avança nas escolas

 Mais de um quarto dos estudantes brasileiros relata humilhações recorrentes; especialista orienta como reconhecer mudanças de comportamento e agir diante de falas sobre morte

 

O suicídio entre adolescentes e jovens adultos aumentou 38% nas Américas entre 2000 e 2021, mais que o dobro do avanço registrado na população geral, de 17%. Em 2021, 18.157 pessoas de 10 a 24 anos morreram por suicídio na região. O crescimento mais acentuado ocorreu justamente entre crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, segundo estudo publicado em maio de 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas.

No Brasil, dados divulgados neste ano pelo IBGE também mostram um avanço do bullying. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, revelou que 27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos sofreram provocações ou humilhações de colegas duas vezes ou mais nos 30 dias anteriores ao levantamento. Em 2019, eram 23%. Entre as meninas, o índice chegou a 30,1%.

Os números reforçam, neste Setembro Amarelo, a necessidade de preparar as escolas para identificar situações de violência e sofrimento emocional. Embora o suicídio seja um fenômeno complexo e multifatorial, o ambiente escolar pode ajudar a perceber mudanças, acolher o estudante e acionar a família e os serviços especializados.

“Não existe um sinal isolado que funcione como um alarme. Muitos adolescentes escondem o que estão vivendo porque acreditam que envolver um adulto pode piorar a situação ou fazer com que sejam vistos como frágeis. O que a escola precisa aprender a reconhecer é a ruptura de padrão, quando a criança era de um jeito e passa a agir de outro”, explica Mariana Ruske, pedagoga e especialista em Neurociência da Senses Montessori School.

Isolamento, irritabilidade, queda repentina no rendimento, faltas seletivas, resistência em ir à escola, dores recorrentes sem causa clínica, materiais quebrados ou desaparecidos e abandono de atividades antes prazerosas merecem atenção. Outro comportamento possível é o estudante passar a se esconder durante o intervalo em locais como banheiro, biblioteca ou secretaria.

“A tristeza na adolescência nem sempre se apresenta como tristeza. Muitas vezes, ela aparece como irritação, mau humor e reatividade, comportamentos que costumam afastar os adultos justamente quando o adolescente mais precisa de aproximação”, afirma Mariana.

A PeNSE 2024 constatou que 42,9% dos estudantes se sentiram irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa. Entre as meninas, o percentual foi de 58,1%. A satisfação com a própria imagem corporal também caiu de 70,2%, em 2015, para 58%, em 2024. Aparência do rosto, do corpo e do cabelo permanece entre os principais motivos relatados para o bullying.
 

Bullying não deve ser tratado como uma briga entre iguais

A especialista explica que três características ajudam a diferenciar um conflito pontual de bullying: intenção de causar dano, repetição e desequilíbrio de poder. Quando esses elementos estão presentes, colocar vítima e agressor frente a frente para “resolver a situação” pode aumentar o sofrimento.

“Conflitos entre estudantes podem ser mediados. No bullying, não há uma relação equilibrada. Obrigar um pedido público de desculpas, expor a vítima ou mudá-la de turma como primeira medida pode transmitir a mensagem de que ela é o problema”, alerta.

Ao identificar uma ocorrência, a escola deve ouvir os envolvidos separadamente, comunicar as famílias, registrar datas, locais, relatos e possíveis testemunhas, além de acompanhar o caso. Os registros são importantes porque ajudam a reconhecer a repetição que caracteriza a intimidação sistemática.

A atuação também deve incluir o estudante que pratica o bullying. “Responsabilizar é necessário, mas apenas rotular e expulsar não muda o comportamento. Em alguns casos, quem agride também vive situações de violência ou sofrimento e precisa de avaliação e acompanhamento”, acrescenta.
 

O que fazer quando um aluno fala sobre morte?

Toda fala sobre morte, vontade de desaparecer, automutilação ou falta de sentido para continuar vivendo deve ser levada a sério. O adulto precisa permanecer ao lado do estudante, ouvir sem julgamentos e não prometer segredo.

“A primeira atitude é ficar. Não mudar de assunto, não moralizar e não deixar o aluno sozinho. É importante dizer que ele fez bem em contar e explicar que outras pessoas precisarão participar para ajudá-lo”, orienta Mariana.

A escola deve registrar o relato e comunicar a família no mesmo dia, preferencialmente de forma presencial, encaminhar o estudante para avaliação especializada e escolher uma pessoa de referência para acompanhá-lo. Se houver suspeita de violência ou risco dentro de casa, a rede de proteção, incluindo o Conselho Tutelar, deve ser acionada.

“A escola não faz tratamento. Ela observa, acolhe, comunica, encaminha e continua presente. O professor também não pode receber sozinho a responsabilidade de conduzir um caso que exige ajuda especializada”, reforça a pedagoga.

A legislação brasileira prevê serviços de Psicologia e Serviço Social nas redes públicas de educação básica e instituiu, em 2024, a Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades Escolares. Na prática, porém, a cobertura ainda é limitada. Segundo a PeNSE 2024, apenas 47,7% dos estudantes frequentavam escolas com algum tipo de suporte psicológico para casos de bullying e violência.

Para Mariana, palestras e campanhas pontuais não são suficientes. A prevenção precisa envolver educação emocional desde a infância, diálogo permanente com as famílias, formação dos profissionais, regras claras, registro das ocorrências e fortalecimento do sentimento de pertencimento.

“Prevenção não é apenas colocar um laço amarelo no mural durante setembro. Ela aparece na forma como a escola reage a uma humilhação, acompanha uma mudança de comportamento e constrói relações nas quais o estudante percebe que tem valor, é ouvido e fará falta se não estiver ali”, conclui.

Serviço de ajuda: Em situações de risco imediato, procure atendimento de urgência ou ligue para o Samu pelo 192. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.

 

Mariana Ruske - Pedagoga da Senses Montessori School


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