Ginecologista explica a diferença entre TPM e TDPM, revela os mecanismos biológicos por trás do transtorno e destaca a importância do diagnóstico integrado entre Ginecologia e Psiquiatria
Durante o Setembro
Amarelo, mês voltado à conscientização e prevenção do suicídio, um alerta
fundamental sobre a saúde mental feminina ganha relevância: a relação entre o
ciclo menstrual e o sofrimento psíquico grave. Frequentemente invisibilizado e
rotulado de forma preconceituosa como "frescura" ou
"drama", o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM)
atinge mulheres em idade fértil e pode provocar episódios recorrentes de
ideação suicida todos os meses.
Para conscientizar
a população sobre a condição, a ginecologista e docente do curso de Medicina da
Unifran, Profa. Dra. Elisabete Lilian, explica como identificar
os sinais de alerta, o que acontece no organismo feminino e como funciona o
tratamento que devolve a qualidade de vida a mais de 90% das pacientes.
TPM comum vs.
TDPM: a conexão com o Setembro Amarelo
Enquanto a TPM
comum causa desconfortos como inchaço, irritabilidade leve e vontade de comer
doces alguns dias antes da menstruação sem paralisar a rotina, o TDPM é uma
condição médica grave e incapacitante.
"No TDPM, a
mulher enfrenta sintomas tão intensos que não consegue ser ela mesma por 7 a 14
dias todos os meses. Surgem crises de choro, raiva explosiva, ansiedade
sufocante, sensação de perda de controle e, o mais preocupante: tristeza
profunda acompanhada pela sensação de que seria melhor não existir ou vontade
de sumir", alerta a doutora.
A médica reforça
que é justamente nessa repetição cíclica que reside a conexão direta com o
Setembro Amarelo. "Como o TDPM costuma ser invisibilizado, a mulher sofre
calada por anos achando que é 'louca'. Quando os pensamentos suicidas se
repetem todo mês sem acolhimento, o risco aumenta muito. Falar de TDPM no
Setembro Amarelo é salvar vidas, mostrando que esse sofrimento tem nome, causa biológica
e tratamento. Não é fraqueza."
Uma reação
química real: por que não é frescura, Bipolaridade ou Borderline?
Por apresentar
sintomas como oscilações bruscas de humor e impulsividade, o TDPM é
frequentemente confundido com Transtorno Bipolar ou Borderline. A grande
diferença está no calendário: no TDPM, a alteração ocorre exclusivamente na
fase lútea (segunda metade do ciclo menstrual, após a ovulação) e melhora em
dois a três dias após a chegada da menstruação.
Biologicamente, o
problema não é o excesso ou a falta de hormônios, mas a extrema sensibilidade
do cérebro às variações hormonais normais do ciclo:
- Queda
do 'calmante' natural: na fase lútea, os níveis de
progesterona sobem e depois caem bruscamente. O cérebro converte a
progesterona em alopregnanolona, um neuroesteroide que se conecta
aos receptores GABA-A, o mesmo local onde agem os remédios calmantes
(benzodiazepínicos). Quando a taxa cai, o cérebro da mulher com TDPM entra
em uma espécie de "abstinência".
- Queda
da serotonina: junto com a variação da progesterona, a queda
do estrogênio reduz os níveis de serotonina, o neurotransmissor
responsável pelo bem-estar e regulação do humor.
Sinais de
emergência e como acolher
A especialista da
Unifran aponta os principais sinais de alerta de que a dor ultrapassou o limite
e exige intervenção imediata:
- Ciclo
de isolamento e sofrimento: a mulher se transforma por
1 a 2 semanas no mês, falta ao trabalho, isola-se na cama e entra em
grandes conflitos familiares, voltando ao normal após a menstruação.
- Desesperança
e frases de alerta: desabafos frequentes como "não
aguento mais ser assim", "sou um peso para todos"
ou "minha família seria melhor sem mim".
- Medo
de si mesma: a própria paciente relata medo do que pode
fazer contra si durante a fase pré-menstrual.
- Uso
de substâncias: recorrer ao álcool, automedicação ou
automutilação para aliviar o sofrimento emocional.
"Se você
percebe isso em alguém, nunca diga que é 'drama' ou 'só TPM'. Diga: 'percebo
que todo mês nessa época você sofre muito, estou aqui e vamos buscar ajuda
juntos'. Se houver risco iminente ou plano de suicídio, deve-se procurar um
pronto-socorro imediatamente ou ligar para o Centro de Valorização da Vida (CVV)
pelo número 188", orienta a ginecologista.
Tratamento
integrado: Ginecologia + Psiquiatria
Embora não tenha
uma cura definitiva, o TDPM pode ser totalmente controlado quando
diagnosticado de forma correta. O sucesso do tratamento exige uma abordagem multidisciplinar
e integrada:
- Ginecologia:
atua para estabilizar a montanha-russa hormonal por meio de esquemas
específicos de anticoncepcionais (com pausa curta ou sem pausa), DIU
hormonal ou outras abordagens que evitem a queda hormonal brusca.
- Psiquiatria
e Psicologia: oferecem suporte neurológico e emocional.
Antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina podem ser
prescritos (por vezes utilizados apenas na segunda metade do ciclo). A
psicoterapia auxilia no manejo dos gatilhos e na reconstrução das relações
afetivas e profissionais desgastadas.
- Estilo
de vida: atividade física regular, manutenção de um
sono regular, redução de álcool e cafeína na fase lútea, além de
suplementação orientada de cálcio, magnésio e vitamina B6.
"Nenhuma mulher precisa aceitar viver metade da vida se sentindo péssima e a outra metade carregando culpa por isso. O TDPM é uma condição médica séria que merece diagnóstico rápido, tratamento e acolhimento", finaliza a Dra. Elisabete.
Unifran
www.unifran.edu.br
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