Com medicamentos capazes de provocar perdas expressivas de peso, pesquisadores agora tentam resolver um novo problema: fazer o corpo eliminar gordura sem sacrificar uma quantidade importante de massa magra
Perder 15, 20 ou até mais quilos deixou de ser um resultado tão improvável dentro dos consultórios.
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida transformaram o
tratamento da obesidade e inauguraram uma geração de terapias capazes de
produzir reduções de peso que, poucos anos atrás, eram muito mais difíceis de
alcançar sem cirurgia.
Só que o avanço trouxe uma nova pergunta. Quando uma pessoa
perde 20 quilos, o que exatamente desapareceu do corpo? Porque a balança não sabe
diferenciar gordura de músculo.
E agora que a medicina aprendeu a fazer pacientes
emagrecerem cada vez mais, pesquisadores começaram a perseguir um objetivo mais
sofisticado: fazer com que uma parcela ainda maior dessa perda venha da
gordura, preservando ao máximo a massa magra.
Dois estudos publicados em 2026 na revista científica Nature
Medicine mostram que essa corrida já começou. As pesquisas
combinaram medicamentos conhecidos para perda de peso com substâncias
experimentais voltadas à preservação muscular, e conseguiram alterar
significativamente a composição dos quilos perdidos.
“O número na balança conta apenas uma parte da história. Uma
pessoa pode perder bastante peso e ainda assim precisarmos avaliar de onde essa
perda veio, principalmente quando falamos de pacientes mais velhos ou de
pessoas que já apresentam pouca massa muscular”, explica o médico nutrólogo Dr.
Cláudio Mutti.
Emagrecer nunca
significou perder apenas gordura
A perda de massa magra não nasceu com Ozempic ou Mounjaro.
Ela também acontece quando alguém emagrece por meio de
dietas muito restritivas ou outras intervenções. Quando o corpo perde uma
quantidade relevante de peso, normalmente elimina gordura, mas também alguma
massa magra.
Uma grande análise publicada em 2026, reunindo 20 estudos e
mais de 15 mil pessoas, encontrou algo interessante: nos tratamentos com
medicamentos da classe das incretinas, entre aproximadamente um quarto e pouco
mais de um terço do peso perdido podia corresponder a massa magra. Nas
intervenções intensivas apenas com mudanças de estilo de vida, a proporção foi
semelhante.
Isso desmonta uma interpretação que se tornou comum nas
redes sociais: a ideia de que os novos medicamentos estariam simplesmente
“derretendo músculos”. Não é isso.
A maior parte do peso perdido continua vindo da gordura. O
problema é outro: quando as perdas se tornam muito grandes, preservar aquilo
que não queremos perder começa a importar ainda mais.
A próxima geração
quer escolher melhor de onde o peso sai
É justamente essa a lógica por trás de uma das pesquisas que
mais chamaram atenção neste ano. Em um estudo com mais de 500 adultos com
obesidade, pesquisadores combinaram a semaglutida com uma substância experimental
chamada bimagrumab.
O objetivo não era simplesmente fazer as pessoas emagrecerem
mais. Era observar se seria possível mudar o tipo de tecido perdido durante o
processo. E o resultado chamou atenção.
Entre aqueles que receberam apenas semaglutida, houve
redução de massa magra. Quando o medicamento foi combinado ao tratamento
experimental, essa perda caiu consideravelmente - enquanto a eliminação de
gordura aumentou.
Na combinação de maior dose estudada, mais de 90% do peso
eliminado foi atribuído à gordura. É uma mudança aparentemente pequena na
pergunta científica, mas enorme na prática.
Em vez de buscar apenas: “Como fazer alguém perder mais
peso?”
a pesquisa começa a perguntar: “Como
fazer alguém perder o peso que queremos que ela perca?”
Por que existe tanta preocupação com músculo?
Porque músculo está longe de servir apenas para criar um
corpo definido. “O tecido muscular participa diretamente do movimento, da força
e da autonomia, mas também desempenha papel importante na utilização da glicose
e na saúde metabólica”, explica o Dr. Cláudio Mutti.
E existe outro fator decisivo: nós já perdemos músculo
naturalmente à medida que envelhecemos.
Por isso, uma redução adicional pode se tornar
particularmente importante para pessoas que chegam ao tratamento com pouca
reserva muscular, vida sedentária ou idade mais avançada. Uma pessoa pode,
inclusive, ter excesso de gordura corporal e pouca musculatura ao mesmo tempo.
É uma situação especialmente preocupante na maturidade,
porque força muscular está relacionada à capacidade de caminhar, levantar de
uma cadeira, manter equilíbrio e preservar independência ao longo dos anos.
É nesse ponto que emagrecimento e longevidade começam a se
encontrar. “Manter músculo significa manter uma espécie de reserva funcional
para o futuro. Não estamos falando apenas de estética. Estamos falando de
continuar forte o suficiente para viver com autonomia”, ressalta o nutrólogo.
Isso significa que
teremos um novo remédio para tomar junto com Mounjaro?
Ainda não.
As substâncias testadas nesses estudos continuam
experimentais, e os resultados publicados até agora vieram de pesquisas de fase
2.
Ainda será necessário descobrir se os benefícios se mantêm
no longo prazo, quais pacientes realmente podem se beneficiar e, principalmente,
se preservar mais massa magra nos exames também se traduz em ganhos relevantes
de força, função física e saúde.
No estudo realizado com tirzepatida, por exemplo, houve
maior preservação de massa magra, mas não apareceu uma diferença clara de desempenho
físico durante o período observado.
Ou seja: ter mais massa magra no exame e transformar isso em
músculos mais fortes e funcionais não são necessariamente a mesma coisa.
A ciência ainda precisa responder essa parte.
Existe uma forma de
proteger músculo que já está disponível
Enquanto a indústria tenta desenvolver uma solução
farmacológica, existe uma estratégia bem menos sofisticada, e muito mais
acessível, mostrando bons resultados.
Treinar força.
Na análise que comparou diferentes formas de emagrecimento,
a combinação de mudanças no estilo de vida com exercícios de resistência foi
justamente a que apresentou a menor proporção de massa magra perdida.
Por isso, quando medicamentos produzem uma redução
expressiva de peso, o restante do tratamento ganha ainda mais importância.
Treinamento de força, consumo adequado de proteínas,
alimentação equilibrada e acompanhamento da composição corporal ajudam a
impedir que o tratamento seja resumido a uma única pergunta: “Quantos quilos
você perdeu?”
Para Dr. Cláudio Mutti, esse acompanhamento tende a se
tornar cada vez mais importante.
“Um tratamento de obesidade não deveria ter como único
objetivo fazer a balança baixar. O ideal é reduzir gordura, melhorar marcadores
metabólicos e preservar força e capacidade funcional. O peso é consequência de
um processo muito maior.”


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